domingo, 28 de abril de 2013

Se os tubarões fossem homens - Bertold Brecht

     Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?
     Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.
     Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristonhos. 
     Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.
     O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.
     Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra - os inimigos que silenciam em outra língua - seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia o título de herói.
     Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela, mas tão bela, que sob os seus acordes todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.
     Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos só começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.
    Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles ocupariam cargos e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, policiais, engenheiros construtores de gaiolas e assim por diante.
     Em suma, só assim haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um incidente na ponte de Owl Creek - Ambrose Bierce


I

Um homem estava de pé sobre uma ponte férrea no Norte do Alabama, olhando para as águas que corriam ligeiras seis metros abaixo. Tinha as mãos às costas, os pulsos atados por uma corda. Outra corda fora enrolada em seu pescoço. Esta última estava amarrada a uma estaca sólida acima de sua cabeça e a ponta caía-lhe até a altura dos joelhos. Algumas tábuas soltas, colocadas sobre os dormentes que suportavam os trilhos da via férrea, sustentavam os pés do homem, assim como os de seus executores — dois paramilitares do Exército Confederado, liderados por um sargento que na vida civil talvez tivesse sido um subxerife. Sobre a mesma plataforma provisória, mas a uma certa distância, estava um oficial armado, com seu uniforme de graduado. Era um capitão. Em cada extremidade da ponte havia um sentinela segurando seu rifle em posição de "apoio", o que significa na vertical à frente do ombro esquerdo e com o cão apoiado ao antebraço atravessando o peito em diagonal — uma posição rígida e pouco natural, obrigando os soldados a permanecerem numa postura muito ereta. Aparentemente, os dois não tinham obrigação de saber o que se passava no meio da ponte. Eles se limitavam a bloquear a passagem dos pedestres nas duas extremidades do caminho, que ladeava o pontilhão.
Para além de um dos sentinelas, não havia ninguém à vista. A linha férrea cruzava a floresta numa reta por quase cem metros, para em seguida desaparecer, numa curva. Com certeza havia um posto avançado mais adiante. A outra margem do rio era um campo aberto — uma colina suave, no alto da qual havia uma barricada feita com troncos de árvores, com seteiras para os rifles e um único canhoneiro do qual surgia a extremidade de um canhão de bronze, apontado para a ponte. Na metade da colina, entre a ponte e a fortaleza, estavam os espectadores — uma única companhia de infantaria perfilada, em posição de "descansar", a base dos rifles tocando o chão, os canos levemente inclinados para trás e apoiados ao ombro direito, as mãos cruzadas à frente das coronhas. Um tenente encontrava-se de pé à direita da fila, com a ponta de sua espada no chão e a mão esquerda repousando sobre a direita. Com exceção do grupo de quatro pessoas no centro do pontilhão, ninguém se movia. A companhia estava de frente para a ponte, observando-a na mais absoluta imobilidade. Os sentinelas, voltados para as margens do rio, poderiam ser confundidos com estátuas que adornassem o lugar. O capitão estava de braços cruzados, em silêncio, observando o trabalho de seus dois subordinados, mas sem fazer qualquer sinal. A morte é um dignitário que, ao ser anunciado, deve ser recebido com manifestações formais de respeito, mesmo entre aqueles que lhe são mais familiares. No código da etiqueta militar, o silêncio e a imobilidade eram formas de deferência.
O homem que estava para ser enforcado aparentava cerca de 35 anos. Era um civil, a julgar por suas roupas, que pareciam as de um fazendeiro. Tinha boa aparência — o nariz reto, a boca firme e uma testa larga de onde surgia o cabelo comprido e escuro, penteado para trás, passando por trás das orelhas e indo até o colarinho do casaco de trabalho, que lhe caía bem. Usava bigode e uma barba pontuda, mas sem costeletas. Os olhos eram grandes, cinza-escuros, com uma expressão gentil que dificilmente se poderia esperar de um homem cujo pescoço estivesse no laço de uma corda. Com toda certeza não era um assassino vulgar. O código militar, liberal, permite o enforcamento de toda sorte de indivíduos, e os cavalheiros não estão excluídos.
Assim que tudo estava pronto, os dois paramilitares, dando um passo para o lado, tiraram a tábua sobre a qual caminhavam. O sargento virou-se para o capitão, fez continência e colocou-se imediatamente atrás do oficial, que por sua vez afastou-se um passo. Tais movimentos deixaram o condenado e o sargento sozinhos de pé sobre as duas extremidades da mesma tábua, que se estendia por cima de três dos dormentes da linha férrea. A extremidade sobre a qual se encontrava o civil quase alcançava, mas não chegava a fazê-lo, um quarto dormente. Essa tábua estivera sendo mantida ali pelo peso do capitão. Agora, o que a mantinha ali era o peso do sargento. A um sinal do primeiro, este último daria um passo para o lado, a tábua daria um salto e o condenado despencaria pelo espaço entre os dormentes. O arranjo, por simples e efetivo, parecia confiável. O rosto do homem não estava encoberto, nem seus olhos vendados. Por um instante, ele olhou para o chão instável onde pisava e em seguida deixou que o olhar se perdesse na corrente d'água que passava lá embaixo, a toda velocidade. Uma tora de madeira boiando chamou sua atenção e seus olhos seguiram-na, rio abaixo. Parecia mover-se tão devagar, como se levada por águas indolentes...
Fechou os olhos tentando fixar os últimos pensamentos na mulher e nos filhos. A água, tingida de ouro pelos primeiros raios de sol, a bruma melancólica que recobria as margens rio abaixo, a fortaleza, os soldados, a tora de madeira — tudo distraía sua atenção. E agora ele se dava conta de alguma coisa nova, que surgia para perturbá-lo. Chocando-se com o pensamento de seus entes queridos, vinha um som que ele não conseguia nem identificar nem ignorar, um ruído agudo, nítido, metálico, como o som do martelo do ferreiro contra a bigorna. A ressonância era a mesma. O homem se perguntou o que seria aquilo e de onde vinha tal som, se de longe ou de perto — pois parecia as duas coisas ao mesmo tempo. Batia a intervalos regulares, mas num ritmo lento, como o dobrar dos sinos de Finados. Ele aguardava cada batida com impaciência e — sem que soubesse por que — com apreensão. Os intervalos de silêncio pareciam cada vez maiores. E esses momentos de suspensão começavam a enlouquecê-lo. Embora cada vez mais espaçados, os sons cresciam em força e agudez. Feriam-lhe os ouvidos como a estocada de um punhal. Estava a ponto de gritar. O que ele ouvia era o tique-taque de seu relógio.
Abriu os olhos e viu novamente a água a seus pés. “Se eu pudesse soltar as mãos”, pensou, “poderia afrouxar o laço e pular na água. Afundando, fugiria das balas e, nadando a toda velocidade, conseguiria chegar à margem, embrenhar-me na floresta e fugir para casa. Minha casa, graças a Deus, fica para além das linhas deles. Minha mulher e meus filhos estão na região que ainda não foi tomada pelos invasores.”
Enquanto esses pensamentos, aqui descritos em palavras, passavam pela cabeça do condenado, e mal acabavam de ser formulados, o capitão fez um sinal para o sargento. E o sargento deu um passo para o lado.

