domingo, 25 de novembro de 2012

Digo que não sou um homem puro / Digo que yo no soy un hombre puro - Nicollás Guillén



Digo que não sou um homem puro.
Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
falta saber se é que o puro existe.
Ou se é, digamos, necessário.
Ou possível.
Ou se cai bem.
Acaso já provaste a água quimicamente pura,
a água de laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
a água feita apenas de oxigênio e hidrogênio?
Bá! que porcaria!

Não te digo, pois, que sou um homem puro,
não te digo isso, mas bem o contrário.
Que amo (as mulheres, naturalmente,
pois meu amor pode dizer seu nome),
e gosto de comer carne de porco com batatas,
e grão-de-bico e chouriço, e
ovos, frango, carneiro, peru,
peixe e mariscos,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (inclusive com o estômago cheio).
Sou impuro, o que queres que te diga?
Completamente impuro.
No entanto,
creio que há muitas coisas puras no mundo
que não são mais que pura merda.

Por exemplo, a pureza do virgem nonagenário.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de se deitarem juntos numa pousada.
A pureza dos internatos, onde
abre suas flores de sêmen provisionado
a fauna pederasta.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos acadêmicos.
A pureza dos gramáticos.
A pureza dos que asseguram
que devemos ser puros, puros, puros.
A pureza dos que nunca tiveram gonorreia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza do homem que nunca sugou um clitóris.
A pureza daquela que nunca pariu.
A pureza daquele que nunca procriou.
A pureza daquele que se dá golpes no peito, e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, diabo, diabo.
Enfim, a pureza
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber que coisa é a pureza.

Ponto, data e assinatura.
Assim deixo escrito.

(Tradução livre)


Digo que yo no soy un hombre puro  

Digo que yo no soy un hombre puro
Yo no voy a decirte que soy un hombre puro.
Entre otras cosas
falta saber si es que lo puro existe.
O si es, pongamos, necesario.
O posible.
O si sabe bien.
¿Acaso has tú probado el agua químicamente pura,
el agua de laboratorio,
sin un grano de tierra o de estiércol,
sin el pequeño excremento de un pájaro,
el agua hecha no más de oxígeno e hidrógeno?
¡Puah!, qué porquería.

Yo no te digo pues que soy un hombre puro,
yo no te digo eso, sino todo lo contrario.
Que amo (a las mujeres, naturalmente,
pues mi amor puede decir su nombre),
y me gusta comer carne de puerco con papas,
y garbanzos y chorizos, y
huevos, pollos, carneros, pavos,
pescados y mariscos,
y bebo ron y cerveza y aguardiente y vino,
y fornico (incluso con el estómago lleno).
Soy impuro ¿qué quieres que te diga?
Completamente impuro.
Sin embargo,
creo que hay muchas cosas puras en el mundo
que no son más que pura mierda.

Por ejemplo, la pureza del virgo nonagenario.
La pureza de los novios que se masturban
en vez de acostarse juntos en una posada.
La pureza de los colegios de internado, donde
abre sus flores de semen provisional
la fauna pederasta.
La pureza de los clérigos.
La pureza de los académicos.
La pureza de los gramáticos.
La pureza de los que aseguran
que hay que ser puros, puros, puros.
La pureza de los que nunca tuvieron blenorragia.
La pureza de la mujer que nunca lamió un glande.
La pureza del que nunca succionó un clítoris.
La pureza de la que nunca parió.
La pureza del que no engendró nunca.
La pureza del que se da golpes en el pecho, y
dice santo, santo, santo,
cuando es un diablo, diablo, diablo.
En fin, la pureza
de quien no llegó a ser lo suficientemente impuro
para saber qué cosa es la pureza.

Punto, fecha y firma.
Así lo dejo escrito.

Nicolás Cristóbal Guillén Batista (Cuba, 1902-1989).

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Três tipos de déspota - Oscar Wilde


Há três tipos de déspota:
O que tiraniza o corpo, o Príncipe;
o que tiraniza a alma, o Papa;
e o que tiraniza o corpo e a alma, o Povo.

Oscar Wilde (1854-1900)

... Bem, ele não conheceu as mídias dos séculos XX e XXI.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Stand By Me - Ben E. King - por artistas de rua








Stand By Me (Ben E. King)

When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No I won't be afraid, No I won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me

Chorus:
So darling, darling
Stand by me, oh, stand by me
Oh stand, stand by me,
Stand by me

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountains should crumble to the sea
I won't cry, I won't cry
No I won't shed a tear
Just as long as you stand, stand by me

Chorus:
Whenever you're in trouble, won't you stand by me
Oh stand by me,
oh won't you stand now?
stand by me


Fique Comigo

Quando a noite tiver chegado
E a terra estiver escura,
E a lua for a única luz que veremos,
Não, eu não terei medo. Não, eu não terei medo
Desde que você fique. Fique comigo

Refrão:
Então querida, querida,
Fique comigo. Oh, fique comigo,
Oh, fique. Fique comigo,
Fique comigo...

