domingo, 14 de maio de 2017

Os teólogos - Jorge Luis Borges

       Arrasado o jardim, profanados os cálices e os altares, entraram a cavalo os hunos na biblioteca monástica e rasgaram os livros incompreensíveis e os injuriaram e queimaram, talvez temerosos de que as letras encobrissem blasfêmias contra seu deus, que era uma cimitarra de ferro. Arderam palimpsestos e códices, mas no coração da fogueira, entre as cinzas, permaneceu quase intacto o livro duodécimo da Civitas Dei, que narra que Platão ensinou em Atenas que, no fim dos séculos, todas as coisas recuperarão seu estado anterior, e que ele, em Atenas, diante do mesmo auditório, de novo ensinará essa doutrina. O texto que as chamas perdoaram desfrutou de veneração especial e os que o leram e releram nessa remota província esqueceram que o autor só declarou tal doutrina para poder melhor refutá-la. Um século depois, Aureliano, coadjutor de Aquiléia, soube que às margens do Danúbio a novíssima seita dos monótonos (chamados também anulares) professava que a história é um círculo e que nada é que não tenha sido e que não será. Nas montanhas, a Roda e a Serpente tinham deslocado a Cruz. Todos temiam, mas todos se confortavam com o boato de que João de Panonia, que se distinguira com um tratado sobre o sétimo atributo de Deus, ia impugnar tão abominável heresia.
       Aureliano deplorou essas notícias, sobretudo a última. Sabia que em matéria teológica não há novidade sem perigo; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado dissímil, demasiado assombrosa para que o perigo fosse grave. (As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia.) Mais lhe doeu a intervenção – a intrusão – de João de Panonia. Havia dois anos, ele usurpara com seu palavroso De Septima Affectione Dei Sive de Aeternitate um assunto da especialidade de Aureliano; agora, como se o problema do tempo lhe pertencesse, ia retificar, talvez com argumentos de Procusto, com triagas mais temíveis que a Serpente, os anulares… Nessa noite, Aureliano folheou o antigo diálogo de Plutarco sobre a cessação dos oráculos; no parágrafo vinte e nove, leu uma burla contra os estoicos que defendem um infinito ciclo de mundos, com infinitos sóis, luas, Apolos, Dianas e Poseidons. O achado pareceu-lhe prognóstico favorável; resolveu adiantar-se a João de Panonia e refutar os heréticos da Roda.
       Há quem procure o amor de uma mulher para esquecer-se dela, para não pensar mais nela; Aureliano, da mesma forma, queria superar João de Panonia para curar-se do rancor que ele lhe infundia, não para fazer-lhe mal. Temperado pelo mero trabalho, pela construção de silogismos e pela invenção de injúrias, pelos nego e os autem e os nequaquam, pôde esquecer esse rancor. Erigiu vastos e quase inextricáveis períodos, entrecortados por incisos, em que a negligência e o solecismo pareciam formas de desdém. Da cacofonia fez um instrumento. Previu que João ia fulminar os anulares com gravidade profética; para não coincidir com ele, optou pelo escárnio. Agostinho tinha escrito que Jesus é a via reta que nos salva do labirinto circular em que andam os ímpios; Aureliano, laboriosamente trivial, comparou-os a Ixion, ao fígado de Prometeu, a Sísifo, àquele rei de Tebas que viu dois sóis, à gaguice, a louros, a espelhos, a ecos, a mulas de carga e a silogismos bicornutos. (As fábulas gentílicas perduravam, rebaixadas a adornos.) Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não conhecê-la até o fim; essa controvérsia permitiu-lhe chegar a um acordo com muitos livros que pareciam censurar sua incúria. Assim pôde engastar uma passagem da obra De Principiis de Orígenes, na qual se nega que Judas Iscariotes voltará a vender o Senhor, e Paulo, a presenciar o martírio de Estêvão em Jerusalém, e outra dos Academica Priora de Cícero, em que este zomba dos que sonham que, enquanto ele conversa com Lúculo, outros Lúculos e outros Cíceros, em número infinito, dizem exatamente o mesmo, em infinitos mundos iguais. Além disso, esgrimiu contra os monótonos o texto de Plutarco e denunciou o escândalo de que a um idólatra valesse mais o lumen naturae que a eles a palavra de Deus. Nove dias lhe tomou esse trabalho; no décimo, foi-lhe enviada uma cópia da refutação de João de Panonia.
       Era quase irrisoriamente breve. Aureliano olhou-a com desdém e depois com temor. A primeira parte glosava os versículos finais do nono capítulo da Epístola aos Hebreus, na qual se diz que Jesus não foi sacrificado muitas vezes desde o início do mundo, senão agora uma vez na consumação dos séculos. A segunda alegava o preceito bíblico sobre as vãs repetições dos gentios (Mateus 6, 7) e aquela passagem do sétimo livro de Plínio, que pondera não haver no vasto universo duas faces iguais. João de Panonia declarava que tampouco há duas almas e que o pecador mais vil é precioso como o sangue que por ele verteu Jesus Cristo. O ato de um único homem (afirmou) pesa mais que os nove céus concêntricos, e imaginar que possa perder-se e voltar é uma aparatosa frivolidade. O tempo não refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o para a glória e também para o fogo. O tratado era límpido, universal; não parecia redigido por uma pessoa específica, mas por qualquer homem ou, talvez, por todos os homens.