II

Peyton Farquhar era um próspero fazendeiro, de uma família antiga e altamente respeitada no Alabama. Sendo dono de escravos e, como todo dono de escravos, um político, era naturalmente a favor da Guerra Civil e ardorosamente devotado à causa do Sul. Por motivos de força maior, que não cabe aqui relatar, não pudera servir ao galante exército que lutaria nas desastrosas campanhas culminando com a queda de Corinto, e se irritava com isso, ansiando por externar suas energias, por viver a vida mais expansiva dos soldados, pela oportunidade de se destacar. Essa oportunidade, sentia, acabaria chegando, porque chega para todos durante a guerra. Enquanto isso, ia fazendo o que podia. Não se importava de desempenhar a mais humilde tarefa, desde que fosse para ajudar a causa dos sulistas, nem de se meter na mais perigosa das aventuras, desde que fosse coerente com o papel de um civil cujo coração era de soldado e que, de boa-fé, mesmo não sendo muito qualificado, concordava, ao menos em parte, com o ditado sabidamente infame segundo o qual na guerra e no amor tudo vale.
Certa noite, quando Farquhar e sua mulher estavam sentados no banco rústico junto à entrada do jardim, surgiu no portão um soldado de uniforme cinza que pediu um copo d'água. Foi com satisfação que a Sra. Farquhar foi buscá-lo com suas próprias mãos, muito brancas. O marido se aproximou do cavaleiro empoeirado e, ansioso, pediu notícias do front.
“Os ianques estão consertando as estradas”, respondeu o homem, “e estão prontos para um novo avanço. Já chegaram à ponte de Owl Creek, fizeram reparos e construíram uma barricada na margem norte. O comandante mandou espalhar cartazes dizendo que qualquer civil que bloquear estradas, pontes, túneis ou trens será sumariamente enforcado. Eu vi a ordem.”
“A ponte de Owl Creek é muito longe?”, quis saber Farquhar.
“Uns cinquenta quilômetros.”
“E há soldados deste lado do rio?”
“Só um posto avançado menos de um quilômetro à frente, na estrada, além de um sentinela na ponta de cá da ponte.”
“E se um homem — um civil, especialista em enforcamentos — conseguisse passar pelo posto avançado e enganar o sentinela”, disse Farquhar, rindo, “o que será que ele conseguiria?”
O soldado parou para pensar.
“Há um mês eu estava lá”, respondeu. “E notei que a correnteza do último inverno tinha deixado muitas toras encalhadas no píer de madeira, na extremidade da ponte. Agora está tudo seco e poderia queimar como uma tocha.”
A mulher já se encaminhava com a água, que o soldado bebeu. Em seguida agradeceu, cerimonioso, fez uma mesura para o marido e se foi. Uma hora depois, quando a noite já havia caído, ele voltou a cruzar a fazenda em direção ao Norte, de onde viera. Era um espião dos Confederados.

