sábado, 25 de julho de 2026

Os três eremitas [Os três anciãos] - Liev Tolstói

 

Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios,  porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de pedirdes.
Mateus, VI, 7-8

       Um bispo estava viajando de navio da cidade de Arcangel para o monastério de Solóvki. No mesmo navio, viajavam peregrinos para visitar os lugares santos. O vento soprava a favor, o tempo estava claro, o navio não balançava. Os peregrinos – uns deitados, outros comendo, outros sentados em rodinhas – conversavam entre si. O bispo também saiu para o convés e começou a andar para um lado e para outro pela ponte. O bispo se aproximou da proa, viu uma rodinha de gente. Um homenzinho apontava para alguma coisa no mar e falava, enquanto as pessoas escutavam. O bispo parou, observou, olhando na direção para a qual o homenzinho apontava: não viu nada, só o mar e o sol radiante. O bispo chegou mais perto, escutou com atenção. O homenzinho viu o bispo, tirou o chapéu e calou-se. As pessoas também viram o bispo, também tiraram o chapéu, fizeram uma reverência.
    – Não fiquem constrangidos, irmãos – disse o bispo. – Também vim escutar o que você está contando, bom homem.
   – Pois é, o pescadorzinho está falando dos eremitas – explicou um mercador mais corajoso.
      – Mas que eremitas? – perguntou o bispo, aproximou-se da borda e sentou num caixote. 
      – Conte para mim também, quero ouvir. O que estava apontando?
     – Aquela ilhazinha lá longe – respondeu o homem e apontou para a frente e à direita. – Naquela ilhazinha lá os eremitas vivem e se salvaram.
      – Onde está a ilha? – perguntou o bispo.
    – Olhe só, aqui, bem na direção da minha mão. Aquela nuvenzinha lá. Embaixo dela, à esquerda, uma faixa, dá para ver.
     O bispo olhou, olhou, a água se agitava sob o sol, mas ele não via nada de extraordinário.
    – Não estou vendo – disse. – Mas afinal quem eram esses eremitas que vivem na ilha?
    – Gente de Deus – respondeu o homem. – Já ouvia falar deles faz muito tempo, mas nunca tinha visto, e aí no verão passado eu vi.
     E o pescador recomeçou a contar que estava pescando e o mar arrastou seu barco até aquela ilha, e ele não sabia onde estava. De manhã, foi andar e topou com um abrigo feito de terra, viu ao lado um eremita e depois mais dois eremitas saíram do abrigo; deram-lhe comida, secaram sua roupa e o ajudaram a consertar o barco.
      – E como é que eles são? – perguntou o bispo.
    – Um é miúdo, curvado, muito velho, veste uma batina velhinha, deve ter mais de cem anos, o grisalho da barba já começou a ficar verde, mas ele está sempre sorrindo, alegre, como um anjo do céu. O outro é um pouco mais alto, também velho, veste um caftã esfarrapado, tem barba larga, grisalha e amarelada, mas é um homem forte: virou meu barco como se fosse uma barrica, nem tive tempo de ajudar, e ele também é alegre. O terceiro é alto, barba comprida até o joelho e branca feito a lua, é carrancudo, as sobrancelhas enrugadas em cima dos olhos, e anda todo nu, só com uma esteirazinha na cintura.
      – E o que eles falaram com você? – perguntou o bispo.
    – Na maior parte do tempo, faziam as coisas calados, e pouco falavam uns com os outros. Um olhava e o outro logo entendia. Perguntei ao mais alto se fazia muito tempo que moravam ali. Ele fez uma carranca, falou alguma coisa, pareceu zangado, mas o miúdo e velho logo segurou a mão dele, sorriu, e o grande se calou. O velho só disse: “Tenha piedade de nós”, e sorriu. 
     Enquanto o homem contava, o navio chegava mais perto da ilha.
    – Olhe, agora dá para ver bem – disse o mercador. – Olhe lá, Vossa Reverendíssima – disse e apontou.
     O bispo olhou. E avistou nitidamente uma faixa preta – uma ilhota. O bispo observou, observou, se afastou da proa, foi na direção da popa, aproximou-se do timoneiro.
      – Que ilhota é aquela – perguntou –, a que se vê ali?
      – Não tem nome. Há muitas ilhas como essa.
      – É verdade que alguns eremitas procuraram a salvação lá?
     – É o que dizem, Vossa Reverendíssima, mas não sei se é verdade. Os pescadores já viram. Mas também acontece de falarem à toa.
      – Quero ir àquela ilha e ver os eremitas – disse o bispo. – Como se pode fazer isso?
      – De navio, é impossível – respondeu o timoneiro. – De bote dá para ir, mas é preciso pedir ao comandante.
      Chamaram o comandante.
      – Eu gostaria de conhecer aqueles eremitas – disse o bispo. – Não é possível me levar lá?