Se o céu que vemos lá em cima
Desabar e cair
Ou as montanhas desmoronarem no mar
Eu não chorarei, eu não chorarei
Não, eu não derramarei uma lágrima,
Desde que você fique. Fique comigo

Refrão:
Quando você estiver com problemas, você contará comigo?
Oh, conte comigo
Oh, você não ficará agora?
Conte comigo

sábado, 28 de julho de 2012

As vitrines - Chico Buarque


... passas sem ver teu vigia catando a poesia que entornas no chão...


Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão
- Dá tua mão
- Olha pra mim
- Não faz assim
- Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

http://www.youtube.com/watch?v=lKALYELRFUw

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Oh, yes - Charles Bukowski


oh, yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski


oh, sim

existem coisas piores do que
estar sozinho
mas comumente leva décadas
para se perceber isso
e mais comumente
quando você percebe
é tarde demais
e não há nada pior
do que
tarde demais.

(Tradução livre)

domingo, 15 de abril de 2012

Não se mate – Carlos Drummond de Andrade


Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

(Carlos Drummond de Andrade)

Leia também: A bruxa - C. Drummond de Andrade

domingo, 1 de abril de 2012

Geni e o zepelim - Chico Buarque (música e letra)


De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:

"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de ideia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniquidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".

Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.

Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:

"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

           * * *
(Maravilha de música sobre a ingratidão e a canalhice humanas).

domingo, 25 de março de 2012

Sorôco, sua mãe, sua filha - João Guimarães Rosa


Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.
As muitas pessoas já estava de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo — o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.
A hora era de muito sol — o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava. O borco bojudo do telhadinho dele alumiava em preto. Parecia coisa de invento de muita distância, sem piedade nenhuma, e que a gente não pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e não sendo de ninguém. Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.
O Agente da estação apareceu, fardado de amarelo, com o livro de capa preta e as bandeirinhas verde e vermelha debaixo do braço. — "Vai ver se botaram água fresca no carro..." — ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo nas mangueiras de engate. Alguém deu aviso: — "Eles vêm!..." Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer de comitiva.
Aí, paravam. A filha — a moça — tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras — o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas — virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.
Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles transmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Sorôco — para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: — "Deus vos pague essa despesa..."
O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco aguentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências, de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.
De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. — "Ela não faz nada, seo Agente..." — a voz de Sorôco estava muito branda: — "Ela não acode, quando a gente chama..." A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo — um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia. Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.
Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham de dar fim aos aprestes, fazer as duas entrar para o carro de janelas enxequetadas de grades. Assim, num consumiço, sem despedida nenhuma, que elas nem haviam de poder entender. Nessa diligência, os que iam com elas, por bem-fazer, na viagem comprida, eram o Nenêgo, despachado e animoso, e o José Abençoado, pessoa de muita cautela, estes serviam para ter mão nelas, em toda juntura. E subiam também no carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e malas, e as coisas de comer, muitas, que não iam fazer míngua, os embrulhos de pão. Por derradeiro, o Nenêgo ainda se apareceu na plataforma, para os gestos de que tudo ia em ordem. Elas não haviam de dar trabalhos.
Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.
Sorôco.
Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre.
Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo — o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: — "O mundo está dessa forma..." Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas. De repente, todos gostavam demais de Sorôco.
Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra ir s'embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo longe, fora de conta.
Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido — ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si — e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.
A gente se esfriou, se afundou — um instantâneo. A gente... E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.
A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.
  
João Guimarães Rosa in Primeiras estórias (1962).

Outros contos de Guimarães Rosa:

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Quando em teu colo deitei a cabeça, meu camarada - Walt Whitman


Quando em teu colo deitei a cabeça,  meu camarada,
a confissão que fiz eu reafirmo,
o que eu te disse e a céu aberto
eu reafirmo: sei bem que sou inquieto
e deixo os outros também assim,
eu sei que minhas palavras são armas
carregadas de perigo e de morte,
pois eu enfrento a paz e a segurança
e as leis mais enraizadas
para as desenraizar,
e por me haverem todos rejeitado
mais resoluto sou
do que jamais poderia chegar a ser
se todos me aceitassem,
eu não respeito e nunca respeitei
experiência, conveniência,
nem maiorias, nem o ridículo,
e a ameaça do que chamam de inferno
para mim nada é, ou muito pouco,
meu camarada querido: eu confesso
que o incitei a ir em frente comigo
e que ainda o incito sem a mínima idéia
de qual venha a ser o nosso destino
ou se vamos sair vitoriosos
ou totalmente sufocados e vencidos.

Walt Whitman (1819-1892) em Folhas das Folhas de Relva (Tradução de Guilherme de Almeida).