III

Assim que despencou da ponte, Peyton Farquhar perdeu os sentidos, como se já estivesse morto. Mas foi despertado desse estado — após o que lhe pareceu um tempo enorme — por uma dor fina na garganta, seguida de uma sensação de sufocamento. Uma agonia aguda, mortal, parecia espraiar-se do pescoço, tocando cada fibra de seu corpo e membros. Tais dores aparentemente corriam por linhas de ramificações bem definidas, martelando a uma velocidade inconcebível. Eram como rios de fogo pulsante que o queimassem inteiro. Quanto à cabeça, parecia-lhe completamente tomada por uma congestão. Essas sensações não vinham acompanhadas de pensamentos. A parte intelectual de sua natureza se esvanecera. Tinha poder apenas para sentir, e o que sentia era tormento. Percebia um movimento. Envolto por uma nuvem luminosa, da qual ele agora era apenas o núcleo em brasa, oscilava sobre um arco imponderável, como se fosse imenso pêndulo. E então, de repente, de forma terrivelmente súbita, a luz que o cercava disparou para cima, com um gigantesco estrondo d'água. Um troar ameaçador atingiu-lhe os ouvidos e tudo foi escuridão e gelo. O poder do pensamento foi restaurado. Agora ele sabia que a corda se rompera e que ele caíra na correnteza. Mas não sufocava mais do que antes. A corda em torno de seu pescoço já o estrangulava, mantendo a água fora de seus pulmões. Morrer enforcado no fundo de um rio! A ideia lhe parecia ridícula. Abriu os olhos na escuridão e viu acima uma luminosidade, embora muito longe, inacessível. Continuava afundando, pois a luz tornava-se mais e mais fraca, até virar apenas um lampejo. Mas logo começou a crescer e a tornar-se mais brilhante, até que ele percebeu que retornava à superfície — e relutava em admitir isso, pois já sentia um certo conforto em estar no fundo. “Ser enforcado e afogado”, pensou, “não é tão mau assim. Mas não quero levar um tiro. Não quero e não vou. Não é justo.”
Não tinha consciência do esforço que fazia, mas uma dor fina no pulso lhe dizia que estava tentando soltar as mãos. Concentrou-se naquela luta, como um errante admirando a proeza de um malabarista, sem muito interesse no resultado. Que esforço sensacional! Que força magnífica, sobre-humana! O empenho era impressionante. Muito bem! A corda soltou-se. Seus braços separaram-se, flutuando em direção à tona, as mãos como sombras de um lado e outro, que mal podia enxergar na luminosidade crescente. Ele as olhou com interesse renovado à medida que, primeiro uma, depois a outra, elas buscaram o nó que apertava seu pescoço. Afrouxaram-no, abrindo-o, as ondulações da corda lembrando as de uma cobra d'água. "Ponham-na de volta!", gritou para as mãos em pensamento, pois assim que o nó se desfez ele foi assaltado pela dor mais cruciante que jamais experimentara. O pescoço lhe doía horrivelmente. Seu cérebro estava em fogo. E o coração que antes batia manso de repente deu um salto, parecendo a ponto de sair-lhe pela boca. Todo seu corpo foi varrido e sacudido por uma angústia insuportável. Mas as mãos desobedientes não atenderam a seu comando. Batiam na água com vigor, em movimentos rápidos, para baixo, forçando-o rumo à superfície. Até que sentiu a cabeça emergir. A luz do sol cegou-o. Sentiu o peito expandir-se em convulsões e, em suprema agonia, seus pulmões sorveram uma enorme golfada de ar, que ele expeliu no mesmo instante, com um grito agudo.
Agora tinha total controle dos sentidos físicos. Na verdade, eles estavam extraordinariamente aguçados e em alerta. Diante da brutal agressão ao organismo, algo acentuara e refinara seus sentidos a ponto de eles lhe mostrarem coisas que antes não era capaz de perceber. Observava as ondas do rio junto a seu rosto, ouvindo o bater de cada uma delas. Olhava para a floresta além da margem e via árvore por árvore com suas folhas, assim como os veios em cada uma dessas folhas. Via até mesmo os insetos sobre elas: as cigarras, as moscas com seus corpos brilhantes, as aranhas cinzentas espalhando suas teias de um ramo a outro. Notava o prisma das cores nas gotas de orvalho sobre um milhão de lâminas de relva. E o zumbido dos mosquitos que dançavam sobre a tona, o bater das asas das libélulas, o choque das patas das aranhas d'água, como remos que impulsionassem seus barcos — e tudo isso lhe soava claro como música. Lá se ia um peixe deslizando no fundo e ele podia ouvir o ruído de seu corpo fendendo as águas.
