BARROS, Manoel de. Memórias inventadas - A segunda infância. Ed. Planeta, São Paulo, 2006.
sábado, 18 de novembro de 2017
Um doutor - Manoel de Barros
Um doutor veio formado de São Paulo. Almofadinha. Suspensórios, colete, botina preta de presilhas. E um trejeito no andar de pomba rolinha. No verbo, diga-se de logo, usava naftalina. Por acaso, era um pernóstico no falar. Pessoas simples da cidade lhe admiravam a pose de doutor. Eu só via o casco. Fomos de tarde no Bar O Ponto. Ele, meu pai e este que vos fala. Este que vos fala era um rebelde adolescente. De pronto o Doutor falou pra meu pai: Meus parabéns Seo João, parece que seu filho agora endireitou! E meu pai: Ele nunca foi torto. Pintou um clima de urubu com mandioca entre nós. O doutor pisou no rabo, eu pensei. Ele ainda perguntou: E o comunismo dele? Está quarando na beira do rio entre as capivaras, o pai respondeu. O doutor se levantou da mesa e saiu com seu andar de vespa magoada.
BARROS, Manoel de. Memórias inventadas - A segunda infância. Ed. Planeta, São Paulo, 2006.
BARROS, Manoel de. Memórias inventadas - A segunda infância. Ed. Planeta, São Paulo, 2006.
Sobre importâncias [2] - Manoel de Barros
Um fotógrafo-artista me disse outra vez: Veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de um criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que o osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga. Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.
BARROS, Manoel de. Memórias inventadas - A segunda infância, Ed. Planeta, São Paulo, 2006.
BARROS, Manoel de. Memórias inventadas - A segunda infância, Ed. Planeta, São Paulo, 2006.
domingo, 14 de maio de 2017
Os teólogos - Jorge Luis Borges
Arrasado o jardim, profanados os cálices e
os altares, entraram a cavalo os hunos na biblioteca monástica e
rasgaram os livros incompreensíveis e os injuriaram e queimaram, talvez
temerosos de que as letras encobrissem blasfêmias contra seu deus, que
era uma cimitarra de ferro. Arderam palimpsestos e códices, mas no
coração da fogueira, entre as cinzas, permaneceu quase intacto o livro
duodécimo da Civitas Dei, que narra que Platão ensinou em Atenas que, no
fim dos séculos, todas as coisas recuperarão seu estado anterior, e que
ele, em Atenas, diante do mesmo auditório, de novo ensinará essa
doutrina. O texto que as chamas perdoaram desfrutou de veneração
especial e os que o leram e releram nessa remota província esqueceram
que o autor só declarou tal doutrina para poder melhor refutá-la. Um
século depois, Aureliano, coadjutor de Aquiléia, soube que às margens do
Danúbio a novíssima seita dos monótonos (chamados também anulares)
professava que a história é um círculo e que nada é que não tenha sido e
que não será. Nas montanhas, a Roda e a Serpente tinham deslocado a
Cruz. Todos temiam, mas todos se confortavam com o boato de que João de
Panonia, que se distinguira com um tratado sobre o sétimo atributo de
Deus, ia impugnar tão abominável heresia.
Aureliano deplorou essas notícias,
sobretudo a última. Sabia que em matéria teológica não há novidade sem
perigo; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado
dissímil, demasiado assombrosa para que o perigo fosse grave. (As
heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a
ortodoxia.) Mais lhe doeu a intervenção – a intrusão – de João de
Panonia. Havia dois anos, ele usurpara com seu palavroso De Septima
Affectione Dei Sive de Aeternitate um assunto da especialidade de
Aureliano; agora, como se o problema do tempo lhe pertencesse, ia
retificar, talvez com argumentos de Procusto, com triagas mais temíveis
que a Serpente, os anulares… Nessa noite, Aureliano folheou o antigo
diálogo de Plutarco sobre a cessação dos oráculos; no parágrafo vinte e
nove, leu uma burla contra os estoicos que defendem um infinito ciclo de
mundos, com infinitos sóis, luas, Apolos, Dianas e Poseidons. O achado
pareceu-lhe prognóstico favorável; resolveu adiantar-se a João de
Panonia e refutar os heréticos da Roda.
Há quem procure o amor de uma mulher para
esquecer-se dela, para não pensar mais nela; Aureliano, da mesma forma,
queria superar João de Panonia para curar-se do rancor que ele lhe
infundia, não para fazer-lhe mal. Temperado pelo mero trabalho, pela
construção de silogismos e pela invenção de injúrias, pelos nego e os
autem e os nequaquam, pôde esquecer esse rancor. Erigiu vastos e quase
inextricáveis períodos, entrecortados por incisos, em que a negligência e
o solecismo pareciam formas de desdém. Da cacofonia fez um instrumento.
Previu que João ia fulminar os anulares com gravidade profética; para
não coincidir com ele, optou pelo escárnio. Agostinho tinha escrito que
Jesus é a via reta que nos salva do labirinto circular em que andam os
ímpios; Aureliano, laboriosamente trivial, comparou-os a Ixion, ao
fígado de Prometeu, a Sísifo, àquele rei de Tebas que viu dois sóis, à
gaguice, a louros, a espelhos, a ecos, a mulas de carga e a silogismos
bicornutos. (As fábulas gentílicas perduravam, rebaixadas a adornos.)
Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não
conhecê-la até o fim; essa controvérsia permitiu-lhe chegar a um acordo
com muitos livros que pareciam censurar sua incúria. Assim pôde
engastar uma passagem da obra De Principiis de Orígenes, na qual se nega
que Judas Iscariotes voltará a vender o Senhor, e Paulo, a presenciar o
martírio de Estêvão em Jerusalém, e outra dos Academica Priora de
Cícero, em que este zomba dos que sonham que, enquanto ele conversa com
Lúculo, outros Lúculos e outros Cíceros, em número infinito, dizem
exatamente o mesmo, em infinitos mundos iguais. Além disso, esgrimiu
contra os monótonos o texto de Plutarco e denunciou o escândalo de que a
um idólatra valesse mais o lumen naturae que a eles a palavra de Deus.
Nove dias lhe tomou esse trabalho; no décimo, foi-lhe enviada uma cópia
da refutação de João de Panonia.
Era quase irrisoriamente breve. Aureliano
olhou-a com desdém e depois com temor. A primeira parte glosava os
versículos finais do nono capítulo da Epístola aos Hebreus, na qual se
diz que Jesus não foi sacrificado muitas vezes desde o início do mundo,
senão agora uma vez na consumação dos séculos. A segunda alegava o
preceito bíblico sobre as vãs repetições dos gentios (Mateus 6, 7) e
aquela passagem do sétimo livro de Plínio, que pondera não haver no
vasto universo duas faces iguais. João de Panonia declarava que tampouco
há duas almas e que o pecador mais vil é precioso como o sangue que por
ele verteu Jesus Cristo. O ato de um único homem (afirmou) pesa mais
que os nove céus concêntricos, e imaginar que possa perder-se e voltar é
uma aparatosa frivolidade. O tempo não refaz o que perdemos; a
eternidade guarda-o para a glória e também para o fogo. O tratado era
límpido, universal; não parecia redigido por uma pessoa específica, mas
por qualquer homem ou, talvez, por todos os homens.
Aureliano sentiu uma humilhação quase
física. Pensou em destruir ou reformar seu próprio trabalho; em seguida,
com rancorosa probidade, mandou-o para Roma sem modificar uma letra.