       Aureliano sentiu uma humilhação quase física. Pensou em destruir ou reformar seu próprio trabalho; em seguida, com rancorosa probidade, mandou-o para Roma sem modificar uma letra. Meses depois, quando se reuniu o Concílio de Pérgamo, o teólogo encarregado de impugnar os erros dos monótonos foi (previsivelmente) João de Panonia; sua douta e comedida refutação bastou para que Euforbo, heresiarca, fosse condenado à fogueira. “Isto ocorreu e voltará a ocorrer”, disse Euforbo. “Não acendeis uma pira, acendeis um labirinto de fogo. Se aqui se unissem todas as fogueiras que eu tenho sido, não caberiam na terra e os anjos ficariam cegos. Isto eu falei muitas vezes.” Depois gritou, porque as chamas o atingiram.
       Caiu a Roda diante da Cruz [1], mas Aureliano e João prosseguiram sua batalha secreta. Militavam os dois no mesmo exército, ansiavam pelo mesmo galardão, guerreavam contra o mesmo Inimigo, mas Aureliano não escreveu uma palavra que inconfessavelmente não pretendesse superar João. Seu duelo foi invisível; se os numerosos índices não me enganam, não figura uma única vez o nome do outro nos muitos volumes de Aureliano que a Patrologia de Migne entesoura. (Das obras de João, só permaneceram vinte palavras.) Os dois desaprovaram os anátemas do segundo Concílio de Constantinopla; os dois perseguiram os arianos, que negavam a geração eterna do Filho; os dois testemunharam a ortodoxia da Topographia Christiana de Cosmas, que ensina ser a Terra quadrangular, como o tabernáculo hebreu. Desgraçadamente, pelos quatro ângulos da terra difundiu-se outra tempestuosa heresia. Oriunda do Egito ou da Ásia (porque os testemunhos diferem e Bousset não quer admitir as razões de Harnack), infestou as províncias orientais e erigiu santuários na Macedônia, em Cartago e em Tréveris. Parecia estar em todas as partes; foi dito que nas dioceses da Bretanha tinham sido invertidos os crucifixos e que a imagem do Senhor, em Cesaréia, viu-se suplantada por um espelho. O espelho e o óbolo eram emblemas dos novos cismáticos.
       A história os conhece por muitos nomes (especulares, abismais, cainitas), mas de todos o mais aceito é histriões, dado por Aureliano e que eles com atrevimento adotaram. Na Frigia foram chamados de simulacros, e também na Dardânia. João Damasceno chamou-os de formas; é justo advertir que a passagem tem sido repelida por Erfjord. Não há heresiólogo que, com espanto, não aluda a seus desmedidos costumes. Muitos histriões professaram o ascetismo; um que outro se mutilou, como Orígenes; outros moraram debaixo da terra, nas cloacas; outros arrancaram os olhos; outros (os nabucodonosores de Nitria) “pastavam como os bois e seu cabelo crescia como as penas da águia”. Da mortificação e do rigor passavam, muitas vezes, ao crime; certas comunidades toleravam o roubo; outras, o homicídio; outras, a sodomia, o incesto e a bestialidade. Todas eram blasfemas; não só maldiziam o Deus cristão como as arcanas divindades de seu próprio panteão. Maquinaram livros sagrados, cujo desaparecimento os doutos deploram. Sir Thomas Browne, por volta de 1658, escreveu: “O tempo aniquilou os ambiciosos Evangelhos Histriônicos, não as Injúrias com que se fustigou sua Impiedade”; Erfjord sugeriu que essas “injúrias” (que um códice grego preserva) são os evangelhos perdidos. Isso é incompreensível, se ignoramos a cosmologia dos histriões.
       Nos livros herméticos está escrito que o que existe embaixo é igual ao que existe em cima, e o que existe em cima, igual ao que existe embaixo; no Zohar, que o mundo inferior é reflexo do superior. Os histriões fundaram sua doutrina sobre uma perversão dessa ideia. Invocaram Mateus 6, 12 (“perdoa nossas dívidas, como nós perdoamos a nossos devedores”) e 11, 12 (“o reino dos céus adquire-se à força”) para demonstrar que a terra influi no céu, e I Coríntios 13,12 (“vemos agora como que por um espelho, em enigma”) para demonstrar que tudo o que vemos é falso. Talvez contaminados pelos monótonos, imaginaram que todo homem é dois homens e que o verdadeiro é o outro, o que está no céu. Também imaginaram que nossos atos projetam um reflexo invertido, de maneira que, se velamos, o outro dorme, se fornicamos, o outro é casto, se roubamos, o outro é generoso. Mortos, nos uniremos a ele e seremos ele. (Algum eco dessas doutrinas perdurou em Bloy.) Outros histriões discorreram que o mundo acabaria quando se esgotasse o número de suas possibilidades; já que não pode haver repetições, o justo deve eliminar (cometer) os atos mais infames, para que estes não manchem o futuro e para acelerar a vinda do reino de Jesus. Esse artigo foi negado por outras seitas, que defenderam que a história do mundo deve cumprir-se em cada homem. Os demais, como Pitágoras, deverão transmigrar por muitos corpos antes de conseguir sua liberação; alguns, os proteicos, “no termo de uma só vida são leões, são dragões, são javalis, são água e são uma árvore”. Demóstenes cita a purificação pela lama a que eram submetidos os iniciados nos mistérios órficos; os proteicos, analogicamente, procuraram a purificação pelo mal. Entenderam, como Carpócrates, que ninguém sairá da prisão até pagar o último óbolo (Lucas 12, 59), e costumavam ludibriar os penitentes com este outro versículo: “Eu vim para que os homens tenham vida e para que a tenham em abundância” (João 10,10). Também diziam que não ser malvado é soberba satânica… Muitas e divergentes mitologias urdiram os histriões; uns pregaram o ascetismo, outros a licenciosidade, todos a confusão. Teopompo, histrião de Berenice, negou todas as fábulas; disse que cada homem é um órgão que projeta a divindade para sentir o mundo.