Chegara à superfície de frente para a correnteza. Por um instante, o mundo visível parecera girar a uma velocidade muito lenta, sendo ele seu ponto central. E ele via a ponte, a fortaleza, os soldados sobre a ponte, o capitão, o sargento, os dois paramilitares, seus executores. Via apenas suas silhuetas contra o céu. Gritavam e gesticulavam, apontando para ele. O capitão tinha empunhado a pistola, mas não atirara. Os outros estavam desarmados. Seus movimentos eram grotescos, terríveis, suas formas gigantescas.
De repente, ouviu um estampido agudo e um projétil atingiu a água a poucos centímetros de sua cabeça, borrifando-lhe o rosto. Veio um segundo estampido e ele viu um dos sentinelas com o rifle ao ombro, enquanto uma nuvem de fumaça azulada subia do cano da arma. Da água, pôde ver os olhos do homem na ponte encarando-o, por trás da mira. Notou que ele tinha olhos cinzentos e lembrou-se de já ter ouvido falar que olhos assim são os mais espertos e que homens de grande pontaria costumam ter olhos dessa cor. E, no entanto, aquele acabara de errar.
Um rodamoinho envolvera Farquhar e ele agora estava de lado para a ponte. De frente para a floresta que ficava na margem oposta à fortaleza. E o som claro, alto, de uma voz entoando uma melodia monocórdia chegava a seus ouvidos vindo de trás, cruzando a água com tanta nitidez que sobrepujava todos os outros sons, até mesmo a batida das ondas em seu rosto. Embora não fosse soldado, ele já frequentara os acampamentos e conhecia o terrível significado daquele canto arrastado, entoado com força e deliberação. O tenente, na margem, fazia sua parte no trabalho da manhã. Ditas com toda a frieza, sem piedade — com uma entonação que era calma, serena, agourenta, mas que infundia tranquilidade na tropa —, a intervalos bem medidos, ele ouviu aquelas palavras cruéis:
“Atenção, companhia!... Preparar!... Apontar!... Fogo!”
E Farquhar mergulhou. Mergulhou o mais fundo que pôde. A água borbulhava em seus ouvidos como as vozes do Niágara e ainda assim ele ouvia o ruído surdo das rajadas. Ao retornar à superfície, pôde ver as cápsulas de metal, significativamente achatadas, que, brilhantes, desciam correnteza abaixo. Algumas chegaram a tocar-lhe o rosto e as mãos, depois se foram, seguindo seu curso. Uma delas alojou-se entre seu pescoço e a gola da camisa. Sentindo, com um arrepio, que ainda estava quente, atirou-a longe.
No instante em que chegou à tona, em busca de ar, notou que ficara muito tempo debaixo d'água. Encontrava-se muito longe rio abaixo — onde era mais seguro. Os soldados estavam quase acabando de recarregar as armas. Viu as varetas todas brilhando ao sol à medida que eram retiradas dos barris, viradas no ar e introduzidas nos soquetes. Os dois sentinelas dispararam de novo, por conta própria, mas sem sucesso.
O homem caçado observava tudo isso por cima do ombro. Nadava agora com todo o vigor, correnteza abaixo. Seu cérebro estava tão aguçado quanto seus braços e pernas. Raciocinava na velocidade da luz.
“O oficial”, pensou, “não vai cometer um erro outra vez por excesso de zelo. Dá na mesma esquivar-se de uma rajada de tiros ou de um tiro só. Com certeza ele já deu ordens para que cada um atire à vontade. Deus me ajude, pois não vou conseguir escapar de todos eles!”
Foi sacudido por um choque na água a menos de dois metros de onde estava, seguido de um estrondo violento, que foi decrescendo como se ricocheteasse e cruzasse o ar de volta em direção à fortaleza, até morrer com uma explosão que fez todo o rio estremecer. Uma coluna d'água ergueu-se, encobrindo-o, e depois despencou sobre ele, cegando-o, sufocando-o. O canhão entrara no jogo. Ao sacudir a água que lhe encharcava a cabeça ouviu o zumbido da bala rompendo o ar acima dele, e em seguida seu impacto contra os galhos da floresta mais além, que se despedaçaram.
“Não vão fazer isso de novo”, pensou. “Da próxima vez vão usar uma carga de balim. Preciso ficar de olho nesse canhão. A fumaça vai me alertar porque o estampido chega tarde demais. É posterior ao projétil. É uma arma e tanto.”
