Jubilação
segunda-feira, 2 de março de 2026
Jubilação - Manoel de Barros
domingo, 13 de novembro de 2022
A face da glória - mito hindu, por Joseph Campbell
CAMPBELL: Em sua verdadeira essência e teor, a vida é um terrível mistério – todo esse esforço de viver através de matar e comer. Mas é uma atitude infantil dizer não à vida, com todo o seu sofrimento, dizer que a vida é algo que não devia existir.
Só a morte está isenta de dificuldade. As pessoas me perguntam: “Você é otimista em relação ao mundo?” E eu digo: “Sim, o mundo é grande exatamente como é. E você não vai consertá-lo. Ninguém jamais conseguiu melhorá-lo. Ele nunca será melhor do que é. É isso mesmo, portanto, aceite-o ou deixe-o. Você não vai corrigi-lo nem aperfeiçoá-lo”.
MOYERS: Isso não conduz a uma atitude francamente passiva
diante do mal?
CAMPBELL: Você mesmo é um participante do mal, caso
contrário não estaria vivo. O que quer que você faça é mau para alguém. Essa é
uma das ironias de toda a criação.
MOYERS: E o que se passa na mitologia com essa ideia de bem
e mal, da vida como conflito entre as forças das trevas e as forças da luz?
CAMPBELL: Essa é uma ideia zoroástrica, como tal introduzida
no judaísmo e no cristianismo. Em outras tradições, o bem e o mal são relativos
à posição em que você se coloca. O que é bom para um é mau para outro. E você
desempenha o seu papel, sem cogitar de abandonar o mundo quando percebe quão
horrível ele é, e vê que esse horror é apenas o pano de fundo de algo
maravilhoso: um mysterium tremendum et fascinans.
“Toda vida é dolorosa” é o
primeiro ensinamento budista, e assim é. Não haveria vida sem a implicação da
temporalidade, que significa dor – perda, perda, perda. É preciso dizer sim à
vida e encará-la como magnificente, do jeito que é; pois foi certamente assim
que Deus a concebeu.
MOYERS: Você realmente acredita nisso?
CAMPBELL: Ela é cheia de alegria, tal como é. Não acredito que
alguém a tenha concebido assim, mas é assim que ela é. James Joyce tem uma frase
inesquecível: “A história é um pesadelo de que estou tentando despertar”. E a
maneira de despertar é não ter medo e reconhecer que tudo isso, tal qual é, é a
manifestação do horrendo poder contido em toda criação. A finitude das coisas é
sempre dolorosa. Mas a dor, em suma, é parte integrante da existência do mundo.
MOYERS: Mas, ao aceitar isso como conclusão derradeira, você
abdica de construir qualquer lei ou de empreender qualquer luta ou...
CAMPBELL: Eu não disse isso.
MOYERS: Não é a conclusão lógica que se extrai de aceitar
tudo tal como é?
CAMPBELL: Essa não é a conclusão necessária a se extrair.
Você poderia dizer: “Vou participar desta vida, vou me alistar no exército, vou
à guerra”, e assim por diante.
MOYERS: “Vou fazer o melhor que posso.”
CAMPBELL: “Vou tomar parte no jogo. É um espetáculo maravilhoso,
maravilhoso – se bem que dói um pouco.”
Afirmar sem reservas é difícil.
Nós sempre afirmamos em termos condicionais. Eu afirmo o mundo sob a condição de
que ele seja do jeito que Papai Noel disse que devia ser. Mas afirmá-lo do modo
como ele é... isso é que é difícil, e é disso que tratam os rituais. Ritual é participação
de grupo no mais hediondo dos atos, que é o ato da vida – especificamente, matar
e comer outro ente vivo. Fazemos isso juntos, e assim é a vida. O herói é
aquele que participa corajosa e decentemente da vida, no rumo da natureza e não
em função do rancor, da frustração e da vingança pessoais.
O âmbito de ação do herói não é
o transcendente, mas o aqui e agora, na esfera do tempo, o âmbito do bem e do
mal, dos pares de opostos. Sempre que alguém se afasta do transcendente, cai na
esfera dos opostos. Comeu-se da árvore do conhecimento do bem e do mal, e também
do masculino e feminino, do certo e errado, disso e daquilo, da luz e da treva.
Tudo na esfera do tempo é dual: passado e futuro, morto e vivo, ser e não ser. Mas
o par supremo, que somos capazes de imaginar, é macho e fêmea, sendo o macho
agressivo e a fêmea, receptiva; sendo o macho o guerreiro e a fêmea, o
sonhador. Temos aí o reino do amor e o reino da guerra, Eros e Tanatos, como
diz Freud.
Heráclito disse que para Deus todas
as coisas são boas, certas e justas, mas para o homem algumas são certas,
outras não. Uma vez sendo homem, você está na esfera do tempo e das decisões. Um
dos problemas da vida consiste em enfrentá-la com a consciência de ambos os termos,
ou seja: “Conheço o centro, e sei que bem e mal são apenas aberrações temporais
e que, aos olhos de Deus, não há diferenças”.
