quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ode ao homem singelo / Oda al hombre sencillo - Pablo Neruda


Vou te contar em segredo
quem sou eu,
assim, em voz alta,
me dirás quem és,
quero saber quem és,
quanto ganhas,
em que oficina trabalhas,
em que mina,
em que farmácia,
tenho uma obrigação terrível
e é saber,
saber tudo:
dia e noite saber como te chamas,
esse é meu ofício,
conhecer uma vida
não é bastante
nem conhecer todas as vidas
é necessário,
verás,
há que desentranhar,
raspar a fundo
e como em uma tela
as linhas ocultarão,
com a cor, a trama
do tecido,
eu apago as cores
e busco até encontrar
o tecido profundo,
assim também encontro
a unidade dos homens,
e no pão busco
mais além da forma:
me agrada o pão, o mordo,
e então
vejo o trigo,
os trigais temporãos,
a verde forma da primavera,
as raízes, a água,
por isso
mais além do pão,
vejo a terra,
a unidade da terra,
a água,
o homem,
e assim de tudo provo
buscando-te
em tudo,
ando, nado, navego
até encontrar-te,
e então te pergunto
como te chamas,
rua e número,
para que tu recebas
minhas cartas,
para que eu te diga
quem sou e quanto ganho,
onde vivo,
e como era meu pai.
Vês tu que simples sou,
que simples és,
não se trata
de nada complicado,
eu trabalho contigo,
tu vives, vais e vens
de um lado a outro,
é muito singelo:
és a vida,
és tão transparente
como a água,
e assim sou eu,
minha obrigação é essa:
ser transparente,
cada dia
me educo,
cada dia me penteio
pensando como pensas,
e ando
como tu andas,
como, como tu comes,
tenho em meus braços o meu amor,
como tu a tua namorada,
e então
quando isto está provado,
quando somos iguais
escrevo,
escrevo com tua vida e com a minha,
com teu amor e os meus,
com todas as tuas dores
e então
já somos diferentes
porque, minha mão em teu ombro,
como velhos amigos
te digo no ouvido:
não sofras,
já chega o dia,
vem,
vem comigo,
vem
com todos
os que a ti se parecem,
os mais singelos,
vem,
não sofras,
vem comigo,
porque ainda que tu não o saibas,
isso eu sim o sei:
eu sei para onde vamos,
e é essa a palavra:
não sofras
porque ganharemos,
ganharemos nós outros,
os mais singelos,
ganharemos,
ainda que tu não o creias,
ganharemos.
(Tradução livre)

Oda al hombre sencillo - Pablo Neruda

Voy a contarte en secreto
quién soy yo,
así, en voz alta,
me dirás quién eres
quiero saber quién eres,
cuánto ganas, 

en qué taller trabajas,
en qué mina,
en qué farmacia,
tengo una obligación terrible
y es saberlo,
saberlo todo,
día y noche saber 

cómo te llamas,
ése es mi oficio,
conocer una vida
no es bastante
ni conocer todas las vidas
es necesario,
verás,
hay que desentrañar,
rascar a fondo
y como en una tela
las líneas ocultaron,
con el color, la trama
del tejido,
yo borro los colores
y busco hasta encontrar
el tejido profundo,
así también encuentro
la unidad de los hombres,
y en el pan 

busco
más allá de la forma:
me gusta el pan, lo muerdo,
y entonces
veo el trigo,
los trigales tempranos,
la verde forma de la primavera,
las raíces, el agua,
por eso
más allá del pan,
veo la tierra,
la unidad de la tierra,
el agua,
el hombre,
y así todo lo pruebo
buscándote
en todo,
ando, nado, navego,
hasta encontrarte,
y entonces te pregunto
cómo te llamas,
calle y número,
para que tú recibas
mis cartas,
para que yo te diga
quién soy y cuánto gano,
dónde vivo,
y cómo era mi padre.

Ves tú qué simple soy, 
qué simple eres,
no se trata
de nada complicado,
yo trabajo contigo,
tú vives, vas y vienes
de un lado a otro,
es muy sencillo,
eres la vida,
eres tan transparente
como el agua,
y así soy yo,
mi obligación es ésa:
ser transparente,
cada día
me educo,
cada día me peino
pensando como piensas,
y ando
como tú andas,
como, como tú comes,
tengo en mis brazos a mi amor
como a tu novia tú,
y entonces
cuando esto está probado,
cuando somos iguales
escribo,
escribo con tu vida y con la mía,
con tu amor y los míos,
con todos tus dolores
y entonces
ya somos diferentes
porque, mi mano en tu hombro,
como viejos amigos
te digo en las orejas:
no sufras,
ya llega el día,
ven, 

ven conmigo,
ven 

con todos
los que a ti se parecen,
los más sencillos,
ven, 

no sufras,
ven conmigo,
porque aunque no lo sepas,
eso yo sí lo sé:
yo sé hacia dónde vamos,
y es ésta la palabra:
no sufras
porque ganaremos,
ganaremos nosotros,
los más sencillos,
ganaremos,
aunque tú no lo creas,
ganaremos.



Pablo Neruda, in Odas elementales, 1954.


(Muito me alegra que texto mais visitado aqui é este poema, entre tantos disponíveis. Lembro como me tocou profundamente da primeira vez que o li, e como o distribuía datilografado aos amigos mais próximos naqueles velhos tempos).


Outra ode de Neruda: Ode ao gato

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