De repente, sentiu-se envolver por um rodamoinho, todo ele rodando e rodando como um pião. A água, as margens, a floresta, a ponte agora distante, a fortaleza e os soldados — tudo se confundia, num borrão. Os objetos eram perceptíveis apenas por sua cor. Traços circulares e horizontais de cor — era tudo o que via. Fora apanhado num turbilhão, girando e rodopiando a uma velocidade cada vez maior, que o deixava tonto, enjoado. Em instantes, foi atirado contra o cascalho ao pé da margem esquerda do rio — no lado sul e atrás de uma ponta que o abrigava dos inimigos. A súbita parada e a aspereza do cascalho na palma da mão de repente o fizeram despertar, e ele chorou de alegria. Enterrou os dedos na areia, atirando-a sobre o próprio corpo enquanto agradecia em voz alta. Aquela areia era para ele como se feita de diamantes, rubis, esmeraldas. Tudo o que era belo parecia-se com ela. As árvores sobre a margem eram um gigantesco jardim. E ele notou que as plantas ali estavam compostas como se num arranjo, ao mesmo tempo que inalava seu perfume. Uma luz estranha, rosada, brilhava no espaço entre os troncos e o vento, em seus galhos, produzia a melodia de uma harpa. Já não queria fugir — estaria satisfeito em ficar naquele lugar encantador até ser recapturado.
Um zumbido e um martelar por entre os galhos, acima de sua cabeça, despertaram-no de seu sonho. O artilheiro frustrado fazia novo disparo a esmo. Farquhar pôs-se de pé e saiu correndo em direção à margem escarpada, penetrando na floresta.
Durante todo o dia caminhou, guiando-se pelo sol. A floresta parecia interminável. Em nenhum ponto encontrou uma só clareira, uma só trilha de lenhadores. Não sabia que vivia numa região de mata tão fechada. E havia nessa revelação qualquer coisa de sobrenatural.
Quando a noite caiu, estava exausto, faminto, com os pés feridos. Mas quando pensava na mulher e nos filhos, sentia-se encorajado a prosseguir. Finalmente deu numa estrada que o levou na direção que ele sabia ser a certa. Era larga e reta como a rua de uma cidade e contudo parecia não ter sido jamais trilhada. Não havia fazendas em suas margens, nem sinal de qualquer atividade. Nem mesmo o latido de um cão sugerindo que o lugar era habitado por humanos. Apenas o corpo negro das árvores formando uma muralha, de ambos os lados, desaparecendo em algum ponto no horizonte, como o desenho de uma lição de perspectiva. No alto, quando ele olhava através das copas das árvores, via o brilho de gigantescas estrelas cor de ouro, que lhe pareciam estranhas e agrupadas em constelações desconhecidas. Tinha certeza de que formavam um padrão cujo significado era secreto e maligno. E a floresta, de um lado e outro, emitia ruídos singulares, entre os quais — uma, duas, várias vezes — pôde distinguir sussurros numa língua que jamais ouvira.
Seu pescoço doía e ao passar a mão nele viu que estava horrivelmente inchado. Sabia que tinha um círculo escuro no lugar onde a corda o ferira. Seus olhos estavam congestionados. Já não conseguia fechá-los. A língua inchara de tanta sede. Procurou aliviar a febre botando a língua para fora por entre os dentes e buscando o contato com o ar frio. A relva macia cobrira de tal forma a estrada deserta que ele já não sentia o chão sob seus pés.
Com certeza, apesar de todo o sofrimento, adormeceu enquanto caminhava, pois agora via outro cenário — ou talvez tivesse acordado de um delírio. Está de pé diante do portão de sua própria casa. Tudo continua como ele deixou, brilhando com beleza à luz do sol da manhã. Deve ter caminhado durante toda a noite. Assim que empurra o portão e atravessa a calçada larga e branca, percebe um ondear de saias femininas. É sua esposa, parecendo tão fresca, tão calma e tão doce que desce os degraus da varanda para encontrá-lo. Ao pé dos degraus ela para, esperando, com um sorriso de imensa alegria, com graça e dignidade incomparáveis. Ah, como é bela! E ele corre, com os braços estendidos. Quando está a ponto de abraçá-la sente uma violenta pancada na nuca. Uma luz branca, capaz de cegar, explode à sua volta com um som que se assemelha ao tiro de um canhão — e depois é tudo escuridão e silêncio.
Peyton Farquhar estava morto. Seu corpo, com o pescoço quebrado, balançava lentamente de um lado para outro por entre os dormentes da ponte de Owl Creek.