       Os hereges da diocese de Aureliano eram dos que afirmavam que o tempo não tolera repetições, não dos que afirmavam que todo ato se reflete no céu. Essa circunstância era estranha; em um relatório às autoridades romanas, Aureliano mencionou-a. O prelado que receberia o relatório era confessor da imperatriz; ninguém ignorava que esse ministério exigente lhe vedava as íntimas delícias da teologia especulativa. Seu secretário – antigo colaborador de João de Panonia, agora inimizado com ele – gozava do renome de pontualíssimo inquisidor de heterodoxias; Aureliano acrescentou uma exposição da heresia histriônica, tal como esta se dava nos conventículos de Gênova e de Aquileia. Redigiu alguns parágrafos; quando quis escrever a tese horrível de que não existem dois instantes iguais, sua pena se deteve. Não encontrou a fórmula necessária; as admoestações da nova doutrina (“Queres ver o que não viram os olhos humanos? Olha a lua. Queres ouvir o que os ouvidos não ouviram? Ouve o grito do pássaro. Queres tocar o que não tocaram as mãos? Toca a terra. Digo, verdadeiramente, que Deus está por criar o mundo”) eram bastante afetadas e metafóricas para a transcrição. De repente, uma oração de vinte palavras apresentou-se a seu espírito. Escreveu-a, jubiloso; logo depois, inquietou-o a suspeita de que ela fosse de outro. No dia seguinte, lembrou-se de que a lera havia muitos anos no Adversus Annulares composto por João de Panonia. Verificou a citação; ali estava. A incerteza o atormentou. Alterar ou suprimir essas palavras era debilitar a expressão; deixá-las era plagiar um homem que ele abominava; indicar a fonte era denunciá-lo. Implorou o socorro divino. No princípio do segundo crepúsculo, seu anjo da guarda ditou-lhe uma solução intermédia. Aureliano conservou as palavras, mas lhes antepôs este aviso: “O que ladram agora os heresiarcas para confusão da fé, disse-o neste século um varão doutíssimo, com mais irreflexão que culpa”. Depois, aconteceu o temido, o esperado, o inevitável. Aureliano teve de declarar quem era esse varão; João de Panonia foi acusado de professar opiniões heréticas.
       Quatro meses depois, um ferreiro de Aventino, alucinado pelos enganos dos histriões, pôs sobre os ombros de seu filhinho uma grande bola de ferro, a fim de que seu outro voasse. O menino morreu; o horror produzido por esse crime impôs uma irrepreensível severidade aos juízes de João. Este não quis retratar-se; repetiu que negar sua proposição era incorrer na pestilencial heresia dos monótonos. Não entendeu (não quis entender) que falar dos monótonos era falar do que já estava esquecido. Com insistência um tanto senil, desperdiçou os períodos mais brilhantes de suas velhas polêmicas; os juízes nem sequer ouviam aquilo que outrora os arrebatara. Em lugar de tratar de purificar-se da mais leve mácula de histrionismo, esforçou-se em demonstrar que a proposição de que o acusavam era rigorosamente ortodoxa. Discutiu com os homens de cuja sentença dependia sua sorte e cometeu a máxima grosseria de fazê-lo com talento e com ironia. No dia 26 de outubro, depois de uma discussão que durou três dias e três noites, sentenciaram-no a morrer na fogueira.
       Aureliano presenciou a execução, porque não o fazer seria confessar-se culpado. O lugar do suplício era uma colina, em cujo verde pico havia uma estaca, fincada profundamente no solo, e em torno dela muitas achas de lenha. Um ministro leu a sentença do tribunal. Sob o sol das doze, João de Panonia jazia com o rosto no pó, lançando uivos bestiais. Arranhava a terra, mas os verdugos o ergueram, o despiram e por fim o amarraram ao pelourinho. Puseram-lhe à cabeça uma coroa de palha untada de enxofre; ao lado, um exemplar do pestilento Adversus Annulares. Chovera na noite anterior e a lenha ardia mal. João de Panonia rezou em grego e depois em um idioma desconhecido. A fogueira ia levá-lo quando Aureliano se atreveu a erguer os olhos. As chamas ardentes se detiveram; Aureliano, pela primeira e última vez, viu o rosto do odiado. Lembrou-lhe o de alguém, mas não pôde precisar de quem. Depois, as chamas o perderam; depois, gritou e foi como se um incêndio gritasse.
       Plutarco conta que Júlio César chorou a morte de Pompeu; Aureliano não chorou a de João, mas sentiu aquilo que sentiria um homem curado de uma enfermidade incurável que já fosse parte de sua vida. Em Aquileia, em Éfeso, na Macedônia, deixou que sobre si passassem os anos. Procurou os difíceis limites do Império, os rudes lamaçais e os contemplativos desertos, para que a solidão o ajudasse a entender seu destino. Numa cela mauritana, na noite carregada de leões, repensou a complexa acusação contra João de Panonia e justificou, pela enésima vez, o veredicto. Custou-lhe mais justificar sua tortuosa denúncia. Em Rusaddir pregou o anacrônico sermão Luz das Luzes Acesa na Carne de Um Réprobo. Em Hibérnia, em uma das cabanas de um monastério cercado pela selva, surpreendeu-o, numa noite até a alvorada, o rumor da chuva. Lembrou-se de uma noite romana em que fora surpreendido, também, por esse minucioso rumor. Um raio, ao meio-dia, incendiou as árvores e Aureliano pôde morrer como morrera João.
       O final da história só pode ser narrado com metáforas, já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confusão na mente divina. Mais correto é dizer que no paraíso Aureliano soube que, para a insondável divindade, ele e João de Panonia (o ortodoxo e o herege, o odiado e o que odeia, o acusador e a vítima) formavam uma única pessoa.