Outros textos de Whitman:

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Alandelão de la Patrie - João Ubaldo Ribeiro


         Não entendo aquele que aprecia o boi. Aqui se criava antigamente muito guzerá, que para mim tem a cara de ordinário, mentiroso, criminoso e cínico. Inclusive, a maioria possui olheiras, mostrando que são perversos devassos de pouca confiança. O sujeito que já se viu no pasto, ou mesmo no cercado, na companhia de um guzerá, esse sujeito sabe que não pode virar as costas nem se desprevenir, porque ele pega, e quem ele pega ele não trata com simpatia. De minha parte, que faço outros serviços, tudo muito geral nesta fazenda, o único boi que se dá bem comigo é o boi Bundão, assim mesmo sem essas alegrias todas, porém com bastante sossego, visto o boi holandês ser pela própria natureza uma criatura fina e de maneiras, está se vendo que é holandês mesmo. Deve ser que na terra dele tem reis e rainhas e desde que boi é boi na Holanda, ele vem sendo educado com finura. Então o boi holandês cobre as vacas dele com muito sentido de sua obrigação, e é até uma coisa bonita de se assistir, porque a vaca holandesa é também educadíssima e então quando Bundão está fazendo um serviço com uma delas até mesmo as visitas gostam de apreciar, porque, no que ele desmonta da vaca, só falta agradecer e ela dar um sorriso. É uma coisa finíssima. Este Bundão, aliás, que está ficando velho, quando eu posso boto uns amendoins no bagaço de cana que ele gosta, que é para ele conseguir desfraldar o instrumento e continuar com emprego fixo – visto que, no dia que Bundão não for mais espadachim, adeus Bundão, e possa ser até que eu fique com saudades, sendo um boi que, não tendo intimidade com ninguém, me trata parecendo que é formado pelo menos em ginásio. Se um dia eu comer uma buchada dos buchos de Bundão, vou comer com desgosto. Eu como porque nesta vida é um comendo o outro e é melhor que a gente coma o boi do que o boi comer a gente, é uma questão política, mesmo porque o boi não fala.
         Antigamente não era igual a hoje, quer dizer, não era esta organização toda. O touro guzerá encarregado de enxertar as vacas era um absurdo. Atendendo pelo nome de Nonô de Bombaim, esse touro guzerá ficava ciscando no meio das vacas da raça dele e, quando uma facilitava, até parecia que ele estava pagando e tinha direito a qualquer coisa, a vaca nem achava tempo para fazer a posição, porque ele já vinha de lá soltando fumaça e completamente armado e uma coisa que eu agradeço a deus é que Deus não me fez eu nascer vaca daquele guzerá. Inclusive, não foi uma nem duas vezes que os vaqueiros tinham que acertar a entrância correta, porque ele não queria saber, ia pincelando onde achasse quarto de vaca. Tipo do boi atrasado, rei da ignorância. Quando eu me lembro de Nonô de Bombaim tratando as vacas, fico destremecendo, a vaca sofre muito. Quando o sujeito compara o tratamento que Bundão dá às vacas holandesas com o tratamento que Nonô dava às vacas guzerás, aí é que o sujeito vê a diferença entre uma pessoa loura e educada como Bundão e uma pessoa sem princípios e amulatada, como Nonô. É por essas e outras que, na próxima encarnação, se Deus quiser e eu merecer, eu volto branco e bem educado. Não quero fazer como Nonô, que chega e vai lascando a vaca toda, se bem que ele é muito bem admirado em toda a redondeza e diz o povo que até hoje tem mulheres que, no entusiasmo de brincar de bicho de duas costas, elogiam o homem dizendo "dá nela, Nonô!", mas considero essas mulheres todas umas vacas guzerás, isto é o que considero, pois que sou a favor do carinho, porradas só quando imploradas ou merecidas verdadeiramente.
         Entretanto, com nonôs e bundões e mais uns quanto outros reprodutores de alguma fama nestas terras, as coisas sempre foram dentro do normal. O galo às vezes parece que está conversando com a sombra ou está discutindo eleições ou qualquer coisa, quando que de repente sai com grande brilhantismo e vai bicando as galinhas e virando na direção do sobrecu e assim ele faz o trabalho todo em coisa de cinco minutos, igual a uma faísca. Os ovos sucedentes são pardos, não claros, galados, não pecos, e fortíssimos para a saúde, ou senão saem pintos e todas as galinhas prosseguem galinhando como quis Nosso Senhor. Assim, o calango possui dois vergalhos, um na direita outro na canhota, ficando bem municiada qualquer calanga que venha pela direita ou pela esquerda, sendo que o calango só pega uma calanga de cada vez, não se aproveitando de que pode pegar duas. Porque não é uma questão de vaidade, é um problema de não perder tempo, pois que, se a verdade é que o calango tem muitas moscas para comer, tem também muitos outros bichos desejosos de comer o calango, de forma que não se pode facilitar. O beija-flor trepa nos ares, às vezes de passagem, às vezes cumprimentando e aproveitando, visto o coração do beija-flor zumbir e ele morrer cedo, beijando flores e o coração zumbindo. As jegas e as éguas apreciam a cobertura e há casos de jegas que ficam dando uns coicezinhos no jeque a tarde toda, até conseguirem, e aí rangem os dentes dão umas babadinhas e ficam grandemente admiradoras do macho, se ele soube responder bem àqueles coicezinhos. O cágado ronca em cima da cágada, que tem toda a paciência, porque a construção deles não facilita e dever ser por isso que o cágado ronca nessas horas. O pato e o porco aplicam roscas e tem quem diga que a rosca é para estontear a fêmea, que fica olhando, olhando, até se enroscar completamente. O gato apresenta espinhos que sangram a gata na puxada, sendo porém o sangramento necessário para a gata emprenhar. O louva-deus fica parado e, antes mesmo que a louva-deusa esteja pronta, já vai mastigando o macho e ele cabe todo na barriga dela. Isto tudo se vê por aqui e muitas mais coisas, desde as lagoas com seus sapos e jias se casando pelas águas, até os barulhos dos bichos maiores. Foi assim que foi feita a natureza e, em cada uma juntada, está se sentindo a força.
