sábado, 23 de maio de 2009

Cristo na cruz - Jorge Luis Borges


Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
As três vigas são de igual altura.
Cristo não está no meio. É o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das lâminas.
E áspero e judeu. Não o vejo
e o seguirei buscando até o dia
último de meus passos pela terra.
O homem violado sofre e cala.
A coroa de espinhos o lastima.
Não o alcança o escárnio da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espera,
pensa em uma mulher que não foi sua.
Não lhe é dado ver a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
a púrpura, a mitra, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a Inquisição, o sangue dos mártires,
as atrozes Cruzadas, Joana D’Arc,
o Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é um deus e que é um homem
que morre com o dia. Não lhe importa.
Lhe importa o duro ferro dos cravos.
Não é um romano. Não é um grego. Geme.
Nos deixou esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Essa sentença
foi escrita por um irlandês em um cárcere.)
A alma busca o fim, com urgência.
Escureceu um pouco. Já morreu.
Anda uma mosca pela carne quieta.
Que pode me servir que aquele homem
tenha sofrido, se eu sofro agora?

                         Kyoto, 1984

Jorge Luis Borges in Os conjurados, 1985.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O amor comeu... - João Cabral de Melo Neto


Os Três Mal-Amados
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
*
Falas do personagem Joaquim extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", do livro João Cabral de Melo Neto - Obras Completas, Ed. Nova Aguilar S.A. Rio de Janeiro, 1994, pág. 59-64.

Verdade - Carlos Drummond de Andrade



A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

sábado, 9 de maio de 2009

Amigos - Vinicius de Moraes

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

À espera dos bárbaros - Konstantinos Kaváfis


O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.


Obs.:
Numa pesquisa feita pela Folha de S. Paulo, publicada em 02/01/2000, críticos literários incluem o poema "À Espera dos Bárbaros", do grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933), entre os 100 melhores poemas do século XX.
Nascido em Alexandria, no Egito, Kaváfis é considerado o mais importante poeta grego do século XX.

sábado, 25 de abril de 2009

O incivil mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké - Jorge Luis Borges

O incivil mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké - Jorge Luis Borges

           O infame deste capítulo é o incivil mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké, aziago funcionário que motivou a degradação do senhor da Torre de Ako e não se quis eliminar como um cavaleiro, quando a apropriada vingança o cominou. É homem que merece a gratidão de todos os homens, porque despertou preciosas lealdades e foi a negra e necessária ocasião de uma tarefa imortal. Uma centena de romances, de monografias, de teses doutorais e de óperas comemoram o fato - para não falar nas efusões em porcelana, lápis-lazúli venulado, e em laca. Até o versátil celulóide serve-o, uma vez que a História Doutrinal dos Quarenta e Sete Capitães - tal é o seu nome - é a mais repetida inspiração do cinema japonês. A minuciosa glória que essas ardentes atenções afirmam é algo mais que justificável: é imediatamente justa para quem quer que seja.
            Sigo o relato de A. B. Mitford, que omite as contínuas distrações que opera a cor local e prefere atender ao movimento do glorioso episódio. Essa boa ausência de “orientalismo” dá margem a se suspeitar de que se trata de uma versão direta do japonês.