[ 1 ] Nas cruzes rúnicas os dois emblemas inimigos convivem entrelaçados.

Jorge Luis Borges, in O Aleph (1949). Tradução de Flávio José Cardozo. Editora Globo, S. Paulo, 1998.

sábado, 4 de março de 2017

Duas fábulas irmãs siamesas - Sérgio de Almeida


Fábula alfa: O cavaleiro errante e a rainha devassa

            Era uma vez um cavaleiro errante ferido em batalha que conseguiu asilo no castelo de uma rainha devassa com quem tivera esparsos contatos libidinosos em seus verões juvenis.
O cavaleiro não desejava reviver aqueles verões, mas a rainha se insinuava e o assediava sem deixar dúvidas de suas intenções. Nessas ocasiões o cavaleiro gentilmente a repelia ou se afastava. Contudo, por ser um sobrevivente precavido, não vedava tal perspectiva no futuro.
A rainha era inteiramente desprovida de formosura e o cavaleiro não via nela nada de especial. Poderia se pensar que o vigor do cavaleiro quando mancebo era o motivo daqueles verões passados. Porém, mais condizente com o caráter do cavaleiro é imaginar que naqueles tempos ele estivera tão somente a semear a possibilidade de fazer do régio castelo um albergue gratuito e duradouro, e a sua colheita é o que aqui se narra.
O convívio diário com a rainha era quase sempre desagradável. Conversar era difícil porque despertava sono no cavaleiro ou desaguava em hostilidades. Em contraste, quando a rainha ingeria chás mágicos, ficava muito afável, fazia discursos pretensamente intelectuais e divagava sobre qualquer coisa, num lero-lero sem nexo.
A bem da verdade, o cavaleiro não enganou a rainha, pois quando pediu asilo ficou claro para ambos que era por necessidade e sem compromisso de se reviver o passado.
E não se pense que a anfitriã não recebeu benefícios do hóspede. Por sua idade e soberbia, a rainha era avessa a novos costumes. Grassava então em todos os reinos o uso de pombos-correios espertíssimos e o cavaleiro induziu a rainha a usufruir a novidade. Para sua surpresa, a rainha não largava mais o pombo, que vivia exausto de ir e vir com mensagens luxuriosas para os mancebos das redondezas. Obviamente a rainha era ignorada tão logo sua silhueta decrépita era vista de longe, mas ela sempre insistia, pois a ninguém é dado fugir da sua natureza.
            O cavaleiro naturalmente gostava de boa comida. A rainha era o oposto e não servia alimentos fortes ao cavaleiro para ele não se tornar uma lua cheia, que era seu jeito de ultrajar as pessoas bem nutridas e corpulentas. E teve o desplante de dizer que se pudesse viveria de luz para não precisar comer. Só se fosse da luz de uma escultura fálica em chamas, divagou para si o cavaleiro. E concluiu que ali seu saudável apetite seria sempre reprimido por aquela desnaturada, que só não reprimia seu apetite pela devassidão.
            Certa noite, depois de uma pequena rusga verbal com a rainha, o cavaleiro recebeu via pombo mensagem para que procurasse asilo em outro reino. Desde aquela noite até o anúncio da sua partida a rainha se portou com uma frieza indescritível. O cavaleiro ficou meio surpreso, pois o assédio havia cessado e as coisas pareciam estabilizadas. Depois de dois anos, mesmo com os inconvenientes, os benefícios eram maiores e ele praticamente se sentia na própria pátria.
            O cavaleiro admirava cantigas populares e, para irritar a rainha, que as detestava, pensou em um verso para recitar quando partisse: Se panela velha é que faz comida boa, convosco é diferente, ó patroa!
Todavia, no dia da partida o cavaleiro omitiu essa vulgaridade, traço que só nos outros a rainha menosprezava. Ela o levou em sua carruagem de seduzir mancebos à fronteira e disse-lhe, citando alguma história, que nalgum dia, que talvez nunca chegasse, ela poderia precisar dele e que então não a renegasse. E caso surgisse alguma emergência, estaria à disposição.