[1890]

Extraído de:
TAVARES, Braulio (org.). Contos fantásticos no labirinto de Borges. Ed. Casa da Cultura, Rio de Janeiro, 2003. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Romance - Nei Lisboa


Todas as bobagens que eu já disse
Dariam pra encher um caminhão
Mesmo assim encontro no caminho
Milhares mais otários do que eu

Por isso meu amor
Não leve tão a sério
Nem o que eu digo nem o que eu deixo de esconder
Não vai ter graça o dia
Em que eu bater a porta
E você não abrir pra responder

Todas as pessoas que eu conheço
Cabem bem juntinhas na palma da mão
Pra você guardei um universo
Quando falta espaço eu faço verso e durmo na canção

Por isso meu amor não pense que é brinquedo
Eu tenho medo e morro de paixão
Não vai ter graça o dia
Em que eu abrir a porta
E a tua mão vazia disser não

Por isso meu amor
Não leve tão a sério
Se eu morro de medo
Brinco de paixão
Não vai ter graça o dia
Em que eu te vir na porta
E não souber se entro
Ou faço uma canção...


domingo, 25 de novembro de 2012

Digo que não sou um homem puro / Digo que yo no soy un hombre puro - Nicollás Guillén



Digo que não sou um homem puro.
Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
falta saber se é que o puro existe.
Ou se é, digamos, necessário.
Ou possível.
Ou se cai bem.
Acaso já provaste a água quimicamente pura,
a água de laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
a água feita apenas de oxigênio e hidrogênio?
Bá! que porcaria!