O CORDÃO DESATADO

            Na desvanecida primavera de 1702, o ilustre senhor da Torre de Ako teve de receber e hospedar um enviado imperial. Dois mil e trezentos anos de cortesia (alguns mitológicos) haviam complicado angustiosamente o cerimonial da recepção. O enviado representava o imperador, mas à maneira de alusão ou de símbolo: matiz que não era menos improcedente sublinhar do que atenuar. Para impedir os equívocos muito facilmente fatais, um funcionário da corte de Yedo precedia-o, na qualidade de mestre-de-cerimônias. Longe da comodidade cortesã e condenado a uma villégiature montanhesa que lhe deve ter parecido um desterro, Kira Kotsuké no Suké dava sem jeito as instruções. Às vezes, dilatava até à insolência o tom magistral. Seu discípulo, o senhor da Torre, procurava dissimular esse escárnio. Não sabia replicar, a disciplina vedava-lhe toda a violência. Uma manhã, contudo, o cordão do sapato do mestre desatou-se e este lhe pediu que o reatasse. O cavaleiro fê-lo com humildade, porém com indignação interior. O incivil mestre-de-cerimônias disse-lhe que na realidade era incorrigível, e que somente um campônio seria capaz de amarrar um nó tão torpe. O senhor da Torre puxou da espada e deu-lhe um golpe. O outro fugiu, apenas rubricada a fronte por um fio tênue de sangue... Dias depois, o tribunal militar proferia sentença contra o agressor e o condenava ao suicídio. No pátio central da Torre de Ako, elevaram um estrado de feltro vermelho e nele se mostrou o condenado e lhe entregaram um punhal de ouro e pedras, e ele confessou publicamente sua culpa e se foi despindo até a cintura e abriu o ventre com as duas feridas rituais, e morreu como um samurai, e os espectadores mais afastados não viram sangue porque o feltro era vermelho. Um homem encanecido e cuidadoso decapitou-o com a espada: o conselheiro Kuranosuké, seu padrinho.

O SIMULADOR DA INFÂMIA

            A Torre de Takumi no Kami foi confiscada; seus capitães, debandados; sua família, arruinada e obscurecida; seu nome, vinculado à execração. Um rumor quer que, na mesma noite em que ele se matou, quarenta e sete de seus capitães deliberaram no cume de um monte e planejaram, com toda a precisão, o que se produziu um ano mais tarde. O certo é que devem ter procedido de justificadas demoras e que algum de seus concílios teve lugar, não no cume difícil de uma montanha, mas numa capela em um bosque, medíocre pavilhão de madeira branca, sem outro adorno que a caixa retangular que contém um espelho. Apetecia-lhes a vingança, e a vingança lhes deve ter parecido inalcançável.
            Kira Kotsuké no Suké, o odiado mestre-de-cerimônias, havia fortificado sua casa, e uma nuvem de arqueiros e esgrimistas custodiava seu palanquim. Contava com espias incorruptíveis, pontuais e secretos. Mais do que ninguém, zelavam e vigiavam o presumido capitão dos vingadores: Kuranosuké, o conselheiro. Este percebeu-o por acaso e fundou seu projeto vindicativo sobre esse fato.
            Mudou-se para Kioto, cidade insuperável em todo o império pela cor de seus outonos. Deixou-se arrebatar pelos lupanares, pelas casas de jogo e pelas tabernas. Apesar de suas cãs, conviveu com rameiras e com poetas, e gente ainda pior. Uma vez expulsaram-no da taberna e amanheceu adormecido no umbral, a cabeça tombada sobre um vômito.
            Um homem de Satsuma reconheceu-o e disse, com tristeza e com ira: “Não é este, porventura, aquele conselheiro de Asano Takumi no Kami, que o ajudou a morrer e que, em vez de vingar seu senhor, entrega-se aos deleites e à vergonha? Oh, tu, indigno do nome de Samurai!” Pisou-lhe o rosto adormecido e cuspiu nele. Quando os espiões denunciaram essa passividade, Kotsuké no Suké sentiu um grande alívio.
            Os fatos não pararam aí. O conselheiro despediu a esposa e o mais jovem de seus filhos, e comprou uma mulher num lupanar, famosa infâmia que lhe alegrou o coração e relaxou a temerosa prudência do inimigo. Este acabou por dispensar a metade de seus guardas.
            Numa das noites atrozes do inverno de 1703, os quarenta e sete capitães marcaram encontro num desmantelado jardim dos arredores de Yedo, perto da ponte e da fábrica de baralhos. Iam com as bandeiras de seu senhor. Antes de empreenderem o assalto, advertiram os vizinhos de que não se tratava de violação às leis, mas de operação militar de estrita justiça.