         Pois então, nestes tempos modernos, estamos desnaturados. Embora eu, que não gosto de boi, não estivesse muito sabendo até que tudo começou a ser modificado, recebemos diversos doutores e tudo mais. E não foi assim que, depois de muitos anúncios e forte nervosismo, levamos a gaiola grande para a estação de trem, parecia até uma festa só faltando banda de música, para receber o grande touro charolês francês, que aqui tomou o nome, mesmo antes de chegar, de Alandelão. Todo nome francês termina em ão, e o nome era para ser Napoleão, que foi outro francês retado, que invadiu a Inglaterra, escarreirou D. João VI, enfim fez o maior cacete e não perdoava nada. Mas se preferiu Alandelão, que é um artista da França muitíssimo cotado e, pelo que eu ouço falar desse Alandelão, era para as vacas aqui estarem grandemente festejando.
         Agora, esse Alandelão daqui, na hora que eu vi, achei logo que era um animal bastante triste, todo escuro assim, parecendo de luto. No começo, pensei que era da natureza do boi francês, porque se sabe que o francês aprecia a safadagem mas tudo na maior decência, não é como as coisas de Nonô de Bombaim. Mas, mesmo assim, como é que esse boi podia ser tão triste, sabendo-se que de agora em diante vai ficar instalado igual a um monarca, com massagem, comidinha, alisamento e vitamina? E, se as vacas para ele trabalhar não eram vacas francesas da maior fineza, também não eram de se jogar fora, inclusive sendo começo de verão e estando a maior trepação em todas as partes da fazenda, até os motucos soltando a lenha nas motucas, os lacraios nas lacraias e assim vai, para não falar em outros, como os preás, que todo mundo sabe que quando não estão comendo estão afogando o ganso, seja inverno ou seja verão. E às vezes o sujeito se veste de preto assim mas não quer dizer nada, haja visto padre Barretinho, que Deus haja, cala-te boca.
         Um emprego como o desse boi muitos de nós passamos a vida rezando para encontrar e agora ele chega todo triste, quase uma antipatia. Aquele bicho do tamanho de um elefante atarracado, todo de preto e com uma cara jururu que fazia pena, quando o natural é que estivesse sacudindo o rabo, babando um pouco e preparando o ferramental. Mas é assim que se vê como o animal também tem a sua inteligência, porque esse Alandelão já estava perfeitamente conhecedor do que ia acontecer e era por isso que não se alegrava e tinha toda a razão, coitado.
         Quando eu soube, tomei um choque. Já tinha uma semana ou duas que Alandelão estava no seu apartamento, todo ventilado e cheio de nove-horas, inclusive um aparelho americano para as moscas não incomodarem ele, e então eu, que passava em busca de uns baldes e umas gamelas, perguntei quando era que a folga dele ia acabar e quando é que ele ia sair para cobrir umas vacas.
         – Com essa fama toda, está todo mundo querendo apreciar – disse eu. – Deve ser uma coisa de muita competência.
         –Mas ele não vai cobrir vaca nenhuma – respondeu Dr. Crescêncio, que é uma espécie de engenheiro de vaca, que trabalha aqui dando orientação e é formado em vaca na faculdade.
         – Ô, e o bicho está aqui para quê? Ele não é reprodutor?
         – Um animal desses você acha que a gente ia deixar esperdiçar direto com as vacas? Não, senhor! Tudo o que sai dele vale ouro. A gente extrai, bota no gelo e depois enfia nas vacas com uma seringa. E aí se aproveita tudo.
         Nisso, com a cara meio saindo pela abertura, eu vi que Alandelão já devia saber brasileiro, ou então ter estudado na França, porque entendeu a conversa toda e ficou ainda mais de beiço pendurado do que estava antes, uma infelicidade de cortar o coração. Indaguei como era que se extraía o material, se tinha de enfiar uma agulha de injeção nos quibas do coitado do animal, mas o Dr. Crescêncio disse que não. Que, de tantos em tantos dias, o pessoal encarregado ia lá e fazia a manipulação.
         – Como é essa manipulação?
         – Se você quiser, pode assistir, que daqui a pouco nós vamos coletar.
         – O boi não se aporrinha, não, doutor?
         – Que nada, ele está acostumado.
         E, de fato, Alandelão, se não ficava entusiasmado, também não criava dificuldade, estava se vendo que era treinado na profissão. Ele via a turma de manipulação e já ia abrindo as pernas e olhando para o outro lado e ai aguardava a extração, tudo muito despachado, sem nem um suspirinho. Naquela hora, vendo um boi tão prestigiado, cheio de medalha e tudo, sujeito a ser chamado pelos outros de reprodutor donzelo, dava bastante pena. No finzinho, os manipuladores ainda davam uma espremidinha, mas ele não tugia nem mugia. Ficava ali passando humilhação com a melhor cara possível. Como é que uma criatura pode viver nessa situação – ainda mais um francês?