O cavaleiro apenas ouviu e, quando olhou o reino à distância, imaginou que se fosse pedir uma derradeira coisa à contrariada rainha seria que ela não o denegrisse na corte e junto aos mancebos luxuriosos, pintando-o de egoísta, ingrato, aproveitador ou algo pior. E que lembrasse que todas as histórias têm no mínimo duas versões.
É que o cavaleiro era um sobrevivente errante e fazia o que todo sobrevivente faz em caso de necessidade: aproveitar o quanto possível a hospitalidade cortesã até ser dispensado. E não teria sido digno dele nem da acolhida da rainha pagar sua estadia com favores libidinosos, equiparando seu castelo a um prostíbulo.


Fábula beta: O cronópio e a tênia

A Julio Cortázar, in memoriam

Era uma vez um pequeno cronópio solitário que acolheu em seu lar uma Taenia solium carente e adoentada com quem tivera breves contatos sentimentais e lúbricos em verões passados.
O cronópio acreditava que para além do pedido de acolhimento houvesse também interesse da tênia em reviver aqueles verões à medida que recuperasse a saúde, e de uma maneira mais profunda. Contudo, suas tentativas de intimidade eram repelidas ora com desdém, ora com indiferença, mas tal cenário não ficava descartado. Essa vaga promessa foi insuficiente e desanimadora, e as investidas sensuais do cronópio cessaram com o alternar das estações e o murchar do interesse.
O mesmo ocorreu com as investidas intelectuais cujo resultado, se positivo, poderia compensar a falta de sensualidade receptiva da tênia. Mas era também com desdém ou mesmo com agressividade que as falas e opiniões do cronópio eram recebidas. E assim ele foi percebendo que a já saudável tênia não sabia o que era companheirismo, curiosidade ou filosofia. Mostrava-se incapaz de conexão afetiva, interação intelectual ou mera conversação amistosa. Se acaso tais artes lá repousassem, o cronópio era inábil para despertá-las.
Mas não se pense que o cronópio foi logrado pela tênia tal qual o sapo pelo escorpião na antiga fábula. No início, num certo dia de embriaguez, ouvira em alto e bom som da ventosa da própria tênia que ela era exatamente aquilo que era. Vendo espuma onde havia rocha, o cronópio tomou a declaração por um chiste e não lhe deu crédito.
Anos transcorreram num vácuo até que o cronópio sentiu-se exausto como alguém calejado de bater à porta de uma casa sem ninguém dentro. Aos poucos convenceu-se da natureza da criatura sob seu teto e de que espontaneamente ela nunca partiria. Finalmente concluiu que a única solução era afastar aquela presença que não lhe fazia companhia.
Por nutrir especial amor à literatura, o cronópio elaborou um epílogo com metáforas a ser solenemente declamado à tênia para servir de epitáfio da sua história: 
Metáfora química: A nossa solução atingiu o ponto de saturação e nada mais dissolve!
Metáfora física: A bolha da minha ilusão estourou e não tem mais jeito!
Metáfora bélica: As armas do meu arsenal foram inúteis diante da tua muralha!
Metáfora financeira: As tuas ações viraram pó na minha bolsa de valores!
Metáfora bíblica: O maná do meu céu vai parar de cair no deserto da tua alma!
No entanto, quando com frases simples e diretas e após vários adiamentos o cronópio conseguiu desertar a tênia, omitiu o elaborado epílogo por razões facilmente dedutíveis. Também por razões dedutíveis, nenhum obrigado saiu da ventosa da emonada tênia, que apenas seguia a sua natureza.
Sem agradecimento e sem epílogo terminou a história do acolhimento e do banimento da grande Taenia solium pelo pequeno cronópio.
É que más histórias não costumam gerar gratidão nem epílogo com metáforas. Às vezes, uma ou outra história ruim dá origem a rebuscadas analogias na imaginação vingativa de algum cronópio desiludido que ama a literatura.