A CICATRIZ

            Dois bandos atacaram o palácio de Kira Kotsuké no Suké. O conselheiro comandou o primeiro, que atacou a porta da frente; o segundo, seu filho mais velho, que completaria dezesseis anos nessa noite. A história sabe os diversos momentos desse pesadelo tão lúcido: a descida arriscada e pendular pelas escadas de corda, o tambor do ataque, a precipitação dos defensores, os arqueiros postados na açotéia, o direto destino das flechas aos órgãos vitais do homem, as porcelanas infamadas de sangue, a morte ardente, que depois é glacial; os impudores e desordens da morte. Nove capitães morreram; os defensores não eram menos valentes e não se quiseram render. Pouco depois da meia-noite, toda a resistência cessou.
            Kira Kotsuké no Suké, razão ignominiosa dessas lealdades, não aparecia. Procuraram-no por todos os cantos desse inquieto palácio, e já desesperavam de o encontrar quando o conselheiro notou que os lençóis de seu leito estavam ainda mornos. Voltaram a procurar e descobriram uma estreita janela dissimulada por um espelho de bronze. Em baixo, de um pequeno pátio sombrio, olhava-os um homem de branco. Uma tênue espada estava em sua mão direita. Quando desceram, o homem entregou-se sem luta. Raiava-lhe a fronte uma cicatriz: velho desenho do aço de Takumi no Kami.
            Então os sangrentos capitães arrojaram-se aos pés do odioso e lhe disseram que eram os oficiais do senhor da Torre, de cuja perdição e de cujo fim ele era culpado, e lhe rogaram que se suicidasse, como o deve fazer um samurai.
            Em vão propuseram esse decoro ao seu ânimo servil. Era homem inacessível à honra; de madrugada tiveram de degolá-lo.

O TESTEMUNHO

            Já satisfeita sua vingança (mas sem ira, e sem agitação, e sem lástima), os capitães dirigiram-se ao templo que guarda as relíquias de seu senhor.
            Em uma caldeira levam a incrível cabeça de Kira Kotsuké no Suké e se revezam para cuidar dela. Atravessam os campos e as províncias, à luz franca do dia. Os homens os bendizem e choram. O príncipe de Sendai quer hospedá-los, mas respondem que há quase dois anos os aguarda seu senhor. Chegam ao escuro sepulcro e oferecem a cabeça do inimigo.
            A Suprema Corte emite a sentença. É o que esperam: lhes é outorgado o privilégio do suicídio. Todos o cumprem, alguns com ardente serenidade, e repousam ao lado do seu senhor. Homens e crianças vêm rezar no sepulcro desses homens tão fiéis.

O HOMEM DE SATSUMA

            Entre os peregrinos que acodem, há um rapaz empoeirado e exausto que deve ter vindo de longe. Prosterna-se diante do monumento de Oishi Kuranosuké, o conselheiro, e diz em voz alta: “Eu te vi jogado à porta de um lupanar de Kioto e não pensei que estavas premeditando a vingança de teu senhor, e te julguei um soldado sem fé e cuspi em teu rosto. Vim te dar uma satisfação”. Disse isso e praticou haraquiri.
            O prior condoeu-se de sua valentia e lhe deu sepultura no lugar em que os capitães repousam.
            Este é o final da história dos quarenta e sete homens leais - salvo que não tem fim, porque os outros homens que não somos leais talvez, mas nunca perderemos de todo a esperança de sê-lo, continuaremos a honrá-los com palavras.

Jorge Luis Borges, “História Universal da Infâmia” (1935).

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Um teólogo na morte - Jorge Luis Borges