Meses depois, quando se reuniu o Concílio de Pérgamo, o teólogo
encarregado de impugnar os erros dos monótonos foi (previsivelmente)
João de Panonia; sua douta e comedida refutação bastou para que Euforbo,
heresiarca, fosse condenado à fogueira. “Isto ocorreu e voltará a
ocorrer”, disse Euforbo. “Não acendeis uma pira, acendeis um labirinto
de fogo. Se aqui se unissem todas as fogueiras que eu tenho sido, não
caberiam na terra e os anjos ficariam cegos. Isto eu falei muitas
vezes.” Depois gritou, porque as chamas o atingiram.
Caiu a Roda diante da Cruz [1], mas
Aureliano e João prosseguiram sua batalha secreta. Militavam os dois no
mesmo exército, ansiavam pelo mesmo galardão, guerreavam contra o mesmo
Inimigo, mas Aureliano não escreveu uma palavra que inconfessavelmente
não pretendesse superar João. Seu duelo foi invisível; se os numerosos
índices não me enganam, não figura uma única vez o nome do outro nos
muitos volumes de Aureliano que a Patrologia de Migne entesoura. (Das
obras de João, só permaneceram vinte palavras.) Os dois desaprovaram os
anátemas do segundo Concílio de Constantinopla; os dois perseguiram os
arianos, que negavam a geração eterna do Filho; os dois testemunharam a
ortodoxia da Topographia Christiana de Cosmas, que ensina ser a Terra
quadrangular, como o tabernáculo hebreu. Desgraçadamente, pelos quatro
ângulos da terra difundiu-se outra tempestuosa heresia. Oriunda do Egito
ou da Ásia (porque os testemunhos diferem e Bousset não quer admitir as
razões de Harnack), infestou as províncias orientais e erigiu
santuários na Macedônia, em Cartago e em Tréveris. Parecia estar em
todas as partes; foi dito que nas dioceses da Bretanha tinham sido
invertidos os crucifixos e que a imagem do Senhor, em Cesaréia, viu-se
suplantada por um espelho. O espelho e o óbolo eram emblemas dos novos
cismáticos.
A história os conhece por muitos nomes
(especulares, abismais, cainitas), mas de todos o mais aceito é
histriões, dado por Aureliano e que eles com atrevimento adotaram. Na
Frigia foram chamados de simulacros, e também na Dardânia. João
Damasceno chamou-os de formas; é justo advertir que a passagem tem sido
repelida por Erfjord. Não há heresiólogo que, com espanto, não aluda a
seus desmedidos costumes. Muitos histriões professaram o ascetismo; um
que outro se mutilou, como Orígenes; outros moraram debaixo da terra,
nas cloacas; outros arrancaram os olhos; outros (os nabucodonosores de
Nitria) “pastavam como os bois e seu cabelo crescia como as penas da
águia”. Da mortificação e do rigor passavam, muitas vezes, ao crime;
certas comunidades toleravam o roubo; outras, o homicídio; outras, a
sodomia, o incesto e a bestialidade. Todas eram blasfemas; não só
maldiziam o Deus cristão como as arcanas divindades de seu próprio
panteão. Maquinaram livros sagrados, cujo desaparecimento os doutos
deploram. Sir Thomas Browne, por volta de 1658, escreveu: “O tempo
aniquilou os ambiciosos Evangelhos Histriônicos, não as Injúrias com que
se fustigou sua Impiedade”; Erfjord sugeriu que essas “injúrias” (que
um códice grego preserva) são os evangelhos perdidos. Isso é
incompreensível, se ignoramos a cosmologia dos histriões.
Nos livros herméticos está escrito que o
que existe embaixo é igual ao que existe em cima, e o que existe em
cima, igual ao que existe embaixo; no Zohar, que o mundo inferior é
reflexo do superior. Os histriões fundaram sua doutrina sobre uma
perversão dessa ideia. Invocaram Mateus 6, 12 (“perdoa nossas dívidas,
como nós perdoamos a nossos devedores”) e 11, 12 (“o reino dos céus
adquire-se à força”) para demonstrar que a terra influi no céu, e I
Coríntios 13,12 (“vemos agora como que por um espelho, em enigma”) para
demonstrar que tudo o que vemos é falso. Talvez contaminados pelos
monótonos, imaginaram que todo homem é dois homens e que o verdadeiro é o
outro, o que está no céu. Também imaginaram que nossos atos projetam um
reflexo invertido, de maneira que, se velamos, o outro dorme, se
fornicamos, o outro é casto, se roubamos, o outro é generoso. Mortos,
nos uniremos a ele e seremos ele. (Algum eco dessas doutrinas perdurou
em Bloy.) Outros histriões discorreram que o mundo acabaria quando se
esgotasse o número de suas possibilidades; já que não pode haver
repetições, o justo deve eliminar (cometer) os atos mais infames, para
que estes não manchem o futuro e para acelerar a vinda do reino de
Jesus. Esse artigo foi negado por outras seitas, que defenderam que a
história do mundo deve cumprir-se em cada homem. Os demais, como
Pitágoras, deverão transmigrar por muitos corpos antes de conseguir sua
liberação; alguns, os proteicos, “no termo de uma só vida são leões, são
dragões, são javalis, são água e são uma árvore”. Demóstenes cita a
purificação pela lama a que eram submetidos os iniciados nos mistérios
órficos; os proteicos, analogicamente, procuraram a purificação pelo
mal. Entenderam, como Carpócrates, que ninguém sairá da prisão até pagar
o último óbolo (Lucas 12, 59), e costumavam ludibriar os penitentes com
este outro versículo: “Eu vim para que os homens tenham vida e para que
a tenham em abundância” (João 10,10). Também diziam que não ser malvado
é soberba satânica… Muitas e divergentes mitologias urdiram os
histriões; uns pregaram o ascetismo, outros a licenciosidade, todos a
confusão. Teopompo, histrião de Berenice, negou todas as fábulas; disse
que cada homem é um órgão que projeta a divindade para sentir o mundo.
Os hereges da diocese de Aureliano eram
dos que afirmavam que o tempo não tolera repetições, não dos que
afirmavam que todo ato se reflete no céu. Essa circunstância era
estranha; em um relatório às autoridades romanas, Aureliano mencionou-a.
O prelado que receberia o relatório era confessor da imperatriz;
ninguém ignorava que esse ministério exigente lhe vedava as íntimas
delícias da teologia especulativa. Seu secretário – antigo colaborador
de João de Panonia, agora inimizado com ele – gozava do renome de
pontualíssimo inquisidor de heterodoxias; Aureliano acrescentou uma
exposição da heresia histriônica, tal como esta se dava nos
conventículos de Gênova e de Aquileia. Redigiu alguns parágrafos; quando
quis escrever a tese horrível de que não existem dois instantes iguais,
sua pena se deteve. Não encontrou a fórmula necessária; as admoestações
da nova doutrina (“Queres ver o que não viram os olhos humanos? Olha a
lua. Queres ouvir o que os ouvidos não ouviram? Ouve o grito do pássaro.
Queres tocar o que não tocaram as mãos? Toca a terra. Digo,
verdadeiramente, que Deus está por criar o mundo”) eram bastante
afetadas e metafóricas para a transcrição. De repente, uma oração de
vinte palavras apresentou-se a seu espírito. Escreveu-a, jubiloso; logo
depois, inquietou-o a suspeita de que ela fosse de outro. No dia
seguinte, lembrou-se de que a lera havia muitos anos no Adversus
Annulares composto por João de Panonia. Verificou a citação; ali estava.
A incerteza o atormentou. Alterar ou suprimir essas palavras era
debilitar a expressão; deixá-las era plagiar um homem que ele abominava;
indicar a fonte era denunciá-lo. Implorou o socorro divino. No
princípio do segundo crepúsculo, seu anjo da guarda ditou-lhe uma
solução intermédia. Aureliano conservou as palavras, mas lhes antepôs
este aviso: “O que ladram agora os heresiarcas para confusão da fé,
disse-o neste século um varão doutíssimo, com mais irreflexão que
culpa”. Depois, aconteceu o temido, o esperado, o inevitável. Aureliano
teve de declarar quem era esse varão; João de Panonia foi acusado de
professar opiniões heréticas.
Quatro meses depois, um ferreiro de
Aventino, alucinado pelos enganos dos histriões, pôs sobre os ombros de
seu filhinho uma grande bola de ferro, a fim de que seu outro voasse. O
menino morreu; o horror produzido por esse crime impôs uma
irrepreensível severidade aos juízes de João. Este não quis retratar-se;
repetiu que negar sua proposição era incorrer na pestilencial heresia
dos monótonos. Não entendeu (não quis entender) que falar dos monótonos
era falar do que já estava esquecido. Com insistência um tanto senil,
desperdiçou os períodos mais brilhantes de suas velhas polêmicas; os
juízes nem sequer ouviam aquilo que outrora os arrebatara. Em lugar de
tratar de purificar-se da mais leve mácula de histrionismo, esforçou-se
em demonstrar que a proposição de que o acusavam era rigorosamente
ortodoxa. Discutiu com os homens de cuja sentença dependia sua sorte e
cometeu a máxima grosseria de fazê-lo com talento e com ironia. No dia
26 de outubro, depois de uma discussão que durou três dias e três
noites, sentenciaram-no a morrer na fogueira.
Aureliano presenciou a execução, porque
não o fazer seria confessar-se culpado. O lugar do suplício era uma
colina, em cujo verde pico havia uma estaca, fincada profundamente no
solo, e em torno dela muitas achas de lenha. Um ministro leu a sentença
do tribunal. Sob o sol das doze, João de Panonia jazia com o rosto no
pó, lançando uivos bestiais. Arranhava a terra, mas os verdugos o
ergueram, o despiram e por fim o amarraram ao pelourinho. Puseram-lhe à
cabeça uma coroa de palha untada de enxofre; ao lado, um exemplar do
pestilento Adversus Annulares. Chovera na noite anterior e a lenha ardia
mal. João de Panonia rezou em grego e depois em um idioma desconhecido.
A fogueira ia levá-lo quando Aureliano se atreveu a erguer os olhos. As
chamas ardentes se detiveram; Aureliano, pela primeira e última vez,
viu o rosto do odiado. Lembrou-lhe o de alguém, mas não pôde precisar de
quem. Depois, as chamas o perderam; depois, gritou e foi como se um
incêndio gritasse.
Plutarco conta que Júlio César chorou a
morte de Pompeu; Aureliano não chorou a de João, mas sentiu aquilo que
sentiria um homem curado de uma enfermidade incurável que já fosse parte
de sua vida. Em Aquileia, em Éfeso, na Macedônia, deixou que sobre si
passassem os anos. Procurou os difíceis limites do Império, os rudes
lamaçais e os contemplativos desertos, para que a solidão o ajudasse a
entender seu destino. Numa cela mauritana, na noite carregada de leões,
repensou a complexa acusação contra João de Panonia e justificou, pela
enésima vez, o veredicto. Custou-lhe mais justificar sua tortuosa
denúncia. Em Rusaddir pregou o anacrônico sermão Luz das Luzes Acesa na
Carne de Um Réprobo. Em Hibérnia, em uma das cabanas de um monastério
cercado pela selva, surpreendeu-o, numa noite até a alvorada, o rumor da
chuva. Lembrou-se de uma noite romana em que fora surpreendido, também,
por esse minucioso rumor. Um raio, ao meio-dia, incendiou as árvores e
Aureliano pôde morrer como morrera João.
O final da história só pode ser narrado
com metáforas, já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo.
Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este
se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de
Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confusão na mente divina.
Mais correto é dizer que no paraíso Aureliano soube que, para a
insondável divindade, ele e João de Panonia (o ortodoxo e o herege, o
odiado e o que odeia, o acusador e a vítima) formavam uma única pessoa.
Jorge Luis Borges, in O Aleph (1949). Tradução de Flávio José Cardozo. Editora Globo, S. Paulo, 1998.
Mais Jorge Luis Borges:
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
As dores do mundo - Arthur Schopenhauer
Se
a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode-se dizer
que não tem razão alguma de ser no mundo. Porque é absurdo admitir
que a dor sem fim que nasce da miséria inerente à vida e enche o
mundo seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada
desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça
geral é a regra.
Assim
como um regato corre sem ímpetos enquanto não encontra obstáculos,
do mesmo modo, na natureza animal, a vida corre inconsciente e
descuidosa quando coisa alguma se lhe opõe à vontade. Se a atenção
desperta, é porque a vontade não era livre e se produziu algum
choque. Tudo o que se ergue em frente da nossa vontade, tudo o que a
contraria ou lhe resiste, isto é, tudo o que há de desagradável e
de doloroso, sentimo-lo ato contínuo e muito nitidamente. Não nos
atentamos à saúde geral do nosso corpo, mas notamos o ponto ligeiro
onde o sapato nos molesta; não apreciamos o conjunto próspero dos
nossos negócios, e só pensamos numa ninharia insignificante que nos
desgosta. - O bem-estar e a felicidade são, portanto, negativos, só
a dor é positiva.
Não
conheço nada mais absurdo que a maior parte dos sistemas
metafísicos, que explicam o mal como uma coisa negativa; só ele,
pelo contrário, é positivo, visto que se faz sentir... O bem, a
felicidade, a satisfação são negativos, porque não fazem senão
suprimir um desejo e terminar um desgosto.
Acrescente-se
a isto que em geral achamos as alegrias abaixo da nossa expectativa,
ao passo que as dores a excedem sobremaneira.
Se
quereis num momento esclarecer-vos a este respeito, e saber se o
prazer é superior ao desgosto, ou se apenas se compensam, comparai a
impressão do animal que devora outro com a impressão do que é
devorado.
A
mais eficaz consolação em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é
voltar os olhos para aqueles que são ainda mais desgraçados do que
nós: este remédio encontra-se ao alcance de todos. Mas que resulta
daí para o conjunto?
Semelhantes
aos carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o
carniceiro faz a sua escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos
nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara precisamente
a essa hora — doença, perseguição, ruína, mutilação,
cegueira, loucura, etc.
Tudo
o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que
é preciso vencer. Na vida dos povos, a História só nos aponta
guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos intervalos
de entreatos, uma vez por acaso. E da mesma maneira a vida do homem é
um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou
o aborrecimento, mas também contra os outros homens. Em toda a parte
se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e
morre-se com as armas na mão.
Ao
tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que
nos inquieta, que não nos deixa respirar, e se conserva atrás de
cada um de nós como um vigia forçando-nos
de chicote em punho. — Poupa apenas aqueles que entregou ao
aborrecimento.
Portanto,
assim como o nosso corpo rebentaria se estivesse sujeito à pressão
da atmosfera, do mesmo modo, se o peso da miséria, do desgosto, dos
reveses e dos vãos esforços fosse banido da vida do homem, o
excesso da sua arrogância seria tão desmedido que o faria em
bocados, ou pelo menos o conduziria à insânia mais desordenada e à
loucura furiosa. — Em todo o tempo, cada um precisa ter um certo
número de cuidados, de dores ou de miséria, do mesmo modo que o
navio carece de lastro para manter-se
em equilíbrio e andar direito.
Trabalho,
tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida
inteira o quinhão de quase todos os homens. Mas se todos os desejos,
apenas formados, fossem imediatamente realizados, com que se
preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Coloque-se
esta raça num país de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente,
onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de todas as bocas,
onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o
mais facilmente possível — ver-se-ia então os homens morrerem de
tédio, ou enforcarem-se, outros disputarem, matarem-se, e
causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes
impõe. — Assim, para semelhante raça, nenhum outro teatro,
nenhuma outra existência conviriam.
Na
primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai
abrir diante de nós, como as crianças em frente do pano de um
teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que vão
passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de
antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente se vai passar,
as crianças são inocentes culpados condenados não à morte mas à
vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua sentença.
— Nem por isso todos deixam de ter o desejo de chegar a uma idade
avançada, isto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo:
"Hoje é mau, e cada dia o será mais — até que chegue o pior
de todos."
Quando
se representa, tanto quanto é possível fazê-lo de uma maneira
aproximada, a soma de miséria, de dor e de sofrimentos de todas as
espécies que o Sol ilumina no seu curso, deve-se concordar que
valeria muito mais que esse astro tivesse o mesmo poder na Terra para
fazer surgir o fenômeno da vida que tem na Lua, e seria preferível
que a superfície da Terra como a da Lua se mantivesse ainda no
estado de cristal.
Pode
ainda se considerar a nossa vida como um episódio que perturba
inutilmente a beatitude e o repouso do nada. Seja como for, aquele
para quem a existência é quase suportável, à medida que avança
em idade, tem uma consciência cada vez mais clara de que ela é em
todas as coisas um disappointment,
nay,
a
cheat
[uma decepção, ou melhor uma fraude], em outros termos, que ela
possui o caráter de uma grande mistificação, para não dizer de um
logro...
Alguém
que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma
disposição de espírito que um espectador que, sentado numa barraca
de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas repetidas duas ou três
vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma
única representação e já não fazem nenhum efeito, uma vez
dissipadas a ilusão e a novidade.
Perder-se-ia
a cabeça, se se observasse a prodigalidade das disposições
tomadas, essas estrelas fixas que brilham inumeráveis no espaço
infinito, e não têm outro fim senão iluminar mundos, teatros da
miséria e dos gemidos, mundos que, no mais feliz dos casos, só
produzem o tédio: — pelo menos a apreciarmos a amostra que nos é
conhecida.
Ninguém
é verdadeiramente digno de inveja, e quantos são para lastimar!
A
vida é uma tarefa que devemos desempenhar laboriosamente; e neste
sentido, a palavra defunctus
é uma bela expressão.
Imagine-se
por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade
nem uma voluptuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a
espécie humana subsistiria ainda? Não sentiriam todos bastante
piedade pela geração futura, para lhe poupar o peso da existência,
ou, pelo menos, não hesitariam em impor esse a ela a sangue frio?
O
mundo é o inferno, e os homens dividem-se em almas atormentadas e em
diabos atormentadores.
Certamente
ainda terei de ouvir dizer que a minha filosofia carece de consolação
— e isso simplesmente porque digo a verdade, enquanto todos gostam
de ouvir dizer: o Senhor Deus fez bem tudo quanto fez. Ide à igreja
e deixai os filósofos em paz. Pelo menos não exijam que eles
ajustem as suas doutrinas ao vosso catecismo: é o que fazem os
indigentes e os filosofastros: a esses podem-se encomendar doutrinas
ao gosto de cada um. Perturbar o otimismo obrigado dos professores de
filosofia é tão fácil como agradável.
Brama
produz o mundo por uma espécie de pecado ou desvario, e permanece
ele próprio no mundo para expiar esse pecado até estar redimido. —
Muito bem! — No Budismo, o mundo nasce em seguida a uma perturbação
inexplicável, que se produz após um longo repouso nessa claridade
do céu, nessa beatitude serena, chamada Nirvana, que será
reconquistada pela penitência; é como que uma espécie de
fatalidade que se deve compreender no fundo de um sentido moral,
ainda que essa explicação tenha uma analogia e uma imagem
exatamente correspondente na natureza pela formação inexplicável
do mundo primitivo, vasta nebulosa donde surgirá um sol. Mas os
erros morais tornam mesmo o mundo físico gradualmente pior e sempre
pior, até ter tomado a sua triste forma atual.
Para
os gregos, o mundo e os deuses eram a obra de uma necessidade
insondável. Esta explicação é suportável, porque nos satisfaz
provisoriamente. Ormuzd vive em guerra com Ahriman: — isto ainda se
pode admitir. — Mas um Deus como esse Jeová, que animi
causa,
por seu bel-prazer e muito voluntariamente produz este mundo de
miséria e de lamentações, e que ainda se felicita e se aplaude, é
que é demasiado forte! Consideremos, portanto, nesse ponto de vista,
a religião dos judeus como a última entre as doutrinas religiosas
dos povos civilizados; o que concorda perfeitamente com o fato de ser
ela também a única que não tem absolutamente nenhum vestígio de
imortalidade.
Ainda
mesmo que a demonstração de Leibnitz fosse verdadeira, embora se
admitisse que entre os mundos possíveis este é sempre o melhor,
essa demonstração não daria ainda nenhuma teodiceia. Porque o
criador não só criou o mundo, mas também a própria possibilidade;
portanto, devia ter tornado possível um mundo melhor.
A
miséria, que alastra por este mundo, protesta demasiado alto contra
a hipótese de uma obra perfeita devida a um ser absolutamente sábio,
absolutamente bom, e também todo-poderoso; e, de outra parte, a
imperfeição evidente e mesmo a burlesca caricatura do mais acabado
dos fenômenos da criação, o homem, são de uma evidência
demasiado sensível. Há aí uma dissonância que não se pode
resolver. As dores e as misérias são, pelo contrário, outras
tantas provas em apoio, quando consideramos o mundo como a obra da
nossa própria culpa, e portanto como uma coisa que não podia ser
melhor. Ao passo que na primeira hipótese, a miséria do mundo se
torna uma acusação amarga contra o criador e dá margem aos
sarcasmos, no segundo caso aparece como uma acusação contra o nosso
ser e a nossa vontade, bem própria para nos humilhar.
Conduz-nos
a este profundo pensamento de que viemos ao mundo já viciados como
os filhos de pais gastos pelos desregramentos, e que, se a nossa
existência é de tal modo miserável, e tem por desenlace a morte, é
porque temos continuamente essa culpa a expiar. De um modo geral não
há nada mais certo: é a pesada culpa do mundo que causa os grandes
e inúmeros sofrimentos a que somos votados; e entendemos esta
relação no sentido metafísico e não no físico e empírico.
Assim, a história do pecado original reconcilia-me com o antigo
testamento; é mesmo a meus olhos a única verdade metafísica do
livro, embora aí se apresente sob o véu da alegoria. Porque a nossa
existência assemelha-se perfeitamente à consequência de uma
falta e de um desejo culpado...
Quereis
ter sempre ao alcance da mão uma bússola segura a fim de vos
orientar na vida e de a encarar incessantemente sob o seu verdadeiro
prisma. Habituai-vos a considerar este mundo como um lugar de
penitência, como uma colônia penitenciária, como lhe chamaram já
os mais antigos filósofos (Clem.
Alex. Strom.
L. III, c. 3, p. 399) e alguns padres da Igreja. (Augustin. De
civit.
Dei, L. XI, 23).
A
sabedoria de todos os tempos, o Bramanismo, o Budismo, Empédocles e
Pitágoras confirmaram este modo de ver; Cicero (Fragmenta
de philosophia,
vol. 12, p. 316, ed. Bip.) conta que os sábios antigos na iniciação
dos mistérios ensinavam: nos
ob aliqua scelera sucepta in vita superiore, pœnarum luendarum
causa natos esse
[Nascemos para cumprir a pena de alguns crimes cometidos em uma vida
anterior]. Vanini, que acharam mais cômodo queimar que refutar,
exprime essa ideia da maneira mais enérgica, quando diz: Tot,
tantisque homo repletus miseriis, ut si Christianæ religioni non
repugnaret: dicere auderem, si dcemones dantur, ipsi, in hominum
corpora transmigrantes, sceleris pænas luunt.
[O homem está tão repleto de tantas misérias, que, se a religião
cristã não se opusesse, eu me atreveria a dizer: se existem
demônios, eles mesmos, ao passarem aos corpos dos homens, cumprem
penas.] (De
admirandis naturae arcanis,
dial. L. p. 353.) Mas, mesmo no puro cristianismo bem compreendido, a
nossa existência é considerada como a consequência de uma falta,
de uma queda. Se nos familiarizarmos com esta ideia, não esperaremos
da vida senão o que ela pode nos dar, e longe de considerarmos as
suas contradições, sofrimentos, tormentos, misérias grandes ou
pequenas, como coisas inesperadas, contrárias às regras,
achá-las-emos perfeitamente naturais, sabendo bem que na Terra cada
um sofre a pena da sua existência, e cada um a seu modo. Entre os
males de um estabelecimento penitenciário, o menor não é a
sociedade que nele se encontra. O que a sociedade dos homens vale,
sabem-no aqueles que mereceriam outra melhor, sem que seja necessário
que eu o diga. Uma bela alma, um gênio, podem por vezes experimentar
aí os sentimentos de um nobre prisioneiro do Estado que se encontra
nas galés rodeado de celerados vulgares; e, como ele, procuram
isolar-se. Em geral, porém, esta ideia sobre o mundo torna-nos aptos
a ver sem surpresa, e ainda mais, sem indignação, o que se chamam
as imperfeições, isto é, a miserável constituição intelectual e
moral da maior parte dos homens, que a sua própria fisionomia nos
revela...
A
convicção de que o mundo e, por conseguinte, o homem são tais que
não deveriam existir é apresentada
de
modo
que nos deve encher de indulgência uns pelos outros; que se pode
esperar, de fato, de uma tal espécie de seres? — Penso, às vezes,
que a maneira mais conveniente
de
os
homens se cumprimentarem em vez de ser Senhor, Sir etc, poderia ser:
“companheiro de sofrimentos, soci
malorum,
companheiro de miséria, my
fellow-sufferer”.
Por muito original que isto pareça, a expressão é contudo fundada,
lança sobre o próximo a luz mais verdadeira, e lembra a necessidade
da tolerância, da paciência, da indulgência, do amor ao
próximo, sem o que ninguém pode passar, e de que, portanto, todos
são devedores.
Extraído de
SCHOPENHAUER,
Arthur. As
dores do mundo (p. 25-30).
São Paulo, EDIPRO, 2014.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Sobre importâncias - Manoel de Barros
Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois Pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira
dos Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras.
Manoel de Barros, in Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001).
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois Pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira
dos Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras.
Manoel de Barros, in Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001).
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Nem sou uma pessoa sem ninguém dentro - Manoel de Barros
Sobre meu corpo se deitou a noite (como se
eu fosse um lugar de paina).
Mas eu não sou um lugar de paina.
Quando muito um lugar de espinhos.
Talvez um terreno baldio com insetos dentro.
Na verdade eu nem tenho ainda o sossego de
uma pedra.
Não tenho os predicados de uma lata.
Nem sou uma pessoa sem ninguém dentro –
feito um osso de gado
Ou um pé de sapato jogado no beco.
Não consegui ainda a solidão de um caixote –
tipo aquele engradado de madeira que o poeta
Francis Ponge fez dele um objeto de poesia.
Não sou sequer uma tapera, Senhor.
Não sou um traste que se preze.
Eu não sou digno de receber no meu corpo os
orvalhos da manhã.
Manoel de Barros, in Retrato do artista quando coisa, 1998.
eu fosse um lugar de paina).
Mas eu não sou um lugar de paina.
Quando muito um lugar de espinhos.
Talvez um terreno baldio com insetos dentro.
Na verdade eu nem tenho ainda o sossego de
uma pedra.
Não tenho os predicados de uma lata.
Nem sou uma pessoa sem ninguém dentro –
feito um osso de gado
Ou um pé de sapato jogado no beco.
Não consegui ainda a solidão de um caixote –
tipo aquele engradado de madeira que o poeta
Francis Ponge fez dele um objeto de poesia.
Não sou sequer uma tapera, Senhor.
Não sou um traste que se preze.
Eu não sou digno de receber no meu corpo os
orvalhos da manhã.
Manoel de Barros, in Retrato do artista quando coisa, 1998.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
O guardador de rebanhos - Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
...
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
...
domingo, 22 de dezembro de 2013
Poema dos dons / Poema de los dones - Jorge Luis Borges
Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Deu-me a um só tempo os livros e a noite.
Da cidade de livros tornou donos
Estes olhos sem luz, que só concedem
Em ler entre as bibliotecas dos sonhos
Insensatos parágrafos que cedem
As alvas a seu afã. Em vão o dia
Lhes prodiga seus livros infinitos,
Árduos como os árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.
De fome e de sede (narra uma história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu fatigo sem rumo os confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.
Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, centúrias, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.
Em minha sombra, o oco breu com desvelo
Investigo, o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Tendo uma biblioteca como modelo.
Algo, que por certo não se vislumbra
No termo acaso, rege estas coisas;
Outro já recebeu em outras nebulosas
Tardes os muitos livros e a penumbra.
Ao errar pelas lentas galerias
Sinto às vezes com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, habituado
Aos mesmos passos e nos mesmos dias.
Qual de nós dois escreve este poema
De uma só sombra e de um eu plural?
O nome que me assina é essencial,
Se é indiviso e uno esse anátema?
Groussac [1] ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Numa empalidecida cinza vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.
Leia: Outro poema dos dons
POEMA DE LOS DONES
Jorge Luis Borges
Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestria
De
Dios, que com magnífica ironia
Me dio a la vez los libros y la noche.
De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden
Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.
De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.
Enciclopedias, atlas, el Oriente
Y el Ocidente, siglos, dinastias,
Símbolos, cosmos y cosmogonías
Brindan los muros, pero inutilmente.
Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro
com el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.
Algo, que ciertamente no se nombra
Com la palabra azar, rige estas cosas;
Outro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.
Al errar por las lentas galerías
Suelo
sentir com vago horror sagrado
Que soy el outro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.
Cual de los dos escribe este poema
De uno yo plural y de una sola sombra?
Qué importa la palabra que me nombra
Si es indiviso y uno el anatema?
Groussac [1] o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga
Que se parece al sueño y al olvido.
Jorge Luis Borges, in “O fazedor” (1960)
[1] Paul Groussac também foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Também era cego como Borges.
Mais Jorge Luis Borges:
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Arte poética - Jorge Luis Borges
Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.
Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.
Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,
Ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.
A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.
Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.
También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
Jorge Luis Borges, in El hacedor, 1960
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.
Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.
Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,
Ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.
A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.
Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.
También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
Jorge Luis Borges, in El hacedor, 1960
Mais Jorge Luis Borges:
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
O jardim de veredas que se bifurcam - Jorge Luis Borges
A Victoria Ocampo
Na página 22 da História da Guerra da Europa, de Liddell Hart, lê-se que uma
ofensiva de treze divisões britânicas (apoiadas por mil e quatrocentas peças de
artilharia) contra a linha Serre-Montauban tinha sido planeada para o dia vinte
e quatro de julho de 1916 e teve de se adiar para a manhã do dia vinte e nove.
Foram as chuvas torrenciais (anota o capitão Liddell Hart) que provocaram esse
atraso - nada significativo,
certamente. A declaração seguinte, ditada, revista e assinada pelo doutor Yu
Tsun, antigo catedrático de inglês na Hochschule
de Tsingtao, lança uma insuspeitada luz sobre o caso. Faltam as duas páginas
iniciais:
“... e pendurei o fone. Imediatamente
após, reconheci a voz que respondera em alemão. Era a do capitão Richard
Madden. Madden, no apartamento de Viktor Runeberg, significava o fim das nossas
ansiedades e - mas isto parecia muito secundário, ou devia parecer-me - também das nossas vidas. Queria dizer que Runeberg fora preso, ou
assassinado (1). Antes que se pusesse o sol desse dia, eu incorreria na mesma
sorte. Madden era implacável. Melhor dizendo, era obrigado a ser implacável.
Irlandês às ordens da Inglaterra, homem acusado de moleza e talvez até de
traição, como não iria abraçar e agradecer este milagroso favor: a descoberta,
a captura e quiçá a morte, de dois agentes do Império Alemão? Subi ao meu
quarto; absurdamente fechei a porta à chave e deitei-me de costas na estreita
cama de ferro. Na janela viam-se os telhados de sempre e o sol nublado das
seis. Pareceu-me incrível que esse dia sem premonições nem símbolos fosse o da
minha morte implacável. Apesar de ter morrido o meu pai, apesar de eu ter
passado a infância num simétrico jardim de Hai Feng, ia morrer agora? Depois
refleti que todas as coisas sucedem a uma pessoa precisamente agora. Passam séculos e séculos e só no
presente acontecem os fatos; há inúmeros homens no ar, na terra e no mar, e
tudo o que realmente sucede, sucede a mim... A quase intolerável lembrança do
rosto cavalar de Madden aboliu estas divagações. Em meio a meu ódio e meu
terror (agora não me interessa falar de terror: agora que enganei Richard
Madden, agora que a minha garganta anseia pela corda) pensei que esse guerreiro
tumultuoso e sem dúvida feliz não suspeitava que eu possuía o Segredo. O nome
do lugar preciso do novo parque de artilharia britânico sobre o Ancre. Uma ave
rasgou o céu pardo e cegamente traduzi-o por um aeroplano e esse aeroplano por
muitos (no céu francês) aniquilando o parque de artilharia com bombas
verticais. Se minha boca, antes que a desfizesse uma bala, pudesse gritar o
nome de modo que o ouvissem na Alemanha... Minha voz humana era muito fraca.
Como fazê-la chegar ao ouvido do Chefe? Ao ouvido daquele homem doente e
odioso, que de Runeberg e de mim só sabia que estávamos em Staffordshire e que
em vão esperava notícias nossas no seu árido gabinete de Berlim, a examinar
infinitamente os jornais... Disse em voz alta: ‘Devo fugir’. Levantei-me sem
ruído, numa inútil perfeição de silêncio, como se já estivesse sob a mira de
Madden. Uma coisa - talvez a simples ostentação de provar que os meus recursos eram nulos - fez-me revistar os bolsos. Encontrei o que sabia que
iria encontrar. O relógio norte-americano, a corrente de níquel e a moeda
quadrangular, o chaveiro com as comprometedoras chaves inúteis do apartamento
de Runeberg, a caderneta, uma carta que resolvi destruir imediatamente (e que
não destruí), o passaporte falso, uma coroa, dois xelins e alguns pennies, o lápis azul-vermelho, o lenço,
o revólver com uma bala. Absurdamente o empunhei e sopesei para me dar coragem.
Pensei vagamente que um tiro se pode ouvir muito longe. Em dez minutos o meu
plano amadureceu. A lista telefônica deu-me o nome da única pessoa capaz de
transmitir a notícia: vivia num subúrbio de Fenton, a menos de meia hora de
trem.
“Sou
um homem covarde. Agora o digo, agora que levei a bom termo um plano que
ninguém deixará de qualificar de arriscado. Sei que foi terrível a sua
execução. Não o fiz pela Alemanha, não. Nada me importa um país bárbaro que me
obrigou à abjeção de me tornar espião. Além disso, sei de um homem da
Inglaterra - um homem modesto - que para mim não é menos que Goethe. Não falei com
ele mais de uma hora, mas durante uma hora foi Goethe... Fi-lo porque sentia
que o Chefe tinha pouca consideração pela gente da minha raça - pelos inumeráveis antepassados que em mim confluem.
Queria provar-lhe que um amarelo podia salvar os seus exércitos. Além disso,
tinha de fugir do capitão. As suas mãos e a sua voz podiam bater à minha porta
a qualquer momento. Vesti-me sem ruído, disse-me adeus no espelho, desci,
esquadrinhei a rua tranquila e saí. A estação não ficava muito longe da casa, mas
achei preferível apanhar um carro. Argumentei que assim corria menos perigo de
ser reconhecido; o fato é que na rua deserta me sentia visível e vulnerável,
infinitamente. Lembro-me de ter dito ao motorista que parasse um pouco antes da
entrada principal. Saí do carro com lentidão voluntária e quase penosa; ia à
aldeia de Ashgrove, mas tirei bilhete para uma estação mais longe. O trem saía
daí a pouquíssimos minutos, às oito e cinqüenta. Apressei-me; o seguinte
partiria às nove e meia. Não havia quase ninguém na plataforma. Percorri os
vagões: lembro-me de uns lavradores, uma mulher de luto, um jovem que lia com
fervor os Anais de Tácito, um soldado
ferido e feliz. O trem, finalmente, partiu. Um homem que reconheci correu em
vão até o limite da plataforma. Era o capitão Richard Madden. Aniquilado,
trêmulo, encolhi-me na outra ponta do banco, longe do temido vidro da janela.
“Dessa aniquilação passei a uma
felicidade quase abjeta. Disse para comigo que já estava metido no duelo e que
ganhara o primeiro assalto, ao enganar, nem que fosse por quarenta minutos, nem
que fosse por um favor do acaso, o ataque do meu adversário. Argumentei que
essa vitória mínima anunciava a vitória total. Concluí que não era mínima, dado
que sem essa diferença preciosa que o horário dos comboios me oferecia, eu
estaria na prisão, ou morto. Argumentei (de modo não menos sofístico) que a
minha covarde felicidade provava que eu era homem capaz de levar a aventura a
bom termo. Desta fraqueza tirei forças que não me abandonaram. Prevejo que o
homem se há de resignar dia a dia a tarefas cada vez mais atrozes; em breve não
haverá senão guerreiros e bandidos; dou-lhes este conselho: ‘O executor de uma
empresa atroz tem de imaginar que já a cumpriu, tem de se impor um futuro que
seja irrevogável como o passado’. Assim procedi eu, enquanto os meus olhos de
homem já morto registavam o fluir daquele dia que era talvez o último, e a
noite a espalhar-se. O trem corria com doçura, por entre freixos. Parou, quase
no meio do campo. Ninguém gritou o nome da estação. ‘Ashgrove?’ perguntei a uns
rapazinhos na plataforma. ‘Ashgrove’, responderam. Desci.
“Uma lâmpada iluminava a plataforma,
mas os rostos dos meninos ficavam na zona de sombra. Um me perguntou: ‘O senhor
vai à casa do doutor Stephen Albert?’ Sem esperar por resposta, outro disse: ‘A
casa fica longe daqui, mas o senhor não se perde se for por esse caminho à
esquerda e em cada encruzilhada do caminho virar à esquerda’. Atirei-lhes uma
moeda (a última), desci uns degraus de pedra e entrei no solitário caminho.
Este, lentamente, era a descer. Era de terra elementar, por cima dele
juntavam-se os ramos, e a lua baixa e circular parecia acompanhar-me.
“Por um
instante, pensei que Richard Madden tinha de qualquer modo penetrado no meu
desesperado desígnio. Em breve compreendi que era impossível. O conselho de
virar sempre à esquerda fez-me lembrar que tal era o procedimento comum para
descobrir o pátio central de certos labirintos. Alguma coisa entendo de
labirintos: não é em vão que sou bisneto daquele Tsui Pên que foi governador de
Yunan e que renunciou ao poder temporal para escrever um romance que fosse
ainda mais populoso que o Hung Lu Meng
e para edificar um labirinto em que se perdessem todos os homens. Treze anos
dedicou a estes heterogêneos esforços, mas a mão de um forasteiro assassinou-o
e o seu romance não fazia sentido e ninguém encontrou o labirinto. Foi debaixo
de árvores inglesas que meditei nesse labirinto perdido: imaginei-o inviolado e
perfeito no cume secreto de uma montanha, imaginei-o apagado por arrozais ou
debaixo da água, imaginei-o infinito, não já de quiosques oitavados e de
caminhos em voltas, mas de rios e províncias e reinos... Pensei num labirinto
de labirintos, num sinuoso labirinto crescente que abrangesse o passado e o
porvir e que envolvesse de algum modo os astros. Absorto nestas ilusórias
imagens, esqueci do meu destino de perseguido. Senti-me, por um tempo
indeterminado, conhecedor abstrato do mundo. O vago e vivo campo, a Lua, os
restos da tarde, agiram sobre mim; igualmente o declive que eliminava qualquer
possibilidade de cansaço. A tarde estava íntima, infinita. O caminho descia e
bifurcava-se, por entre os prados já confusos. Uma música aguda e como que
silábica aproximava-se e afastava-se no vaivém do vento, enfraquecida pelas
folhas e pela distância. Pensei que um homem pode ser inimigo de outros homens,
de outros momentos de outros homens, mas não de um país: não de vaga-lumes,
palavras, jardins, cursos de água, poentes. Cheguei assim a um alto portão
enferrujado. Por entre as grades decifrei uma alameda e uma espécie de
pavilhão. Compreendi logo duas coisas, a primeira trivial, a segunda quase
incrível: a música vinha do pavilhão, e a música era chinesa. Por isso, eu
aceitara-a plenamente, sem lhe prestar atenção. Não me lembro se havia uma
sineta ou uma campainha ou se chamei batendo palmas. A contínua crepitação da
música prosseguiu.
“Mas
do fundo da íntima casa uma lanterna aproximava-se: uma lanterna que os troncos
riscavam e às vezes anulavam, uma lanterna de papel, que tinha a forma dos
tambores e a cor da Lua. Trazia-a um homem alto. Não lhe vi o rosto, porque a
luz me cegava. Abriu o portão e disse lentamente em meu idioma:
“- Vejo que o piedoso Hsi Pêng se empenha em atenuar a
minha solidão. Sem dúvida o senhor desejará ver o jardim?
“Reconheci o nome de um dos nossos cônsules e repeti desconcertado:
“- O jardim?
“- O jardim dos caminhos que se bifurcam.
“Algo
se agitou na minha memória e pronunciei com incompreensível segurança:
“- O jardim do meu antepassado Tsui Pên.
“- Seu antepassado? Seu ilustre antepassado? Entre.
“O
úmido caminho ziguezagueava como os da minha infância. Chegamos a uma biblioteca
de livros orientais e ocidentais. Reconheci, encadernados em seda amarela,
alguns tomos manuscritos da Enciclopédia Perdida que dirigiu o Terceiro
Imperador da Dinastia Luminosa e que nunca foi dada ao prelo. O disco do
gramofone rodava junto de uma fênix de bronze. Lembro-me também de um vaso famille rose e de outro, anterior de
muitos séculos, dessa cor azul que os nossos artífices copiaram dos oleiros da
Pérsia...
“Stephen Albert observava-me, sorridente. Era (já o disse) muito alto,
de feições afiladas, de olhos cinzentos e barba grisalha. Havia nele algo de
sacerdote e também de marinheiro; depois contou-me que fora missionário em
Tientsin ‘antes de aspirar a sinólogo’.
“Sentamo-nos; eu num baixo e comprido divã; ele de costas para a janela
e para um alto relógio circular. Calculei que não menos de uma hora demoraria a
chegar o meu perseguidor, Richard Madden. A minha determinação irrevogável
podia esperar.
“- Espantoso destino o de Tsui Pên - disse Stephen Albert. – Governador da sua província
natal, douto em astronomia, em astrologia e na interpretação infatigável dos
livros canônicos, xadrezista, famoso poeta e calígrafo: tudo abandonou para
compor um livro e um labirinto. Renunciou aos prazeres da opressão, da justiça,
do numeroso leito, dos banquetes e até da erudição e enclausurou-se durante
treze anos no Pavilhão da Límpida Solidão. À sua morte, os herdeiros não
encontraram senão manuscritos caóticos. A família, como porventura o senhor não
ignora, quis entregá-los ao fogo; mas o seu testamenteiro - um monge taoísta ou budista - insistiu na publicação.
“- Nós do sangue de Tsui Pên - repliquei - continuamos a execrar esse monge. A publicação foi
insensata. O livro é um acervo indeciso de rascunhos contraditórios. Examinei-o
umas vezes: no terceiro capítulo morre o herói, no quarto está vivo. Quanto à
outra empresa de Tsui Pên, ao seu Labirinto...
“- Aqui está o labirinto – disse, apontando-me uma alta
escrivaninha lacada.
“- Um labirinto de marfim! - exclamei. - Um labirinto mínimo...
“- Um labirinto de símbolos - corrigiu. - Um invisível labirinto de tempo. A mim, bárbaro
inglês, foi dado revelar esse mistério diáfano. Ao fim de mais de cem anos, os
pormenores são irrecuperáveis, mas não é difícil conjeturar o que sucedeu. Tsui
Pên teria dito uma vez: ‘Retiro-me para escrever um livro’. E outra: ‘Retiro-me
para construir um labirinto’. Todos imaginaram duas obras; ninguém pensou que o
livro e o labirinto eram um único objeto. O Pavilhão da Límpida Solidão
erguia-se no centro de um jardim talvez intrincado; o fato pode ter sugerido
aos homens um labirinto físico. Tsui Pên morreu; ninguém, nas amplas terras que
foram suas, deu com o labirinto; a confusão do romance sugeriu-me que era esse
o labirinto. Houve duas circunstâncias que me deram a correta solução do
problema. Uma: a curiosa lenda de que Tsui Pên se propusera um labirinto que
fosse rigorosamente infinito. Outra: um fragmento de uma carta que descobri.
“Albert
levantou-se. Por uns instantes, virou-me as costas; abriu uma gaveta da áurea e
enegrecida escrivaninha. Voltou com um papel que fora carmesim; agora um
quadriculado rosado e tênue. Era justa a fama caligráfica de Tsui Pên. Li com
incompreensão e fervor estas palavras que com minucioso pincel redigira um
homem do meu sangue: ‘Deixo aos vários porvires (não a todos) o meu jardim dos
caminhos que se bifurcam’.
“Devolvi a folha em silêncio. Albert
prosseguiu:
“- Antes de exumar esta carta, eu perguntara-me de que
maneira pode um livro ser infinito. Não conjeturei outro procedimento senão o
de um volume cíclico, circular. Um volume cuja última página fosse idêntica à
primeira, com a possibilidade de continuar indefinidamente. Lembrei-me também
da noite que está no centro das Mil e uma
Noites, quando a rainha Xerezade (por uma mágica distração do copista) se
põe a relatar textualmente a história das Mil
e uma Noites, com o risco de chegar outra vez à noite na qual está fazendo
o relato, e assim por diante até o infinito. Imaginei também uma obra
platônica, hereditária, transmitida de pai para filho, em que cada novo
indivíduo acrescentasse um capítulo ou corrigisse com piedoso cuidado a página
dos antepassados. Estas conjeturas distraíram-me; mas nenhuma parecia
corresponder, nem sequer de um modo longínquo, aos contraditórios capítulos de
Tsui Pên. No meio desta perplexidade, enviaram-me de Oxford o manuscrito que o
senhor acabou de examinar. Detive-me, como é natural, na frase: ‘Deixo aos vários
porvires (não a todos) o meu jardim dos caminhos que se bifurcam’. Quase de
imediato compreendi; o jardim dos
caminhos que se bifurcam era o romance caótico; a frase vários porvires (não a todos) sugeriu-me
a imagem da bifurcação no tempo, e não no espaço. A releitura geral da obra
confirmou esta teoria. Em todas as ficções, sempre que um homem se defronta com
diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase
inextricável Tsui Pên, opta - simultaneamente - por todas. Cria, assim, diversos porvires, diversos tempos, que também
proliferam e se bifurcam. Daí as contradições do romance. Fang, digamos, tem um
segredo, um desconhecido bate à sua porta, Fang resolve matá-lo. Naturalmente,
há vários desenlaces possíveis. Fang pode matar o intruso, o intruso pode matar
Fang, ambos podem salvar-se, ambos podem morrer, etc. Na obra de Tsui Pên,
acontecem todos os desenlaces; cada um é o ponto de partida de outras
bifurcações. Às vezes os caminhos desse labirinto convergem: por exemplo, o
senhor chega a esta casa, mas num dos passados possíveis o senhor é meu
inimigo, noutro meu amigo. Se o senhor se resignar à minha pronúncia incurável,
leremos umas páginas.
“Seu
rosto, no vívido círculo da lâmpada, era sem dúvida o de um ancião, mas com
algo de inabalável e até de imortal. Leu com lenta precisão duas redações de um
mesmo capítulo épico. Na primeira, um exército marcha para uma batalha através
de uma montanha deserta; o horror das pedras e da sombra fá-lo desprezar a vida
e consegue com facilidade a vitória; na segunda, o mesmo exército atravessa um
palácio em que há uma festa; a resplandecente batalha parece-lhes uma
continuação da festa e conseguem a vitória. Eu ouvia com digna veneração estas
velhas ficções, talvez menos admiráveis que o fato de as ter ideado o meu
sangue e de um homem de um império longínquo mas restituir, no decorrer de uma
desesperada aventura, numa ilha ocidental. Lembro-me das palavras finais,
repetidas em cada redação como um mandamento secreto: ‘Assim combateram os
heróis, tranqüilo o admirável coração, violenta a espada, resignados a matar e
a morrer’.
“A
partir desse instante, senti à minha volta e no meu obscuro corpo uma invisível
e intangível palpitação. Não a palpitação dos divergentes, paralelos e
finalmente coalescentes exércitos, mas uma agitação mais inacessível, mais
íntima e que eles de certo modo prefiguravam. Stephen Albert prosseguiu:
“- Não creio que o seu ilustre antepassado jogasse
ociosamente com as variações. Não acho verosímil que tenha sacrificado treze
anos à infinita execução de uma experiência retórica. No seu país, o romance é
um gênero subalterno; naquele tempo era um gênero desprezível. Tsui Pên foi um
romancista genial, mas também foi um homem de letras que sem dúvida não se
considerou apenas um simples romancista. O testemunho dos seus contemporâneos
proclama - e fartamente o confirma
sua vida – suas inclinações metafísicas e místicas. A controvérsia filosófica
usurpa boa parte do seu romance. Sei que de todos os problemas, nenhum outro o
inquietou e o ocupou tanto como o abismal problema do tempo. Ora bem, é esse o
único problema que não figura nas páginas do Jardim. Nem sequer usa a palavra que significa tempo. Como explica o senhor essa voluntária omissão?
“Propus várias soluções; todas
insuficientes. Discutimo-las; por fim, Stephen Albert disse-me:
“- Numa charada cujo tema é o xadrez, qual é a única
palavra proibida?
“Refleti um momento e respondi:
“- A palavra xadrez.
“- Precisamente - disse Albert. - O jardim dos
caminhos que se bifurcam é uma enorme charada, ou parábola, cujo tema é o
tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção do seu nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas
ineptas e a perífrases evidentes, é talvez o modo mais enfático de indicá-la. É
o modo tortuoso que preferiu, em cada um dos meandros do seu infatigável
romance, o oblíquo Tsui Pên. Comparei centenas de manuscritos, corrigi os erros
que a negligência dos copistas introduziu, conjeturei o plano desse caos,
restabeleci, julguei restabelecer a ordem primordial, traduzi a obra inteira:
resulta-me que não emprega uma única vez a palavra tempo. A explicação é óbvia: O
jardim dos caminhos que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa,
do universo tal como o concebia Tsui Pên. Ao contrário de Newton e de
Schopenhauer, o seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto.
Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de
tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se
aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Nós não
existimos na maior parte desses tempos; nalguns deles existe o senhor e eu não;
noutros, eu, e não o senhor; noutros ainda, existimos os dois. Neste, que um
favorável acaso me proporciona, o senhor chegou à minha casa; noutro, o senhor,
ao atravessar o jardim, deu comigo morto; e noutro, eu digo estas mesmas
palavras, mas sou um erro, um fantasma.
“- Em todos - articulei não sem um certo tremor - agradeço e venero a sua recriação do jardim de Tsui
Pên.
“- Não em todos - murmurou com um sorriso. - O tempo bifurca-se perpetuamente na direção de
inumeráveis futuros. Num deles sou seu inimigo.
“Voltei a sentir aquela palpitação de que falei. Pareceu-me que o úmido
jardim que rodeava a casa estava saturado até ao infinito de pessoas
invisíveis. Essas pessoas eram Albert e eu, secretos, ocupadíssimos e
multiformes noutras dimensões do tempo. Levantei os olhos e o tênue pesadelo
dissipou-se. No amarelo e negro jardim havia um único homem; mas esse homem era
forte como uma estátua, mas esse homem avançava pelo caminho e era o capitão
Richard Madden.
“- O futuro já existe - respondi -, mas eu sou seu amigo. Posso examinar outra vez a
carta?
“Albert levantou-se. Alto, abriu a gaveta da alta escrivaninha; virou-me
por um momento as costas. Eu já tinha preparado o revólver. Disparei com
extremo cuidado: Albert tombou, sem um ai, imediatamente. Juro que sua morte
foi instantânea: uma fulminação.
“O
resto é irreal, insignificante. Nesse momento irrompeu Madden e prendeu-me. Fui
condenado à forca. Abominavelmente venci: comuniquei a Berlim o secreto nome da
cidade que devem atacar. Ontem bombardearam-na; li isso nos mesmos jornais que
apresentaram à Inglaterra o enigma de o sábio sinólogo Stephen Albert ter
morrido assassinado por um desconhecido, Yu Tsun. O Chefe decifrou esse enigma.
Sabe que o meu problema era indicar (através do estrépito da guerra) a cidade
que se chama Albert e que não achei outro meio senão matar uma pessoa com esse
nome. Não sabe (ninguém pode saber) a minha imensa contrição e cansaço.
Jorge Luis Borges, in Ficções (1941).
____________________________
(1) Hipótese odiosa e ridícula. O espião prussiano Hans
Rabener, codinome Viktor Runeberg, agrediu com uma pistola automática o
portador da ordem de prisão, capitão Richard Madden. Este, em legítima defesa,
causou-lhe ferimentos que vieram a determinar sua morte. (Nota do editor).
Mais Jorge Luis Borges:
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