MOYERS: É a ideia que está nos Upanixades: “Nem macho, nem fêmea,
tampouco neutro. Qualquer que seja o corpo que assuma, através desse corpo será
servido”.
CAMPBELL: Correto. Jesus diz: “Não julgue, para não ser
julgado”. O que significa dizer: Situe-se de volta na posição do Paraíso, antes
de pensar em termos de bem e mal. Não é exatamente o que se ouve nos púlpitos. Mas
um dos grandes desafios da vida é dizer “sim” àquela pessoa, àquele ato ou àquela
condição que você considera a mais abominável.
MOYERS: A mais abominável?
CAMPBELL: Há dois aspectos em coisas dessa ordem. Um é o
seu julgamento na esfera da ação, outro é o seu julgamento como observador metafísico.
Você não pode dizer que não deveria haver serpentes venenosas, porque essa é a
lei da vida. Mas na esfera da ação, ao ver uma serpente venenosa prestes a picar
alguém, você a mata. Isso não é dizer “não” à serpente, mas dizer “não” à
situação. Há uma passagem maravilhosa no Rig Veda que diz: “Na árvore” –
é a árvore da vida, a árvore da sua própria vida “há dois pássaros, amigos
ligeiros. Um come o fruto da árvore; o outro, sem comer, observa”. Pois bem,
aquele que come o fruto da árvore está matando um fruto. A vida vive da vida,
isso é tudo.
[A face da glória]
Um breve mito hindu conta a
história do grande deus Shiva, o Senhor cuja dança é o universo. Ele tinha como
sua consorte a deusa Parvati, filha do rei da montanha. Um monstro veio até ele e
disse: “Quero sua mulher como minha amante”. Shiva ficou indignado, e
simplesmente abriu seu terceiro olho e, desfechando raios, golpeou a terra; houve
fumaça e fogo, e quando a fumaça clareou havia outro monstro, faminto, com os cabelos
como os cabelos de um leão, voando nas quatro direções. O primeiro monstro viu
que o monstro faminto estava prestes a devorá-lo. Pois bem, o que você faz
quando se encontra numa situação como essa? A cautela convencional aconselha colocar-se
à mercê da divindade. Então o monstro disse: “Shiva, eu me rendo à sua mercê”. Bem,
existem regras para este jogo divino. Quando alguém se rende à sua mercê, então
você deve mostrar-se misericordioso.
Então Shiva disse: “Eu lhe
ofereço minha misericórdia. Monstro faminto, não o devore”.
“Bem”, disse o monstro
faminto, “que devo fazer? Estou com fome. Você me fez faminto, para devorar a
este monstro aqui.”
“Bem”, disse Shiva, “devore-se
a si mesmo”.
Então o monstro faminto
começou pelos próprios pés e continuou a mastigar, a mastigar – e essa é uma
imagem da vida que vive da vida. Por fim, nada restou do monstro senão sua face.
Shiva olhou para essa face e disse: “Nunca vi uma demonstração mais eloquente
do que essa sobre o que é a vida. Vou chamar você de Kirtimukha – a face da glória”.
Você verá essa máscara, essa face da glória, nos portais dos templos de Shiva e
dos templos budistas. Shiva disse à face: “Aquele que não se prostrar diante de
você não será digno de vir até mim”.
Você deve dizer “sim” ao
milagre da vida, tal como é, e não sob a condição de que ele siga as suas
regras. Caso contrário, você nunca chegará à dimensão metafisica.
Certa vez, na Índia, pensei
que gostaria de conhecer um grande guru ou mestre, face a face. Assim,
dirigi-me a um celebrado mestre chamado Sri Krishna Menon, e a primeira coisa
que ele me disse foi: “Você tem alguma pergunta?”
O mestre, nessa tradição,
sempre responde a perguntas. Ele jamais lhe diz qualquer coisa que você não
esteja apto a ouvir. Então eu disse: “Sim, eu tenho uma pergunta. Já que no pensamento
hindu tudo no universo é manifestação da própria divindade, como poderei dizer
não a qualquer coisa no mundo? Como poderei dizer ‘não’ à brutalidade, à estupidez,
à vulgaridade, à incúria?”
E ele respondeu: “Por você e por
mim, o certo é dizer sim”.
Então mantivemos uma maravilhosa
conversação sobre o tema da afirmação de todas as coisas. Isso confirmou a sensação
que eu havia tido: quem somos para julgar? Creio que esse é, também, um dos grandes
ensinamentos de Jesus.
MOYERS: Na doutrina clássica cristã, o mundo material é
para ser desprezado, e a vida é para ser redimida no além-mundo, no Paraíso,
onde receberemos nossas recompensas. Mas você diz que, ao afirmar o que deploro,
estou afirmando verdadeiramente este mundo, que representa a nossa eternidade,
no momento.