      O comandante quis dissuadi-lo.
      – Possível é, mas vamos perder muito tempo e me atrevo a dizer a Vossa Reverendíssima que não vale a pena conhecer os eremitas. Ouvi dizer que são uns velhinhos muito bobos que moram lá, não se lembram de nada e não conseguem falar, como os peixes do mar.
      – Quero ir – disse o bispo. – Vou pagar pelo trabalho, me leve até lá.
     Não havia nada a fazer, o comandante deu as ordens, levantaram as velas. O timoneiro fez a curva com o navio, rumaram para a ilha. Puseram uma cadeira na proa para o bispo. Ele sentou ali e observou. E todo o povo se juntou na proa, todos olhavam para a ilhota. E quem tinha olhos mais aguçados já avistava as pedras na ilha e apontava para o abrigo de terra. Um deles chegou a enxergar os três eremitas. O comandante pegou o telescópio, olhou por ele e depois o entregou ao bispo. 
      – É verdade, olhe na beira da praia, à direita de uma pedra grande, três homens estão parados ali.
      O bispo olhou pelo telescópio, apontou na direção certa; lá estavam os três: um alto, outro um pouco mais baixo e o terceiro bem miúdo; estavam na praia, de mãos dadas.
      O comandante virou-se para o bispo.
      – O navio precisa parar aqui, Vossa Reverendíssima. Se for do seu agrado, podemos levá-lo de bote até lá, enquanto ficamos ancorados.
      Logo soltaram o cabo, jogaram a âncora, desamarraram as velas – a embarcação sacudiu, deu um tranco. Baixaram um bote, os remadores pularam e o bispo começou a descer pela escadinha. O bispo desceu, sentou num banquinho no bote, os remadores bateram os remos na água, rumaram para a ilha. Chegaram a uma altura de onde se podia alcançar a praia com uma pedrada; viram os três eremitas parados: o alto – nu, uma esteira na cintura –, o mais baixo – de caftã esfarrapado – e o mais velho e curvado – numa batina surrada; os três estavam de mãos dadas.
      Os remadores atracaram na praia, prenderam o bote com um gancho. O bispo desceu.
     Os eremitas o cumprimentaram com uma reverência, o bispo os abençoou e eles se curvaram ainda mais. O bispo começou a lhes falar:
     – Ouvi dizer que aqui, eremitas de Deus, vocês estão salvando sua alma, rezam a Cristo pelas pessoas e eu, servo indigno de Cristo, pela graça de Deus, fui chamado para apascentar Seu rebanho; por isso quis também conhecer vocês, servos de Deus, e lhes dar o ensinamento que eu puder.
     Os eremitas ficaram calados, sorriram, olharam uns para os outros.
      – Digam-me como estão salvando sua alma e como servem a Deus – disse o bispo.
      O eremita de estatura mediana suspirou e olhou para o mais velho, o ancião; o eremita mais alto franziu as sobrancelhas e olhou para o mais velho, o ancião. E o mais velho, o ancião, sorriu e disse:
      – Nós, servo de Deus, não sabemos servir a Deus, só servimos a nós mesmos, nos alimentamos.
      – Como rezam a Deus? – perguntou o bispo.
      E o eremita ancião disse:
      – Rezamos assim: Nós somos três, Vós sois três, tende piedade de nós!
      E assim que o eremita ancião disse essas palavras, os três eremitas ergueram os olhos para o céu e os três disseram:
      – Nós somos três, Vós sois três, tende piedade de nós!
      O bispo riu e disse:
    – Vocês ouviram falar da Santíssima Trindade, mas não rezam direito. Eu me afeiçoei a vocês, eremitas de Deus, e vejo que querem agradar a Deus, mas não sabem como servi-Lo. Não é assim que se deve rezar, mas me escutem que vou ensinar. Não vou ensinar uma reza que eu mesmo inventei, mas a que está nas Escrituras divinas, como Deus mandou que todos rezassem para Ele.
      E o bispo começou a explicar aos eremitas como Deus se revelou às pessoas: contou sobre o Deus Pai, o Deus Filho e o Espírito Santo de Deus, e disse:
     – O Deus Filho desceu à terra para salvar as pessoas e ensinou todos a rezar. Escutem e repitam depois de mim.
      E o bispo começou a dizer:
      – Pai Nosso.
     E um eremita repetiu “Pai Nosso”, e o outro repetiu “Pai Nosso”, e o terceiro também repetiu “Pai Nosso”.
     – Que estais no céu.
      Os eremitas repetiram:– Que estais no céu.
     O eremita de estatura mediana não conseguiu pronunciar direito; o eremita alto e nu também não falou tudo: seu bigode tinha crescido por cima da boca, ele não conseguia falar com clareza; o eremita  ancião, desdentado, mastigou as palavras de um jeito confuso.
      O bispo repetiu de novo, os eremitas repetiram de novo. O bispo sentou-se numa pedra e os eremitas ficaram em pé em volta dele, olhavam para sua boca, repetiam o que ele dizia. E o dia inteiro, até anoitecer, o bispo se esforçou para ensinar aos eremitas; repetiu dez, vinte, cem vezes as mesmas palavras, e os eremitas repetiam com ele. Erravam, o bispo corrigia e os obrigava a repetir do início.
      E o bispo só largou os eremitas depois que aprenderam toda a oração do senhor, quando conseguiram repetir depois dele e quando conseguiram falar sozinhos a prece inteira. O primeiro a aprender foi o eremita de estatura mediana, que a repetiu sozinho do início ao fim. O bispo mandou-o dizer a prece mais uma vez, e outra, e ainda de novo, e depois os outros também aprenderam a prece inteira.
      Já estava escurecendo, a luz começava a subir do mar, quando o bispo se levantou para ir para o bote.
      Despediu-se dos eremitas, eles se curvaram numa reverência até o chão. O bispo os levantou, beijou o rosto de todos, mandou que rezassem como ele havia ensinado, sentou-se no bote e partiu na direção do navio.
     O bispo seguiu para o navio e ouvia o tempo todo como os eremitas repetiam alto, a três vozes, a oração do Senhor. O bote começou a se afastar, já não se ouvia a voz dos eremitas, mas à luz do luar ainda se podia ver: estavam parados na praia, no mesmo lugar, os três eremitas – o menor de todos no meio, o mais alto à direita, o de estatura mediana à esquerda. O bispo chegou ao navio, subiu no convés, levantaram a âncora, ergueram as velas, o vento as inflou, o navio se pôs em movimento e eles foram embora. O bispo foi à proa, sentou-se e ficou o tempo todo olhando para a ilhota. No início, dava para ver os eremitas, depois sumiram, só se via a ilhota, depois a ilhota também desapareceu, só o mar ondulava sob a luz da lua.
      Os peregrinos foram dormir e tudo ficou em silêncio no convés. Mas o bispo não teve vontade de dormir, continuou sentado sozinho na proa, olhava para o mar na direção onde a ilhota havia desaparecido e pensava nos bondosos eremitas. Pensava em como tinham ficado contentes por aprender a prece e agradeceu a Deus por tê-lo enviado para ajudar os eremitas de Deus e ensinar-lhes as palavras divinas.
      O bispo ficou assim, pensando, olhando para o mar, na direção em que a ilhota havia desaparecido. E seus olhos se turvavam e, ora aqui, ora ali, a luz rebrilhava nas ondas. De repente ele viu algo brilhar, branco, na faixa da luz do luar: uma ave, uma gaivota, ou a vela branca de um barquinho. O bispo olhou com atenção. “É um bote a vela que vem atrás de nós”, pensou. “Mas vem depressa demais, daqui a pouco vai nos ultrapassar. Estava lá longe e agora dá para ver bem perto. Mas não pode ser um bote, não parece uma vela. Mas algo vem correndo atrás de nós e vai nos alcançar.” 
      E o bispo não conseguia distinguir o que era: nem bote, nem ave, nem peixe. Parecia um homem, mas muito grande, e um homem não podia estar assim, no meio do mar. O bispo se levantou, aproximou-se do timoneiro.
      – Olhe – disse. – O que é aquilo? O que é aquilo, irmão? O que é aquilo? – perguntou o bispo, e então ele mesmo viu: os eremitas corriam sobre o mar, brancas, suas barbas grisalhas reluziam e se aproximavam do navio, como se estivesse parado.
      O timoneiro olhou, se assustou, largou o leme e começou a gritar:
    – Meu Deus! Os eremitas estão vindo atrás de nós pelo mar, correm como se estivessem na terra!
      O povo ouviu, levantou, correram todos para a proa.
     Todos viram: os eremitas vinham correndo, de mãos dadas, os dois das pontas acenavam com a mão, mandavam parar o navio. Os três sobre a água, como se estivessem na terra, corriam sem mexer as pernas.
     Antes que tivessem tempo de parar a embarcação, os eremitas alcançaram o navio, aproximaram-se da borda, ergueram a cabeça e disseram a uma só voz:
     – Esquecemos, servo de Deus, esquecemos sua lição!
     Enquanto repetíamos, lembramos, mas na hora em que paramos de repetir, uma palavra escapou, esquecemos e tudo se desmanchou. Não lembramos nada, ensine de novo.
     O bispo se benzeu, curvou-se para os eremitas e disse:
    – A prece de vocês já alcançou Deus, eremitas de Deus. Não tenho nada para lhes ensinar. Rezem por nós, pecadores!
   E o bispo se curvou numa reverência até o chão diante dos eremitas. E os eremitas pararam, deram meia-volta e retornaram para o mar. E até de manhã, se viu um resplendor no lado para onde foram os eremitas.
***