         E, inclusive, pode ser até que na França a profissão dele seja mais respeitada, mas aqui, nesta esculhambação, não demorou e ele pegou diversos apelidos –  cinco-a-um, mangueira-fria, desconhece-vaca, come-vento, cassetete-gelado, pinga-na-cumbuca, couriça-de-mão, uma porção mesmo – , que a gente ria mas sentia que não estava direito zombar de uma infelicidade do destino alheio.
         Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante do Nonô de Bombaim e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha –  o que é que estamos escondendo – , que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho, enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral. Está se reconhecendo, então, que Flor de Mel não era nenhuma mocinha, mas, em primeiro lugar, sabe-se que o francês gosta de velha. E, segundo, Flor de Mel estava sempre disposta, coisa que não se pode dizer de todas as vacas, mesmo elas sendo vacas ou talvez por isso mesmo.
         Então eu e Emanuel e mais o menino Ruidenor combinamos deixar Flor de Mel no cercado pequeno, que fica perto do apartamento de Alandelão e, de noite, a gente ia lá e soltava o francês. E dito e feito, até com luz de lua para completar. Quando a gente abriu a porta, o bicho tomou um susto, não estava acostumado. E não queria sair de jeito nenhum, mesmo a gente explicando. Emanuel achou até que a gente devia dar uns piparotes lá na estrovenga dele para ver se ele se animava, mas todo mundo ficou com medo de que ele achasse que algum da gente era manipulador e quisesse completar o serviço todo e um boi deste tamanho a pessoa deve procurar não contrariar. Afinal, tanto a gente fez que o bicho foi saindo para o cercado, meio estranhando. Nisso Flor de Mel, que aí foi que eu vi que é mesmo uma velha assanhadíssima, abriu logo as ventas para o lado de Alandelão e foi chegando, foi chegando, mas o boi nem deu sinal.
         – Será que tem pouco tempo que fizeram uma manipulação e ele esta desfraquecido? – perguntou Emanuel.
         – Que nada, que nada! –  disse Ruidenor, que estava doido para ver a finalização toda. –  Bote o bicho para perto, bote o bicho para perto!
         Não sei quantas mil arrobas pesa um desgraçado daqueles, mas a gente foi puxando e só "vai, Alandelão", "vai, Alandelão" e Flor de Mel ali dispostíssima e só faltou a gente botar um macaco de caminhão debaixo do infeliz para ele levantar, mas não tinha jeito. Até que, na hora já de todo mundo desistir, ele deu uma olhada para um lado, uma olhada para o outro, uma olhada para mim, outra olhada para Emanuel e aí fez aquele movimentozinho fraco para subir na vaca, que mais que depressa ficou na posição certa, que a diaba não tinha desistido de papar o francês.
         – Lá vai ele, lá vai ele! Tenha fé, Alandelão!
         Mas parece que o boi francês é um boi de pouca fé, porque, bem no meio daquela subidinha fraquinha, que ninguém nem estava acreditando que ia dar na altura de Flor de Mel, Alandelão revirou os olhos, fez um barulhinho na garganta e se despejou todo no chão.
         – Vigessantíssima, que deve ter para mais de setecentos mil contos aí desparramando no chão! –  disse Emanuel. –  Vamos levar esse boi lá para dentro!
         E, de fato, numa situação dessas, só podia ser que a gente tinha de levar o bicho de volta, ele com a cara envergonhada e Flor de Mel aborrecidíssima e, pelo visto, com muita saudade de Nonô de Bombaim. No outro dia, bico calado, por causa do esperdício da matéria-prima de Alandelão. E parece mesmo que ninguém notou, porque nós três ficamos nervosos na hora da manipulação seguinte, mas Alandelão trabalhou do mesmo jeito e ninguém se queixou da produção dele. Só nós três é que podíamos notar que, quando ele via a gente, ficava todo sem graça, mas a gente compreendeu e respeitou, de forma que ninguém falou nada. E, de qualquer maneira, depois se descobriu que Alandelão era uma sociedade, porque ninguém tinha dinheiro para comprar ele sozinho, e aí ele passava produzindo numa fazenda e depois em outra e outra e assim por diante. E aí chegou o dia de botarmos ele na mesma gaiola e levarmos ele para o trem. Não se pode dizer que ele deixou amizades aqui, mas também não fez desafetos. E nós três estavam todos sabendo que ele nasceu para a profissão dele, só sabia trabalhar daquele jeito, tinha especialização, que é que se ia fazer. Assim mesmo, Emanuel passou a mão na cabeça dele na hora do embarque e disse: "Deus que lhe dê uma boa mão, Alandelão". E o dono aqui da fazenda também viu, mas nem perguntou, todo satisfeito com o dinheiro que ganhou com o trabalho do francês. Quando o trem saiu, ele cantou baixinho:
         – Alandelão de la Patri-i-i-i-e!
         Ele pensou que eu não entendi, mas eu entendi. Ele cantou um pedaço do hino da França, somente trocando o Napoleão pelo Alandelão. Em francês, quer dizer "Alandelão de nossa terra". Lá deles.