Não te digo, pois, que sou um homem puro,
não te digo isso, mas bem o contrário.
Que amo (as mulheres, naturalmente,
pois meu amor pode dizer seu nome),
e gosto de comer carne de porco com batatas,
e grão-de-bico e chouriço, e
ovos, frango, carneiro, peru,
peixe e mariscos,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (inclusive com o estômago cheio).
Sou impuro, o que queres que te diga?
Completamente impuro.
No entanto,
creio que há muitas coisas puras no mundo
que não são mais que pura merda.

Por exemplo, a pureza do virgem nonagenário.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de se deitarem juntos numa pousada.
A pureza dos internatos, onde
abre suas flores de sêmen provisionado
a fauna pederasta.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos acadêmicos.
A pureza dos gramáticos.
A pureza dos que asseguram
que devemos ser puros, puros, puros.
A pureza dos que nunca tiveram gonorreia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza do homem que nunca sugou um clitóris.
A pureza daquela que nunca pariu.
A pureza daquele que nunca procriou.
A pureza daquele que se dá golpes no peito, e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, diabo, diabo.
Enfim, a pureza
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber que coisa é a pureza.

Ponto, data e assinatura.
Assim deixo escrito.

(Tradução livre)


Digo que yo no soy un hombre puro  

Digo que yo no soy un hombre puro
Yo no voy a decirte que soy un hombre puro.
Entre otras cosas
falta saber si es que lo puro existe.
O si es, pongamos, necesario.
O posible.
O si sabe bien.
¿Acaso has tú probado el agua químicamente pura,
el agua de laboratorio,
sin un grano de tierra o de estiércol,
sin el pequeño excremento de un pájaro,
el agua hecha no más de oxígeno e hidrógeno?
¡Puah!, qué porquería.

Yo no te digo pues que soy un hombre puro,
yo no te digo eso, sino todo lo contrario.
Que amo (a las mujeres, naturalmente,
pues mi amor puede decir su nombre),
y me gusta comer carne de puerco con papas,
y garbanzos y chorizos, y
huevos, pollos, carneros, pavos,
pescados y mariscos,
y bebo ron y cerveza y aguardiente y vino,
y fornico (incluso con el estómago lleno).
Soy impuro ¿qué quieres que te diga?
Completamente impuro.
Sin embargo,
creo que hay muchas cosas puras en el mundo
que no son más que pura mierda.

Por ejemplo, la pureza del virgo nonagenario.
La pureza de los novios que se masturban
en vez de acostarse juntos en una posada.
La pureza de los colegios de internado, donde
abre sus flores de semen provisional
la fauna pederasta.
La pureza de los clérigos.
La pureza de los académicos.
La pureza de los gramáticos.
La pureza de los que aseguran
que hay que ser puros, puros, puros.
La pureza de los que nunca tuvieron blenorragia.
La pureza de la mujer que nunca lamió un glande.
La pureza del que nunca succionó un clítoris.
La pureza de la que nunca parió.
La pureza del que no engendró nunca.
La pureza del que se da golpes en el pecho, y
dice santo, santo, santo,
cuando es un diablo, diablo, diablo.
En fin, la pureza
de quien no llegó a ser lo suficientemente impuro
para saber qué cosa es la pureza.

Punto, fecha y firma.
Así lo dejo escrito.

Nicolás Cristóbal Guillén Batista (Cuba, 1902-1989).

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Três tipos de déspota - Oscar Wilde


Há três tipos de déspota:
O que tiraniza o corpo, o Príncipe;
o que tiraniza a alma, o Papa;
e o que tiraniza o corpo e a alma, o Povo.

