sábado, 4 de março de 2017

Duas fábulas irmãs siamesas - Sérgio de Almeida


Fábula alfa: O cavaleiro errante e a rainha devassa

            Era uma vez um cavaleiro errante ferido em batalha que conseguiu asilo no castelo de uma rainha devassa com quem tivera esparsos contatos libidinosos em seus verões juvenis.
O cavaleiro não desejava reviver aqueles verões, mas a rainha se insinuava e o assediava sem deixar dúvidas de suas intenções. Nessas ocasiões o cavaleiro gentilmente a repelia ou se afastava. Contudo, por ser um sobrevivente precavido, não vedava tal perspectiva no futuro.
A rainha era inteiramente desprovida de formosura e o cavaleiro não via nela nada de especial. Poderia parecer que o vigor do cavaleiro quando mancebo era o motivo daqueles verões passados. Porém, mais condizente com o caráter do cavaleiro é imaginar que naqueles tempos ele estivera tão somente a semear a possibilidade de fazer do régio castelo um albergue gratuito e duradouro, sendo sua colheita o que aqui se narra.
O convívio com a rainha era quase sempre desagradável. Conversar era difícil porque despertava sono no cavaleiro ou desaguava em hostilidades. Em contraste, quando a rainha ingeria chás mágicos, ficava muito afável, fazia discursos pretensamente intelectuais e divagava sobre qualquer coisa, num lero-lero sem nexo.
A bem da verdade, o cavaleiro não enganou a rainha, pois quando pediu asilo deixou claro que era por necessidade e sem compromisso de se reviver o passado.
E não se pense que a anfitriã não recebeu benefícios do hóspede. Por sua idade e soberbia, a rainha era avessa a novos costumes. Grassava então em todos os reinos o uso de pombos-correios espertíssimos e o cavaleiro induziu a rainha a usufruir a novidade. Para sua surpresa, a rainha não largava mais o pombo, que vivia exausto de ir e vir com mensagens luxuriosas para os mancebos das redondezas. Obviamente a rainha era ignorada tão logo sua silhueta decrépita era vista de longe, mas ela sempre insistia, pois a ninguém é dado fugir da sua natureza.
            O cavaleiro naturalmente gostava de boa comida. A rainha era o oposto e não servia alimentos fortes ao cavaleiro para ele não se tornar uma lua cheia, que era seu jeito de ultrajar as pessoas bem nutridas e corpulentas. E teve o desplante de dizer que se pudesse viveria de luz para não precisar comer. Só se fosse da luz de uma escultura fálica em chamas, divagou para si o cavaleiro. E concluiu que ali seu saudável apetite seria sempre reprimido por aquela desnaturada, que só não reprimia seu apetite pela devassidão.
            Certa noite, depois de uma pequena rusga verbal com a rainha, o cavaleiro recebeu via pombo mensagem para que procurasse asilo em outro reino. Desde aquela noite até o anúncio da sua partida a rainha se portou com uma frieza indescritível. O cavaleiro ficou meio surpreso, pois o assédio havia cessado e as coisas pareciam estabilizadas. Depois de dois anos, mesmo com os inconvenientes, os benefícios eram maiores e ele praticamente se sentia na própria pátria.
            O cavaleiro admirava cantigas populares e, para irritar a rainha, que as detestava, pensou em um verso para recitar quando partisse: Se panela velha é que faz comida boa, convosco é diferente, ó patroa!
Todavia, no dia da partida o cavaleiro omitiu essa vulgaridade, traço que só nos outros a rainha menosprezava. Ela o levou à fronteira em sua carruagem de seduzir mancebos e falou, citando alguma história, que nalgum dia, que talvez nunca chegasse, ela talvez precisasse dele e que então não a renegasse. E caso surgisse alguma emergência, estaria à disposição.
O cavaleiro apenas ouviu e, quando olhou o reino à distância, imaginou que se fosse pedir uma derradeira coisa à contrariada rainha seria que ela não o denegrisse na corte e junto aos mancebos luxuriosos, pintando-o de egoísta, ingrato, aproveitador ou algo pior. E que lembrasse que todas as histórias têm no mínimo duas versões.
É que o cavaleiro era um sobrevivente errante e fazia o que todo sobrevivente faz em caso de necessidade: aproveitar o quanto possível a hospitalidade cortesã até ser dispensado. E não teria sido digno dele nem da acolhida da rainha pagar sua estadia com favores libidinosos, equiparando seu castelo a um prostíbulo.


Fábula ômega: O cronópio e a tênia

A Julio Cortázar, in memoriam

Era uma vez um pequeno cronópio solitário que acolheu em seu lar uma Taenia solium carente e adoentada com quem tivera breves contatos sentimentais e lúbricos em verões passados.
O cronópio acreditava que para além do pedido de acolhimento houvesse também interesse da tênia em reviver aqueles verões à medida que recuperasse a saúde, e de uma maneira mais profunda. Contudo, suas tentativas de intimidade eram repelidas ora com desdém, ora com indiferença, mas tal cenário não ficava descartado. Essa vaga promessa foi insuficiente e desanimadora, e as investidas sensuais do cronópio cessaram com o alternar das estações e o murchar do interesse.
O mesmo ocorreu com as investidas intelectuais cujo resultado, se positivo, poderia compensar a falta de receptividade sensual da tênia. Mas era também com desdém ou mesmo agressividade que as falas e opiniões do cronópio eram recebidas. E assim ele foi percebendo que a já saudável tênia não sabia o que era companheirismo, curiosidade ou filosofia. Mostrava-se incapaz de conexão afetiva, interação intelectual ou mera conversação amistosa. Se acaso tais artes lá repousassem, o cronópio era inábil para despertá-las.
Mas não se pense que o cronópio foi logrado pela tênia tal qual o sapo pelo escorpião na antiga fábula. No início, num certo dia de embriaguez, ouvira em alto e bom som da ventosa da própria tênia que ela era exatamente aquilo que era. Vendo espuma onde havia rocha, o cronópio tomou a declaração por um chiste e não lhe deu crédito.
Anos transcorreram num vácuo até que o cronópio sentiu-se exausto como alguém calejado de bater à porta de uma casa sem ninguém dentro. Aos poucos convenceu-se da natureza da criatura sob seu teto e de que espontaneamente ela nunca partiria. Finalmente concluiu que a única solução era afastar aquela presença que não lhe fazia companhia.
Por nutrir especial amor à literatura, o cronópio elaborou um epílogo com metáforas a ser solenemente declamado à tênia para servir de epitáfio da sua história: 
Metáfora química: A nossa solução atingiu o ponto de saturação e nada mais dissolve!
Metáfora física: A bolha da minha ilusão estourou e não tem mais jeito!
Metáfora bélica: As armas do meu arsenal foram inúteis diante da tua muralha!
Metáfora financeira: As tuas ações viraram pó na minha bolsa de valores!
Metáfora bíblica: O maná do meu céu vai parar de cair no deserto da tua alma!
No entanto, quando com frases simples e diretas e após vários adiamentos o cronópio conseguiu desertar a tênia, omitiu o elaborado epílogo por razões facilmente dedutíveis. Também por razões dedutíveis, nenhum obrigado saiu da ventosa da emonada tênia, que apenas seguia a sua natureza.
Sem agradecimento e sem epílogo terminou a história do acolhimento e do banimento da grande Taenia solium pelo pequeno cronópio.
É que más histórias não costumam gerar gratidão nem epílogo com metáforas. Às vezes, uma ou outra história ruim dá origem a rebuscadas analogias na imaginação vingativa de algum cronópio desiludido que ama a literatura.

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