                                   *   *   *

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

As dores do mundo - Arthur Schopenhauer

            Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode-se dizer que não tem razão alguma de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim que nasce da miséria inerente à vida e enche o mundo seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.
            Assim como um regato corre sem ímpetos enquanto não encontra obstáculos, do mesmo modo, na natureza animal, a vida corre inconsciente e descuidosa quando coisa alguma se lhe opõe à vontade. Se a atenção desperta, é porque a vontade não era livre e se produziu algum choque. Tudo o que se ergue em frente da nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste, isto é, tudo o que há de desagradável e de doloroso, sentimo-lo ato contínuo e muito nitidamente. Não nos atentamos à saúde geral do nosso corpo, mas notamos o ponto ligeiro onde o sapato nos molesta; não apreciamos o conjunto próspero dos nossos negócios, e só pensamos numa ninharia insignificante que nos desgosta. - O bem-estar e a felicidade são, portanto, negativos, só a dor é positiva.
            Não conheço nada mais absurdo que a maior parte dos sistemas metafísicos, que explicam o mal como uma coisa negativa; só ele, pelo contrário, é positivo, visto que se faz sentir... O bem, a felicidade, a satisfação são negativos, porque não fazem senão suprimir um desejo e terminar um desgosto.
            Acrescente-se a isto que em geral achamos as alegrias abaixo da nossa expectativa, ao passo que as dores a excedem sobremaneira.
            Se quereis num momento esclarecer-vos a este respeito, e saber se o prazer é superior ao desgosto, ou se apenas se compensam, comparai a impressão do animal que devora outro com a impressão do que é devorado.

            A mais eficaz consolação em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é voltar os olhos para aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: este remédio encontra-se ao alcance de todos. Mas que resulta daí para o conjunto?
            Semelhantes aos carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o carniceiro faz a sua escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara precisamente a essa hora — doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura, etc.
            Tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. Na vida dos povos, a História só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos intervalos de entreatos, uma vez por acaso. E da mesma maneira a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. Em toda a parte se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão.

            Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que nos inquieta, que não nos deixa respirar, e se conserva atrás de cada um de nós como um vigia forçado-nos de chicote em punho. — Poupa apenas aqueles que entregou ao aborrecimento.

            Portanto, assim como o nosso corpo rebentaria se estivesse sujeito à pressão da atmosfera, do mesmo modo, se o peso da miséria, do desgosto, dos reveses e dos vãos esforços fosse banido da vida do homem, o excesso da sua arrogância seria tão desmedido que o faria em bocados, ou pelo menos o conduziria à insânia mais desordenada e à loucura furiosa. — Em todo o tempo, cada um precisa ter um certo número de cuidados, de dores ou de miséria, do mesmo modo que o navio carece de lastro para manter-se em equilíbrio e andar direito.
            Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados, com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Coloque-se esta raça num país de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de todas as bocas, onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente possível — ver-se-ia então os homens morrerem de tédio, ou enforcarem-se, outros disputarem, matarem-se, e causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe. — Assim, para semelhante raça, nenhum outro teatro, nenhuma outra existência conviriam.

            Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós, como as crianças em frente do pano de um teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que vão passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente se vai passar, as crianças são inocentes culpados condenados não à morte mas à vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua sentença. — Nem por isso todos deixam de ter o desejo de chegar a uma idade avançada, isto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo: "Hoje é mau, e cada dia o será mais — até que chegue o pior de todos."