CAMPBELL: Sim, é o que estou dizendo. A eternidade não é um
tempo vindouro. Não é sequer um tempo de longa duração. Eternidade não tem nada
a ver com tempo. Eternidade é aquela dimensão do aqui e agora que todo pensar
em termos temporais elimina. Se você não a atingir aqui, não vai atingi-Ia em
parte alguma. O problema com o Paraíso é que você vai ter uma vida tão boa, lá,
que sequer vai pensar em eternidade. Você vai simplesmente experimentar o
interminável deleite, na visão beatífica de Deus. Mas experimentar a eternidade
aqui mesmo e agora, em todas as coisas, não importa se encaradas como boas ou
más, esta é a função da vida.
MOYERS: Assim é.
CAMPBELL: Assim é.
Extraído de CAMPBELL, Joseph. O poder do mito, pág. 68-71, 34ª edição, Palas Athena Editora, São Paulo, 2021.
sexta-feira, 28 de outubro de 2022
Delírios - Manoel de Barros
quinta-feira, 29 de abril de 2021
Viagem passageira - Gilberto Gil
O sonho é ter tudo resolvido
Com o passar do tempo pela vida
A casca da ferida se formando
A cicatriz na pele do futuro
A pele do futuro finalmente
Imune ao corte, à lâmina do tempo
O tempo finalmente estilhaçado
E a poeira sumindo no horizonte
O sonho é ter tudo dissolvido
O corpo, a mente, a fonte da lembrança
Enfim, ponto final na esperança
Somente as ondas soltas no oceano
Não mais o esperma e o óvulo da morte
Não mais a incerteza do binário
Um tempo liso sem o fuso horário
Não mais um sim, um não, um sul, um norte
O sonho dessa canção passageira
Mochila da viagem passageira
Passagem nessa vida passageira
Para uma vida ainda passageira.
(Canção composta por Gilberto Gil para o álbum A pele do futuro, de Gal Costa, de 2018)
sábado, 10 de abril de 2021
O filho pródigo
Um homem tinha dois filhos. O mais jovem disse ao pai: "Pai, dá-me a parte da herança que me cabe". E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus haveres, o filho mais jovem partiu para uma região longínqua e ali dissipou sua herança numa vida devassa.
E gastou tudo. Sobreveio àquela região uma grande fome e ele começou a passar privações. Foi, então, empregar-se com um dos homens daquela região, que o mandou para seus campos cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E caindo em si, disse: "Quantos empregados de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome! Vou-me embora, procurar o meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados". Partiu, então, e foi ao encontro de seu pai.
Ele estava ainda ao longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho, então, disse-lhe: "Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho". Mas o pai disse aos seus servos: "Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!" E começaram a festejar.
Seu filho mais velho estava no campo. Quando voltava, já perto de casa ouviu músicas e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe disse: "É teu irmão que voltou e teu pai matou o novilho cevado, porque o recuperou com saúde". Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele, porém, respondeu a seu pai: "Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, e para ele matas o novilho cevado!"
Mas o pai lhe disse: "Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado!"
Extraído do Evangelho Segundo São Lucas, capítulo 15, 11-32. Bíblia de Jerusalém, Ed. Paulus, São Paulo, 2019.
sábado, 20 de março de 2021
A Luís de Camões - Jorge Luis Borges
sexta-feira, 19 de março de 2021
Os Borges - Jorge Luis Borges
Portugueses, os Borges: vaga gente
Que prossegue em minha carne, obscuramente,
Seus hábitos, rigores e temores.
Tênues como se nunca houvessem sido
E alheios aos trâmites da arte,
Indecifravelmente fazem parte
Do tempo, dessa terra e do olvido.
Melhor assim. Vencida a peleia,
São Portugal, são a famosa gente
Que forçou as muralhas do Oriente
E fez-se ao mar e ao outro mar de areia.
São o rei que no místico deserto
Perdeu-se e o que jura não estar morto.
Jorge Luis Borges, in O fazedor (1960)
segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
Aparências - Antonio Cicero
Não sou mais tolo não mais me queixo:
enganassem-me mais desenganassem-me mais
mais rápidas mais vorazes e arrebatadoras
mais volúveis mais voláteis
mais aparecessem para mim e desaparecessem
mais velassem mais desvelassem mais revelassem mais re-
velassem
mais
eu viveria tantas mortes
morreria tantas vidas
jamais me queixaria
jamais.
CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2012.
domingo, 5 de abril de 2020
Língua portuguesa - Olavo Bilac
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
sexta-feira, 5 de julho de 2019
As palavras - Vanessa da Mata
Rezam por nós dois
Tome conta do que vai dizer
Da minha boca, dos meus ombros
Se quiser ouvir
É fácil perceber
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Reabilite o meu coração
Rasguei sua alma e pus no fogo
Não assoprei
Não relutei
Os buracos que eu cavei
Não quis rever
Não me deu direito de viver em paz
Estou aqui para te pedir perdão
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Se você deixar
O impacto é grande demais
Cidades inteiras nascem a partir daí
Adoecem, curam ou me dão limites
Vá com carinho no que vai dizer
Não me cerque
Me dê absolvição
Faça luz onde há involução
Reabilite o meu coração