                          João Ubaldo Ribeiro, in Livro de Histórias (1981).

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O evangelho segundo São Marcos - Jorge Luis Borges


            O fato aconteceu na estância Los Álamos, no município de Junín, para os lados do sul, nos últimos dias do mês de março de 1928. Seu protagonista foi um estudante de medicina, Baltasar Espinosa. Podemos defini-lo por enquanto como um dos muitos rapazes portenhos, sem outros traços dignos de nota que essa faculdade oratória que o fizera merecer mais de um prêmio no colégio inglês de Ramos Mejía, além de uma quase ilimitada bondade. Não gostava de discutir; preferia que o interlocutor tivesse razão e não ele. Ainda que os azares do jogo lhe interessassem, era mau jogador, porque lhe desagradava ganhar. Sua franca inteligência era preguiçosa; aos trinta e três anos precisava concluir uma matéria para graduar-se, justamente a que mais o atraía. Seu pai, que era livre-pensador, como todos os senhores de sua época, o instruíra na doutrina de Herbert Spencer, mas sua mãe, antes de uma viagem a Montevidéu, pediu-lhe que rezasse o pai-nosso todas as noites e fizesse o sinal da cruz. No decorrer dos anos jamais quebrou essa promessa. Não lhe faltava coragem; certa manhã trocara, com mais indiferença que raiva, dois ou três socos com um grupo de companheiros que queria forçá-lo a participar de uma greve universitária. Era pródigo, por espírito de aquiescência, em opiniões ou hábitos discutíveis: o país lhe importava menos que o risco de que em outros lugares acreditassem que usamos penas; venerava a França, mas menosprezava os franceses; detestava os americanos, mas aprovava o fato de que houvesse arranha-céus em Buenos Aires; acreditava que os gaúchos da planície são melhores cavaleiros que os das cochilas ou das colinas. Quando Daniel, seu primo, propôs-lhe veranear em Los Álamos, disse imediatamente que sim, não porque gostasse do campo, mas por natural complacência e porque não procurou razões válidas para dizer não.
            A sede da estância era grande e um pouco abandonada; as dependências do capataz, que se chamava Gutre, estavam muito perto. Os Gutre eram três: o pai, o filho - singularmente tosco - e uma moça de paternidade incerta. Eram altos, fortes, ossudos, com cabelo tendendo para o avermelhado e com feições de índio. Quase não falavam. A mulher do capataz morrera havia anos.
            Espinosa, no campo, foi aprendendo coisas que não sabia e das quais não suspeitava. Por exemplo, que não se deve galopar quando se está aproximando das casas e que ninguém sai a cavalo a não ser para cumprir uma tarefa. Com o tempo, chegaria a distinguir os pássaros pelo canto.
            Poucos dias depois, Daniel teve de ir à capital para fechar uma operação com animais. No máximo, o negócio lhe tomaria uma semana. Espinosa, que já estava um pouco farto das “bonnes fortunes” de seu primo e de seu infatigável interesse pelas variações da moda, preferiu ficar na estância com seus livros escolares. O calor aumentava e nem mesmo a noite trazia alívio. Na aurora, os trovões despertaram-no. O vento sacudia as casuarinas. Espinosa ouviu as primeiras gotas e deu graças a Deus. O ar frio veio de repente. Nessa tarde, o Salado transbordou.
            No dia seguinte, Baltasar Espinosa, olhando da varanda os campos alagados, pensou que a metáfora que equipara os pampas ao mar não era, pelo menos nessa manhã, totalmente falsa, embora Hudson tenha escrito que o mar nos parece maior porque o vemos da coberta do barco e não do cavalo ou de nossa altura. A chuva não amainava. Os Gutre, ajudados ou incomodados pelo visitante da cidade, salvaram boa parte do rebanho, embora muitos animais tenham se afogado. Os caminhos para chegar à estância eram quatro: todos foram cobertos pelas águas. No terceiro dia, uma goteira ameaçou a casa do capataz; Espinosa cedeu-lhes um quarto que ficava no fundo, ao lado do galpão das ferramentas. A mudança os foi aproximando; comiam juntos na grande sala de jantar. O diálogo era difícil; os Gutre, que sabiam tantas coisas em assuntos do campo, não sabiam explicá-las. Uma noite, Espinosa perguntou-lhes se as pessoas guardavam alguma lembrança dos ataques dos índios, quando o comando estava em Junín. Disseram-lhe que sim, mas a mesma coisa teriam respondido a uma pergunta sobre a execução de Carlos I. Espinosa lembrou-se de que seu pai costumava dizer que quase todos os casos de longevidade no campo são casos de pouca memória ou de um conceito vago das datas. Os gaúchos costumam ignorar igualmente o ano em que nasceram e o nome de quem os gerou.
            Em toda a casa não havia outros livros que uma coleção da revista “La Chacra”, um manual de veterinária, um exemplar de luxo do “Tabaré”, uma “História del Shorthorn en la Argentina”, algumas narrativas eróticas ou policiais e um romance recente: “Don Segundo Sombra”. Espinosa, para distrair de algum modo a inevitável conversa após o jantar, leu um par de capítulos para os Gutre, que eram analfabetos. Infelizmente, o capataz fora tropeiro e não lhe podiam interessar as andanças de outro. Disse que esse trabalho era leve, que levavam sempre um cargueiro com tudo o que se precisava e que, se não tivesse sido tropeiro, jamais teria chegado até a Laguna de Gómez, até o Bragado e até os campos dos Núñez, em Chacabuco. Na cozinha havia uma guitarra; os peões, antes dos fatos que conto, sentavam-se em roda; alguém a afinava e jamais chegava a tocar. Isto se chamava uma guitarrada.