            Quando se representa, tanto quanto é possível fazê-lo de uma maneira aproximada, a soma de miséria, de dor e de sofrimentos de todas as espécies que o Sol ilumina no seu curso, deve-se concordar que valeria muito mais que esse astro tivesse o mesmo poder na Terra para fazer surgir o fenômeno da vida que tem na Lua, e seria preferível que a superfície da Terra como a da Lua se mantivesse ainda no estado de cristal.
            Pode ainda se considerar a nossa vida como um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada. Seja como for, aquele para quem a existência é quase suportável, à medida que avança em idade, tem uma consciência cada vez mais clara de que ela é em todas as coisas um disappointment, nay, a cheat [uam decepção, ou melhor uma fraude], em outros termos, que ela possui o caráter de uma grande mistificação, para não dizer de um logro...
            Alguém que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma disposição de espírito que um espectador que, sentado numa barraca de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas repetidas duas ou três vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma única representação e já não fazem nenhum efeito, uma vez dissipadas a ilusão e a novidade.
            Perder-se-ia a cabeça, se se observasse a prodigalidade das disposições tomadas, essas estrelas fixas que brilham inumeráveis no espaço infinito, e não têm outro fim senão iluminar mundos, teatros da miséria e dos gemidos, mundos que, no mais feliz dos casos, só produzem o tédio: — pelo menos a apreciarmos a amostra que nos é conhecida.
            Ninguém é verdadeiramente digno de inveja, e quantos são para lastimar!
            A vida é uma tarefa que devemos desempenhar laboriosamente; e neste sentido, a palavra defunctus é uma bela expressão.
            Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma voluptuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda? Não sentiriam todos bastante piedade pela geração futura, para lhe poupar o peso da existência, ou, pelo menos, não hesitariam em impor esse a ela a sangue frio?
            O mundo é o inferno, e os homens dividem-se em almas atormentadas e em diabos atormentadores.
            Certamente ainda terei de ouvir dizer que a minha filosofia carece de consolação — e isso simplesmente porque digo a verdade, enquanto todos gostam de ouvir dizer: o Senhor Deus fez bem tudo quanto fez. Ide à igreja e deixai os filósofos em paz. Pelo menos não exijam que eles ajustem as suas doutrinas ao vosso catecismo: é o que fazem os indigentes e os filosofastros: a esses podem-se encomendar doutrinas ao gosto de cada um. Perturbar o otimismo obrigado dos professores de filosofia é tão fácil como agradável.
            Brama produz o mundo por uma espécie de pecado ou desvario, e permanece ele próprio no mundo para expiar esse pecado até estar redimido. — Muito bem! — No Budismo, o mundo nasce em seguida a uma perturbação inexplicável, que se produz após um longo repouso nessa claridade do céu, nessa beatitude serena, chamada Nirvana, que será reconquistada pela penitência; é como que uma espécie de fatalidade que se deve compreender no fundo de um sentido moral, ainda que essa explicação tenha uma analogia e uma imagem exatamente correspondente na natureza pela formação inexplicável do mundo primitivo, vasta nebulosa donde surgirá um sol. Mas os erros morais tornam mesmo o mundo físico gradualmente pior e sempre pior, até ter tomado a sua triste forma atual.
            Para os gregos, o mundo e os deuses eram a obra de uma necessidade insondável. Esta explicação é suportável, porque nos satisfaz provisoriamente. Ormuzd vive em guerra com Ahriman: — isto ainda se pode admitir. — Mas um Deus como esse Jeová, que animi causa, por seu bel-prazer e muito voluntariamente produz este mundo de miséria e de lamentações, e que ainda se felicita e se aplaude, é que é demasiado forte! Consideremos, portanto, nesse ponto de vista, a religião dos judeus como a última entre as doutrinas religiosas dos povos civilizados; o que concorda perfeitamente com o fato de ser ela também a única que não tem absolutamente nenhum vestígio de imortalidade.
            Ainda mesmo que a demonstração de Leibnitz fosse verdadeira, embora se admitisse que entre os mundos possíveis este é sempre o melhor, essa demonstração não daria ainda nenhuma teodiceia. Porque o criador não só criou o mundo, mas também a própria possibilidade; portanto, devia ter tornado possível um mundo melhor.
