domingo, 30 de outubro de 2011

Parem de jogar cadáveres na minha porta - Affonso Romano de Sant'Anna


Parem de jogar cadáveres na minha porta.
Tenho que sair
- respirar.
Estou seguindo para os jardins de Allambra
a ouvir o que diz a água daquelas fontes
e acompanhar o desenho imperturbável dos zeliges.
Não me venham com jornais sangrentos sob os braços.
Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto
e de semear pregos por onde passo.
Estou em Essauíra, na costa do Marrocos
olhando o mar. Ou em Minas
contemplando as montanhas ao redor de Diamantina.
Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
Parem de atirar em minha sombra
e abocanhar meu texto.
Estou tornando a Delfos
naquela manhã de neblinas
ouvindo o que me diz o oráculo em surdina.
Ainda agora embarquei para o Palácio Topkapi
frente ao Bósforo,
quando tentaram me esfaquear na esquina.
Jamais permitirei que quebrem as porcelanas 
e roubem a gigantesca esmeralda na real vitrina.
Não me chamem para a reunião de condomínio.
Estou nos campos da Toscana
onde a gigante mão de Deus penteia os montes
e minha alma se sente pequenina.
Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
- na Cidade Proibida na China.
Não adianta o clamor de burocráticos compromissos 
nem vossa ira. Tenho oito anos
saí para nadar naquele açude atrás dos morros
e vou pescar a minha única e inesquecível traíra.
Parem de jogar cadáveres na minha porta
na minha mesa
na minha cama
dificultando 
que alcance o corpo da mulher que amo.
Afastem de mim
o meu
o vosso cálice.
Impossível ficar no tempo que me coube
o tempo todo
preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de 
como um Sísifo moderno
desesperado
julgar
- que o tinha que carregar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A unidade de todas as coisas - Schopenhauer


"Quando você chega a uma certa idade e olha para sua vida passada parece que ela teve uma ordem. Parece que ela foi composta por alguém. E esses acontecimentos, que quando ocorreram pareciam apenas acidentais e ocasionais, se revelam como elementos principais em um enredo consistente. 

Quem compôs esse enredo? 

Da mesma forma que os seus sonhos são compostos por um aspecto de você mesmo, do qual sua consciência não está consciente, inconscientemente toda a sua vida também foi elaborada pela vontade dentro de você. 

Da mesma maneira que as pessoas que você encontrou por acaso se tornaram agentes efetivos na estruturação da sua vida, você também foi um agente na estruturação de outras vidas. E tudo isso se encaixa como uma grande sinfonia, cada coisa influenciando e estruturando as outras. 

É como se as nossas vidas fossem um sonho sonhado por uma só pessoa onde todos os personagens também estão sonhando e assim cada coisa se liga a todas as outras coisas, impulsionadas pela vontade da natureza."

Arthur Schopenhauer
citado por Joseph Campbell no vídeo “O poder do mito”.