            Espinosa, que deixara crescer a barba, costumava demorar-se diante do espelho olhando seu rosto mudado e sorria ao pensar que em Buenos Aires entediaria os rapazes com a narrativa da inundação do Salado. Curiosamente, sentia saudades de lugares aos quais nunca fora e jamais iria: uma esquina da rua Cabrera onde há uma caixa de correio, uns leões de alvenaria em um portão da rua Jujuy, a algumas quadras do Once, um armazém com piso de lajotas que não sabia muito bem onde ficava. Quanto a seus irmãos e a seu pai, já saberiam por Daniel que ele estava ilhado - a palavra, etimologicamente, era exata - pela enchente.
            Explorando a casa, sempre cercada pelas águas, deu com uma Bíblia em inglês. Nas páginas finais os Guthrie - era este seu nome verdadeiro - haviam escrito sua história. Eram oriundos de Inverness, chegaram a este continente, sem dúvida como peões, em princípios do século XIX e tinham acasalado com índios. A crônica cessava em mil oitocentos e setenta e tantos; já não sabiam escrever. Depois de umas poucas gerações, haviam esquecido o inglês; o castelhano, quando Espinosa os conheceu, dava-lhes trabalho. Careciam de fé, mas em seu sangue perduravam, como rastos obscuros, o duro fanatismo do calvinista e as superstições dos pampas. Espinosa falou-lhes de sua descoberta e eles quase não o escutaram.
            Folheou o volume e seus dedos o abriram no começo do Evangelho segundo Marcos. Para exercitar-se na tradução e talvez para ver se entendiam alguma coisa, decidiu ler para eles esse texto depois da refeição. Surpreendeu-se de que o escutassem com atenção e depois com silencioso interesse. Talvez a presença das letras de ouro da capa lhe desse mais autoridade. Trazem isso no sangue, pensou. Também lhe ocorreu que os homens, ao longo do tempo, têm repetido sempre duas histórias: a de um barco perdido que procura pelos mares mediterrâneos uma ilha amada e a de um deus que se faz crucificar no Gólgota. Lembrou-se das aulas de oratória em Ramos Mejía e ficava de pé para pregar as parábolas.
            Os Gutre davam conta rapidamente da carne assada e das sardinhas para não atrasar o Evangelho.
            Uma ovelhinha que a moça mimava e adornava com uma fitinha azul celeste machucou-se em uma cerca de arame farpado. Para estancar o sangue, queriam colocar-lhe uma teia de aranha; Espinosa curou-a com algumas pastilhas. A gratidão que essa cura despertou não deixou de assombrá-lo. A princípio, desconfiara dos Gutre e escondera em um de seus livros os duzentos e quarenta pesos que levara consigo; agora, ausente o patrão, ele tomara seu lugar e dava ordens tímidas, que eram imediatamente acatadas. Os Gutre o seguiam pelos aposentos e pelo corredor, como se andassem perdidos. Enquanto lia, notou que retiravam as migalhas que ele deixara sobre a mesa. Uma tarde surpreendeu-os falando dele com respeito e poucas palavras. Terminado o Evangelho segundo Marcos, quis ler outro dos três que faltavam; o pai pediu-lhe que repetisse o que já havia lido, para entendê-lo bem. Espinosa sentiu que eram como crianças, para quem a repetição agrada mais que a variação ou a novidade. Uma noite sonhou com o Dilúvio, o que não é de estranhar; as marteladas da construção da arca despertaram-no e pensou que talvez fossem trovões. De fato, a chuva, que havia amainado, voltava a recrudescer. O frio era intenso. Disseram-lhe que o temporal quebrara o telhado do galpão das ferramentas e que o mostrariam logo que as vigas estivessem consertadas. Já não era um forasteiro e todos o tratavam com atenção e quase o mimavam. Nenhum deles gostava de café, mas sempre havia para ele uma xícara, que enchiam com açúcar.
            O temporal ocorreu em uma terça-feira. Na quinta à noite, acordou-o uma pancadinha suave na porta, que, por via das dúvidas, sempre fechava à chave. Levantou-se e abriu: era a moça. Na escuridão não a viu, mas pelos passos notou que estava descalça e depois, na cama, que já viera nua. Não o abraçou, não disse uma única palavra; deitou-se junto dele e estava tremendo. Era a primeira vez que conhecia um homem. Quando foi embora, não lhe deu um beijo; Espinosa pensou que nem ao menos sabia como se chamava. Premido por uma íntima razão que não tentou verificar, jurou que em Buenos Aires não contaria essa história a ninguém.
            O dia seguinte começou como os anteriores, a não ser que o pai falou com Espinosa e perguntou-lhe se Cristo se deixara matar para salvar todos os homens. Espinosa, que era livre pensador, mas que se viu obrigado a justificar o que lera para eles, respondeu-lhe:
            - Sim. Para salvar todos do inferno.
            Gutre disse-lhe então:
            - O que é o inferno?
            - Um lugar embaixo da terra onde as almas arderão para sempre.
            - E também se salvaram os que lhe cravaram os cravos?
            - Sim - replicou Espinosa, cuja teologia era incerta.
            Receara que o capataz lhe exigisse explicações do que acontecera na noite anterior com a filha. Depois do almoço, pediram-lhe que relesse os últimos capítulos.
            Espinosa dormiu uma longa sesta, um leve sono interrompido por persistentes martelos e vagas premonições. Por volta do entardecer, levantou-se e saiu para o corredor. Disse como se pensasse em voz alta:
            - As águas estão baixas. Já falta pouco.
            - Já falta pouco - repetiu Gutre, como um eco.
            Os três o haviam seguido. Ajoelhados no piso de pedra, pediram-lhe a bênção. Depois o amaldiçoaram, cuspiram nele e o empurraram até o fundo. A moça chorava. Espinosa entendeu o que o esperava do outro lado da porta. Quando a abriram, ele viu o firmamento. Um pássaro piou; pensou: É um pintassilgo. O galpão estava sem teto; haviam arrancado as vigas para construir a Cruz.

