quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Terra - Caetano Veloso



A 'Blue Marble 2012' é, segundo a Nasa, a 'mais incrível imagem em alta definição da Terra' (Foto: NASA/NOAA/GSFC/Suomi NPP/VIIRS/Norman Kuring) - Fonte: G1




Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço pra ti
Pequenina como se eu fosse
O saudoso poeta
E fosses a Paraíba...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemneto terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Pra gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas no nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Na sacada dos sobrados
da velha são Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O quereres - Caetano Veloso


Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim



domingo, 20 de setembro de 2009

Lei contra o cristianismo - Friedrich Nietzsche

PROCLAMADA NO DIA DA SALVAÇÃO, DIA PRIMEIRO DO ANO UM
(30 DE SETEMBRO DE 1888 DA CONTAGEM ERRADA)

Guerra mortal contra o vício: o vício é o cristianismo

Artigo primeiro. – Viciosa é toda espécie de antinatureza. A mais viciosa espécie de homem é o sacerdote: ele ensina a antinatureza. Contra o sacerdote não há razões, há o cárcere.

Artigo segundo. – Toda participação num ofício divino é um atentado à moralidade pública. Deve-se ser mais duro com os protestantes do que com os católicos, e mais duro com os protestantes liberais do que com os ortodoxos. O que há de criminoso no fato de ser cristão aumenta à medida que alguém se aproxima da ciência. Portanto, o criminoso dos criminosos é o filósofo.

Artigo terceiro. – O local maldito onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser arrasado e, como lugar infame da Terra, será o terror da posteridade. Nele deverão ser criadas serpentes venenosas.

Artigo quarto. – A pregação da castidade é uma incitação pública à antinatureza. Todo desprezo da vida sexual, toda impurificação da mesma através do conceito de “impuro” é o autêntico pecado contra o sagrado espírito da vida.

Artigo quinto. – Quem senta à mesa com um sacerdote é expulso: excomunga a si mesmo da sociedade honesta. O sacerdote é o nosso chandala – deve ser banido, esfomeado, enxotado para toda espécie de deserto.

Artigo sexto. – A história “sagrada” deve ser chamada com o nome que merece, história maldita; as palavras “Deus”, “Salvador”, “Redentor”, “Santo” devem ser usadas como insultos, como insígnias de criminosos.

Artigo sétimo. – Tudo o mais se segue disso.

O Anticristo

Extraído de:
NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo – Maldição ao cristianismo. Tradução de Paulo César de Souza. Companhia da Letras. São Paulo, 2007.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Um trem para as estrelas - Gilberto Gil e Cazuza

São sete horas da manhã
Vejo o Cristo, da janela
O sol apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles têm
Nesse filme como extras
Todos querem se dar bem

Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Meu nego
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Meu nego

Estranho, teu Cristo, Rio
Que olha tão longe, além
Tem os braços sempre abertos
Mas sem proteger ninguém
Eu vou forrar as paredes
Do meu quarto de miséria
Com manchetes de jornal
Pra ver que não é nada sério
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois

Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Meu nego
Num trem pras estrelas
Depois dos navios negreiros
Outras correntezas
Meu nego


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Se em certa altura - Fernando Pessoa


Se em certa altura

Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;

Se em certo momento

Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;

Se em certa conversa

Tivesse dito as frases que só agora, no meio-sono, elaboro -

Se tudo isso tivesse sido assim,

Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro

Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,

Não virei nem pensei em virar, e só agora percebo;

Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;

Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,

Claras, inevitáveis, naturais,

A conversa fechada concludentemente,

A matéria toda resolvida...

Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem ‘sperança nenhuma

Em sistema metafísico nenhum.

Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,

Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?

Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.

Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para

todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca

Como uma verdade de que não partilho,

E lá fora o luar, com a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.


Fernando Pessoa (11-5-1928)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ode ao homem singelo / Oda al hombre sencillo - Pablo Neruda


Vou te contar em segredo
quem sou eu,
assim, em voz alta,
me dirás quem és,
quero saber quem és,
quanto ganhas,
em que oficina trabalhas,
em que mina,
em que farmácia,
tenho uma obrigação terrível
e é saber,
saber tudo:
dia e noite saber como te chamas,
esse é meu ofício,
conhecer uma vida
não é bastante
nem conhecer todas as vidas
é necessário,
verás,
há que desentranhar,
raspar a fundo
e como em uma tela
as linhas ocultarão,
com a cor, a trama
do tecido,
eu apago as cores
e busco até encontrar
o tecido profundo,
assim também encontro
a unidade dos homens,
e no pão busco
mais além da forma:
me agrada o pão, o mordo,
e então
vejo o trigo,
os trigais temporãos,
a verde forma da primavera,
as raízes, a água,
por isso
mais além do pão,
vejo a terra,
a unidade da terra,
a água,
o homem,
e assim de tudo provo
buscando-te
em tudo,
ando, nado, navego
até encontrar-te,
e então te pergunto
como te chamas,
rua e número,
para que tu recebas
minhas cartas,
para que eu te diga
quem sou e quanto ganho,
onde vivo,
e como era meu pai.
Vês tu que simples sou,
que simples és,
não se trata
de nada complicado,
eu trabalho contigo,
tu vives, vais e vens
de um lado a outro,
é muito singelo:
és a vida,
és tão transparente
como a água,
e assim sou eu,
minha obrigação é essa:
ser transparente,
cada dia
me educo,
cada dia me penteio
pensando como pensas,
e ando
como tu andas,
como, como tu comes,
tenho em meus braços o meu amor,
como tu a tua namorada,
e então
quando isto está provado,
quando somos iguais
escrevo,
escrevo com tua vida e com a minha,
com teu amor e os meus,
com todas as tuas dores
e então
já somos diferentes
porque, minha mão em teu ombro,
como velhos amigos
te digo no ouvido:
não sofras,
já chega o dia,
vem,
vem comigo,
vem
com todos
os que a ti se parecem,
os mais singelos,
vem,
não sofras,
vem comigo,
porque ainda que tu não o saibas,
isso eu sim o sei:
eu sei para onde vamos,
e é essa a palavra:
não sofras
porque ganharemos,
ganharemos nós outros,
os mais singelos,
ganharemos,
ainda que tu não o creias,
ganharemos.
(Tradução livre)

Oda al hombre sencillo - Pablo Neruda

Voy a contarte en secreto
quién soy yo,
así, en voz alta,
me dirás quién eres
quiero saber quién eres,
cuánto ganas, 

en qué taller trabajas,
en qué mina,
en qué farmacia,
tengo una obligación terrible
y es saberlo,
saberlo todo,
día y noche saber 

cómo te llamas,
ése es mi oficio,
conocer una vida
no es bastante
ni conocer todas las vidas
es necesario,
verás,
hay que desentrañar,
rascar a fondo
y como en una tela
las líneas ocultaron,
con el color, la trama
del tejido,
yo borro los colores
y busco hasta encontrar
el tejido profundo,
así también encuentro
la unidad de los hombres,
y en el pan 

busco
más allá de la forma:
me gusta el pan, lo muerdo,
y entonces
veo el trigo,
los trigales tempranos,
la verde forma de la primavera,
las raíces, el agua,
por eso
más allá del pan,
veo la tierra,
la unidad de la tierra,
el agua,
el hombre,
y así todo lo pruebo
buscándote
en todo,
ando, nado, navego,
hasta encontrarte,
y entonces te pregunto
cómo te llamas,
calle y número,
para que tú recibas
mis cartas,
para que yo te diga
quién soy y cuánto gano,
dónde vivo,
y cómo era mi padre.

Ves tú qué simple soy, 
qué simple eres,
no se trata
de nada complicado,
yo trabajo contigo,
tú vives, vas y vienes
de un lado a otro,
es muy sencillo,
eres la vida,
eres tan transparente
como el agua,
y así soy yo,
mi obligación es ésa:
ser transparente,
cada día
me educo,
cada día me peino
pensando como piensas,
y ando
como tú andas,
como, como tú comes,
tengo en mis brazos a mi amor
como a tu novia tú,
y entonces
cuando esto está probado,
cuando somos iguales
escribo,
escribo con tu vida y con la mía,
con tu amor y los míos,
con todos tus dolores
y entonces
ya somos diferentes
porque, mi mano en tu hombro,
como viejos amigos
te digo en las orejas:
no sufras,
ya llega el día,
ven, 

ven conmigo,
ven 

con todos
los que a ti se parecen,
los más sencillos,
ven, 

no sufras,
ven conmigo,
porque aunque no lo sepas,
eso yo sí lo sé:
yo sé hacia dónde vamos,
y es ésta la palabra:
no sufras
porque ganaremos,
ganaremos nosotros,
los más sencillos,
ganaremos,
aunque tú no lo creas,
ganaremos.



Pablo Neruda, in Odas elementales, 1954.


(Muito me alegra que texto mais visitado aqui é este poema, entre tantos disponíveis. Lembro como me tocou profundamente da primeira vez que o li, e como o distribuía datilografado aos amigos mais próximos naqueles velhos tempos).


Outra ode de Neruda: Ode ao gato