quinta-feira, 9 de julho de 2009

A bruxa - Carlos Drummond de Andrade


                   A Emil Farhat

Nesta cidade do Rio,
De dois milhões de habitantes,
Estou sozinho no quarto,
Estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído,
Anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida.
E sinto a bruxa,
Presa na zona da luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto.
Precisava de um amigo
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo.
E a esta hora tardia,
Como procurar amigo?

E nem precisava tanto!
Precisava de mulher,
Que entrasse nesse minuto
Recebesse este carinho,
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido,
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal e calma.
Porém a esta hora vazia,
Como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos
Sei os beijos mais violentos.
Viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
De mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Esta presença agitada
Querendo romper a noite,
Não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência,
Exalando-se de um homem.

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