Jorge Luis Borges, in O Informe de Brodie (1970).

Outros contos de Borges:
O bruxo preterido
História dos dois que sonharam
Episódio do inimigo
Os dois reis e os dois labirintos
Um teólogo na morte
A casa de Astérion
Emma Zunz
O incivil mestre-de-cerimônia Kotsuké no Suké
Inferno, I, 32
Uma rosa amarela

Poemas:
O remorso / El memordimiento
Outro poema dos dons
Cristo na cruz
Delia Elena San Marco

Para quem gosta de Jorge Luis Borges (1899-1986)


Alguns contos de Borges:

O bruxo preterido
História dos dois que sonharam
Episódio do inimigo
Os dois reis e os dois labirintos
Um teólogo na morte
A casa de Astérion
O jardim de veredas que se bifurcam
Emma Zunz
O incivil mestre-de-cerimônia Kotsuké no Suké
Inferno, I, 32
Uma rosa amarela
A escrita do deus

Poemas:
O remorso / El memordimiento
Arte poética
Poema dos dons
Outro poema dos dons
Cristo na cruz
Delia Elena San Marco



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Uma rosa amarela - Jorge Luis Borges



      Nem naquela tarde nem na outra morreu o ilustre Giambattista Marino, que as bocas unânimes da Fama (para usar uma imagem que lhe foi cara) proclamaram o novo Homero e o novo Dante, mas o fato imóvel e silencioso que então ocorreu foi na verdade o último de sua vida. Cumulado de anos e de glória, o homem morria em um vasto leito espanhol de colunas lavradas. Nada custa imaginar a poucos passos uma serena sacada que olha para o poente e, mais abaixo, mármores e loureiros e um jardim que duplica suas gradarias em uma água retangular. Uma mulher pôs em um copo uma rosa amarela; o homem murmura os versos inevitáveis que a ele mesmo, para falar com sinceridade, aborrecem um pouco: 

Púrpura do jardim, pompa do prado, 
gema da primavera, olho de abril...

      Então ocorreu a revelação. Marino viu a rosa, como Adão pôde vê-la no Paraíso, e sentiu que ela estava em sua eternidade e não em suas palavras, e que podemos mencionar ou aludir mas não expressar e que os altos e soberbos volumes que formavam em um ângulo da sala uma penumbra de ouro não eram (como sua vaidade sonhara) um espelho do mundo, mas uma coisa a mais agregada ao mundo. 

      Esta iluminação alcançou Marino na véspera de sua morte, e Homero e Dante talvez a tenham alcançado também.

           Jorge Luis Borges, in O fazedor (1960).


Una rosa amarilla


      Ni aquella tarde ni la otra murió el ilustre Giambattista Marino, que las bocas unánimes de la Fama (para usar una imagen que le fue cara) proclamaron el nuevo Homero y el nuevo Dante, pero el hecho inmóvil y silencioso que entonces ocurrió fue en verdad el último de su vida. Colmado de años y de gloria, el hombre se moría en un vasto lecho español de columnas labradas. Nada cuesta imaginar a unos pasos un sereno balcón y un jardín que duplica sus graderías en un agua rectangular. Una mujer ha puesto en una copa una rosa amarilla; el hombre murmura los versos inevitables que a él mismo, para hablar con sinceridad, ya lo hastían un poco: 

                Púrpura del jardín, pompa del prado, 
                gema de primavera, ojo de abril...

      Entonces ocorrió la revelación. Marino vio la rosa, como Adán pudo verla en el Paraíso, y sintió que ella estaba en su eternidad y no en sus palabras y que podemos mencionar o aludir pero no expresar y que lo altos y soberbios volúmenes que formaban en un ángulo de la sala una penumbra de oro no eran (como su vanidade soñó) un espejo del mundo, sino una cosa más agregada al mundo.

      Esta iluminación alcanzó Marino en la víspera de su muerte, y Homero y Dante acaso la alcanzaron también. 


        Jorge Luis Borges, in El hacedor  (1960). 



Poemas:
O remorso / El memordimiento
Outro poema dos dons
Cristo na cruz
Delia Elena San Marco