Oscar Wilde (1854-1900)

... Bem, ele não conheceu as mídias dos séculos XX e XXI.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Stand By Me - Ben E. King - por artistas de rua








Stand By Me (Ben E. King)

When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No I won't be afraid, No I won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me

Chorus:
So darling, darling
Stand by me, oh, stand by me
Oh stand, stand by me,
Stand by me

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountains should crumble to the sea
I won't cry, I won't cry
No I won't shed a tear
Just as long as you stand, stand by me

Chorus:
Whenever you're in trouble, won't you stand by me
Oh stand by me,
oh won't you stand now?
stand by me


Fique Comigo

Quando a noite tiver chegado
E a terra estiver escura,
E a lua for a única luz que veremos,
Não, eu não terei medo. Não, eu não terei medo
Desde que você fique. Fique comigo

Refrão:
Então querida, querida,
Fique comigo. Oh, fique comigo,
Oh, fique. Fique comigo,
Fique comigo...

Se o céu que vemos lá em cima
Desabar e cair
Ou as montanhas desmoronarem no mar
Eu não chorarei, eu não chorarei
Não, eu não derramarei uma lágrima,
Desde que você fique. Fique comigo

Refrão:
Quando você estiver com problemas, você contará comigo?
Oh, conte comigo
Oh, você não ficará agora?
Conte comigo

sábado, 28 de julho de 2012

As vitrines - Chico Buarque


... passas sem ver teu vigia catando a poesia que entornas no chão...


Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão
- Dá tua mão
- Olha pra mim
- Não faz assim
- Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

http://www.youtube.com/watch?v=lKALYELRFUw

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Oh, yes - Charles Bukowski


oh, yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski


oh, sim

existem coisas piores do que
estar sozinho
mas comumente leva décadas
para se perceber isso
e mais comumente
quando você percebe
é tarde demais
e não há nada pior
do que
tarde demais.

(Tradução livre)

domingo, 15 de abril de 2012

Não se mate – Carlos Drummond de Andrade


Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

(Carlos Drummond de Andrade)

Leia também: A bruxa - C. Drummond de Andrade

domingo, 1 de abril de 2012

Geni e o zepelim - Chico Buarque (música e letra)


De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:

"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de ideia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniquidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".

Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.

Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:

"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

           * * *
(Maravilha de música sobre a ingratidão e a canalhice humanas).

domingo, 25 de março de 2012

Sorôco, sua mãe, sua filha - João Guimarães Rosa


Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.
As muitas pessoas já estava de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo — o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.
A hora era de muito sol — o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas reluzências do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava. O borco bojudo do telhadinho dele alumiava em preto. Parecia coisa de invento de muita distância, sem piedade nenhuma, e que a gente não pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e não sendo de ninguém. Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.
O Agente da estação apareceu, fardado de amarelo, com o livro de capa preta e as bandeirinhas verde e vermelha debaixo do braço. — "Vai ver se botaram água fresca no carro..." — ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo nas mangueiras de engate. Alguém deu aviso: — "Eles vêm!..." Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer de comitiva.
Aí, paravam. A filha — a moça — tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras — o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas — virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.
Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles transmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Sorôco — para não parecer pouco caso. Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: — "Deus vos pague essa despesa..."
O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco aguentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências, de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.
De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. — "Ela não faz nada, seo Agente..." — a voz de Sorôco estava muito branda: — "Ela não acode, quando a gente chama..." A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo — um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia. Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.
Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham de dar fim aos aprestes, fazer as duas entrar para o carro de janelas enxequetadas de grades. Assim, num consumiço, sem despedida nenhuma, que elas nem haviam de poder entender. Nessa diligência, os que iam com elas, por bem-fazer, na viagem comprida, eram o Nenêgo, despachado e animoso, e o José Abençoado, pessoa de muita cautela, estes serviam para ter mão nelas, em toda juntura. E subiam também no carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e malas, e as coisas de comer, muitas, que não iam fazer míngua, os embrulhos de pão. Por derradeiro, o Nenêgo ainda se apareceu na plataforma, para os gestos de que tudo ia em ordem. Elas não haviam de dar trabalhos.
Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.
Sorôco.
Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre.
Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo — o que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: — "O mundo está dessa forma..." Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas. De repente, todos gostavam demais de Sorôco.
Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra ir s'embora. Estava voltando para casa, como se estivesse indo longe, fora de conta.
Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo? Num rompido — ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si — e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.
A gente se esfriou, se afundou — um instantâneo. A gente... E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.
A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.
  
João Guimarães Rosa in Primeiras estórias (1962).

Outros contos de Guimarães Rosa: