domingo, 22 de dezembro de 2013

Poema dos dons / Poema de los dones - Jorge Luis Borges


Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Deu-me a um só tempo os livros e a noite.

Da cidade de livros tornou donos
Estes olhos sem luz, que só concedem
Em ler entre as bibliotecas dos sonhos
Insensatos parágrafos que cedem

As alvas a seu afã. Em vão o dia
Lhes prodiga seus livros infinitos,
Árduos como os árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e de sede (narra uma história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu fatigo sem rumo os confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, centúrias, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Em minha sombra, o oco breu com desvelo
Investigo, o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Tendo uma biblioteca como modelo.

Algo, que por certo não se vislumbra
No termo acaso, rege estas coisas;
Outro já recebeu em outras nebulosas
Tardes os muitos livros e a penumbra.

Ao errar pelas lentas galerias
Sinto às vezes com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, habituado
Aos mesmos passos e nos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De uma só sombra e de um eu plural?
O nome que me assina é essencial,
Se é indiviso e uno esse anátema?

Groussac [1] ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Numa empalidecida cinza vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.


POEMA DE LOS DONES
                                                Jorge Luis Borges

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestria
De Dios, que com magnífica ironia
Me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
Y el Ocidente, siglos, dinastias,
Símbolos, cosmos y cosmogonías
Brindan los muros, pero inutilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro com el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
Com la palabra azar, rige estas cosas;
Outro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
Suelo sentir com vago horror sagrado
Que soy el outro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.

Cual de los dos escribe este poema
De uno yo plural y de una sola sombra?
Qué importa la palabra que me nombra
Si es indiviso y uno el anatema?

Groussac [1] o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga
Que se parece al sueño y al olvido.

Jorge Luis Borges, in “O fazedor” (1960)

[1] Paul Groussac também foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Também era cego como Borges.

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