TOLSTÓI, Liev [1828-1910]. Contos completos. Tradução: Rubens Figueiredo. São Paulo, Cosac Naify, 2015.

sábado, 4 de abril de 2026

Bocó - Manoel de Barros

 Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas na beira do rio até duas horas da tarde, ali também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia de ver aquele moço a catar caracóis na beira do rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi o que o moço colheu em seus trinta e dois dicionários. E ele se estimou.

BARROS, Manoel de. Memórias inventadas - A segunda infância. Ed. Planeta, São Paulo, 2006.

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domingo, 8 de março de 2026

Melhor do que arder - Clarice Lispector

    Era alta, forte, cabeluda. Madre Clara tinha buço escuro e olhos profundos, negros.

    Entrara no convento por imposição da família: queriam vê-la abrigada no seio de Deus. Obedeceu.
    Cumpria suas obrigações sem reclamar. As obrigações eram muitas. E havia as rezas. Rezava com fervor.
    E se confessava todos os dias. Todos os dias a hóstia branca que se desmanchava na boca.
    Mas começou a se cansar de viver só entre mulheres. Mulheres, mulheres, mulheres. Escolheu uma amiga como confidente. Disse-lhe que não aguentava mais. A amiga aconselhou-a:
    – Mortifique o corpo.
    Passou a dormir na laje fria. E fustigava-se com silício. De nada adiantava.
    Pegava gripes fortes, ficava toda arranhada.
    Confessou-se ao padre. Ele mandou que continuasse a se mortificar. Ela continuou.
    Mas na hora em que o padre lhe tocava a boca para dar a hóstia tinha que se controlar para não morder a mão do padre. Este percebia, nada dizia. Havia entre ambos um pacto mudo. Ambos se mortificavam.
    Não podia mais ver o corpo quase nu do Cristo.
    Madre Clara era filha de portugueses e, secretamente, raspava as pernas cabeludas. Se soubessem, ai dela. Contou ao padre. Este ficou pálido. Imaginou que suas pernas deviam ser fortes, bem torneadas.
    Um dia, na hora do almoço, começou a chorar. Não explicou por que a ninguém. Nem ela sabia por que chorava.
    E daí em diante vivia chorando. Apesar de comer pouco, engordava. Mas tinha olheiras arroxeadas. Sua voz, quando cantava na igreja, era contralto.
    Até que disse ao padre no confessionário:
    – Não aguento mais, juro que não aguento mais! Ele disse meditativo:
    – É melhor não casar. Mas é melhor casar do que arder.
    Pediu uma audiência com a superiora. A superiora repreendeu-a ferozmente. Mas Madre Clara foi firme; queria sair do convento, queria achar um homem, queria casar-se. A superiora pediu-lhe que esperasse mais um ano. Respondeu que não podia, que tinha que ser já.
    Arrumou sua pequena bagagem e deu o fora. Foi morar num pensionato de moças.
    Seus cabelos negros cresciam fartos. E parecia aérea, sonhadora. Pagava a pensão com o dinheiro que a família nortista lhe mandava. A família não se conformava. Mas não podiam deixá-la morrer de fome.
    Ela mesma fazia os seus vestidinhos de pano barato, numa máquina de costura que uma jovem do pensionato lhe emprestara. Os vestidos de manga comprida, sem decote, abaixo do joelho.