            A miséria, que alastra por este mundo, protesta demasiado alto contra a hipótese de uma obra perfeita devida a um ser absolutamente sábio, absolutamente bom, e também todo-poderoso; e, de outra parte, a imperfeição evidente e mesmo a burlesca caricatura do mais acabado dos fenômenos da criação, o homem, são de uma evidência demasiado sensível. Há aí uma dissonância que não se pode resolver. As dores e as misérias são, pelo contrário, outras tantas provas em apoio, quando consideramos o mundo como a obra da nossa própria culpa, e portanto como uma coisa que não podia ser melhor. Ao passo que na primeira hipótese, a miséria do mundo se torna uma acusação amarga contra o criador e dá margem aos sarcasmos, no segundo caso aparece como uma acusação contra o nosso ser e a nossa vontade, bem própria para nos humilhar.
            Conduz-nos a este profundo pensamento de que viemos ao mundo já viciados como os filhos de pais gastos pelos desregramentos, e que, se a nossa existência é de tal modo miserável, e tem por desenlace a morte, é porque temos continuamente essa culpa a expiar. De um modo geral não há nada mais certo: é a pesada culpa do mundo que causa os grandes e inúmeros sofrimentos a que somos votados; e entendemos esta relação no sentido metafísico e não no físico e empírico. Assim, a história do pecado original reconcilia-me com o antigo testamento; é mesmo a meus olhos a única verdade metafísica do livro, embora aí se apresente sob o véu da alegoria. Porque a nossa existência assemelha-se perfeitamente à consequência de uma falta e de um desejo culpado...
            Quereis ter sempre ao alcance da mão uma bússola segura a fim de vos orientar na vida e de a encarar incessantemente sob o seu verdadeiro prisma. Habituai-vos a considerar este mundo como um lugar de penitência, como uma colônia penitenciária, como lhe chamaram já os mais antigos filósofos (Clem. Alex. Strom. L. III, c. 3, p. 399) e alguns padres da Igreja. (Augustin. De civit. Dei, L. XI, 23).
            A sabedoria de todos os tempos, o Bramanismo, o Budismo, Empédocles e Pitágoras confirmaram este modo de ver; Cicero (Fragmenta de philosophia, vol. 12, p. 316, ed. Bip.) conta que os sábios antigos na iniciação dos mistérios ensinavam: nos ob aliqua scelera sucepta in vita superiore, pœnarum luendarum causa natos esse [Nascemos para cumprir a pena de álbuns crimes cometidos em uma vida anterior]. Vanini, que acharam mais cômodo queimar que refutar, exprime essa ideia da maneira mais enérgica, quando diz: Tot, tantisque homo repletus miseriis, ut si Christianæ religioni non repugnaret: dicere auderem, si dcemones dantur, ipsi, in hominum corpora transmigrantes, sceleris pænas luunt. [O homem está tão repleto de tantas misérias, que, se a religião cristã não se opusesse, eu me atreveria a dizer: se existem demônios, eles mesmos, ao passarem aos corpos dos homens, cumprem penas.] (De admirandis naturae arcanis, dial. L. p. 353.) Mas, mesmo no puro cristianismo bem compreendido, a nossa existência é considerada como a consequência de uma falta, de uma queda. Se nos familiarizarmos com esta ideia, não esperaremos da vida senão o que ela pode nos dar, e longe de considerarmos as suas contradições, sofrimentos, tormentos, misérias grandes ou pequenas, como coisas inesperadas, contrárias às regras, achá-las-emos perfeitamente naturais, sabendo bem que na Terra cada um sofre a pena da sua existência, e cada um a seu modo. Entre os males de um estabelecimento penitenciário, o menor não é a sociedade que nele se encontra. O que a sociedade dos homens vale, sabem-no aqueles que mereceriam outra melhor, sem que seja necessário que eu o diga. Uma bela alma, um gênio, podem por vezes experimentar aí os sentimentos de um nobre prisioneiro do Estado que se encontra nas galés rodeado de celerados vulgares; e, como ele, procuram isolar-se. Em geral, porém, esta ideia sobre o mundo torna-nos aptos a ver sem surpresa, e ainda mais, sem indignação, o que se chamam as imperfeições, isto é, a miserável constituição intelectual e moral da maior parte dos homens, que a sua própria fisionomia nos revela...
            A convicção de que o mundo e, por conseguinte, o homem são tais que não deveriam existir é apresentada de modo que nos deve encher de indulgência uns pelos outros; que se pode esperar, de fato, de uma tal espécie de seres? — Penso, às vezes, que a maneira mais conveniente de os homens se cumprimentarem em vez de ser Senhor, Sir etc, poderia ser: “companheiro de sofrimentos, soci malorum, companheiro de miséria, my fellow-sufferer”. Por muito original que isto pareça, a expressão é contudo fundada, lança sobre o próximo a luz mais verdadeira, e lembra a necessidade da tolerância, da paciência, da indulgência, do amor ao próximo, sem o que ninguém pode passar, e de que, portanto, todos são devedores.

Extraído de

SCHOPENHAUER, Arthur. As dores do mundo (p. 25-30). São Paulo, EDIPRO, 2014.