    E nada acontecia. Rezava muito para que alguma coisa boa lhe acontecesse. Em forma de homem.
    E aconteceu mesmo.
    Foi ao botequim comprar uma garrafa de água Caxambu. O dono era um guapo português que se encantou com os modos discretos de Clara. Não quis que ela pagasse a água Caxambu. Ela corou.
    Mas voltou no dia seguinte para comprar cocada. Também não pagou. O português, por nome de Antônio, criou coragem e convidou-a a ir ao cinema com ele. Ela negaceou.
    No dia seguinte voltou para tomar um cafezinho. Antônio lhe prometeu que não a tocaria se fossem ao cinema juntos. Aceitou.
    Foram os dois ver um filme e não prestaram nele a mínima atenção. No fim do filme, estavam de mãos dadas.
    Passaram a se encontrar para longos passeios. Ela, com os seus cabelos pretos.
    Ele de terno e gravata.
    Então uma noite ele lhe disse:
    – Sou rico, o botequim dá bastante dinheiro para nós nos casarmos. Queres?
    – Quero, respondeu grave.
    Casaram-se na igreja e no civil. Na igreja quem os casou foi o padre que lhe dissera que era melhor casar do que arder. Foram passar a ardente lua-de-mel em Lisboa. Antônio deixou o botequim entregue aos cuidados do irmão.
    Ela voltou grávida, satisfeita, alegre.
    Tiveram quatro filhos, todos homens, todos cabeludos.

Clarice Lispector, in A via crucis do corpo. Rio de Janeiro, ed. Rocco, 1998.

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segunda-feira, 2 de março de 2026

Jubilação - Manoel de Barros

Jubilação

Tenho gosto de lisonjear as palavras ao modo que o Padre Vieira lisonjeava. Seria uma técnica literária do Vieira? É visto que as palavras lisonjeadas se enverdeciam para ele. Eu uso essa técnica. Eu lisonjeio as palavras. E elas até me inventam. E elas se mostram faceiras para mim. Na faceirice as palavras me oferecem todos os seus lados. Então a gente sai a vadiar com elas por todos os cantos do idioma. Ficamos a brincar brincadeiras e brincadeiras. Porque a gente não queria informar acontecimentos. Nem contar episódios. Nem fazer histórias. A gente só gostasse de fazer de conta. De inventar as coisas que aumentassem o nada. A gente não gostasse de fazer nada que não fosse de brinquedo. Essas vadiagens pelos recantos do idioma seriam só para fazer jubilação com as palavras. Tirar delas algum motivo de alegria. Uma alegria de não informar nada de nada. Seria qualquer coisa como a conversa no chão entre dois passarinhos a catar perninhas de moscas. Qualquer coisa como jogar amarelinha nas calçadas. Qualquer coisa como correr em cavalo de pau. Essas coisas. Pura jubilação sem compromissos. As palavras mais faceiras gostam de inventar travessuras. Uma delas propôs que ficássemos de horizonte para os pássaros. E os pássaros voariam sobre o nosso azul. Eu tentei me horizontar às andorinhas. E as palavras mais faceiras queriam se enluarar sobre os rios. Se ficassem prateadas sobre os rios falavam que os peixinhos viriam beijá-las. A gente brincava no prateado das águas. A mais pura jubilação!

Manoel de Barros, in Memórias Inventadas – A Terceira Infância. Editora Planeta do Brasil Ltda., São Paulo, 2008.

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