              Os anjos comunicaram-me que, quando Melanchton [*] morreu, foi-lhe fornecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que havia ocupado na terra. (A quase todos recém-vindos à Eternidade sucede o mesmo e por isso acreditam não terem morrido.) Os objetos domésticos eram iguais; a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nesse domicílio, retornou a suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver, e escreveu durante alguns dias sobre a justificação pela fé. Como era seu costume, não disse palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram algumas pessoas interrogarem-no. Melanchton declarou: “Já demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que para ingressar no céu basta ter fé”. Essas coisas dizia-lhes com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram esse discurso, abandonaram-no.
              Poucas semanas depois, os móveis começaram a afantasmar-se até se tornarem invisíveis, salvo a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disso, as paredes do aposento mancharam-se de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Contudo, ele continuava escrevendo, mas, como persistia na negação da caridade, transladaram-no para uma oficina subterrânea onde havia outros teólogos como ele. Aí esteve alguns dias encarcerado e começou a duvidar de sua tese; permitiram-lhe voltar. Sua roupa era de couro sem curtir, mas tentou imaginar que os fatos anteriores haviam sido mera alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Num entardecer sentiu frio. Então percorreu a casa e percebeu que os demais aposentos já não correspondiam aos de sua moradia na terra. Um estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro tinha diminuído tanto que era impossível entrar nele; outro não tinha mudado, mas as janelas e portas davam para grandes dunas. O cômodo dos fundos estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio quanto ele. Essa adoração agradou-lhe, mas como algumas dessas pessoas não tinham rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Então determinou-se escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam apagadas amanhã. Isso acontecia porque as compunha sem convicção.
              Recebia muitas visitas de gente recém-morta, porém tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para fazê-las crer que estava no céu, combinou com um bruxo do cômodo dos fundos, e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Apenas as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, e às vezes um pouco antes.
              As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto levaram-no até as dunas e que agora é como se fosse um criado dos demônios.
             (Do livro Arcana Coelestia, de Emmanuel Swedenborg)

Jorge Luis Borges, in História Universal da Infâmia (1935).

[*] Philipp Schwarzerd, o Melanchton (1497-1560): Teólogo e educador alemão nascido em Bretten, principal colaborador de Martinho Lutero e seu herdeiro na liderança do luteranismo (1546).


terça-feira, 31 de março de 2009

Ode ao gato - Pablo Neruda

Os animais eram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade 
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
seus olhos têm números de ouro.
                             

ODA AL GATO

Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.

El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde bigote a cola,
desde presentimiento a rata viva,
desde la noche hasta sus ojos de oro.

No hay unidad
como él,
no tienen
la luna ni la flor
tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea en su contorno
firme y sutil es como
la línea de la proa de una nave.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño
emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento del amor
en la intemperie
reclamas
cuando pasas
y posas
cuatro pies delicados
en el suelo,
oliendo,
desconfiando
de todo lo terrestre,
porque todo
es inmundo
para el inmaculado pie del gato.

Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnástico
y ajeno,
profundísimo gato,
policía secreta
de las habitaciones,
insignia
de un
desaparecido terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te sabe y perteneces
al habitante menos misterioso,
tal vez todos lo creen,
todos se creen dueños,
propietarios, tíos
de gatos, compañeros,
colegas,
discípulos o amigos
de su gato.

Yo no.
Yo no suscribo.
Yo no conozco al gato.
Todo lo sé, la vida y su archipiélago,
el mar y la ciudad incalculable,
la botánica,
el gineceo con sus extravíos,
el por y el menos de la matemática,
los embudos volcánicos del mundo,
la cáscara irreal del cocodrilo,
la bondad ignorada del bombero,
el atavismo azul del sacerdote,
pero no puedo descifrar un gato.
Mi razón resbaló en su indiferencia,
sus ojos tienen números de oro.

NERUDA, Pablo (Chile, 1904 - 1973), in Navegaciones y regresos (1959).

quarta-feira, 11 de março de 2009

Dos veios escatológicos - Manoel de Barros



Na Vila não se praticavam latrinas. Donas desabavam em urinóis. E os homens no mato. Os porcos seguiam os homens pelos trilheiros que davam no mato. As lides de cagar facilitavam encontros de amor. A ponto de um viajante verter no caderno de notas: “Aqui as pessoas se filham no mato com vera competência, qual os porcos nas vielas, de forma que se pare espraiado e nascem crianças papudas e idiotas de igrejas como cupim. Lugar onde se fode e se caga no mato há de ser este!!!” (Desse jeito – !!! – com três pontos de admiração.) Na hora do homem fazer força, quando a vaidade se acaba, justo aí chegavam os porcos famintos e, lhes entrando nos homens por debaixo, saíam com eles nas costas, quando lhes não prostravam na própria obra. De forma que sujos de suas obras, como se lê no Eclesiastes. Montados ainda no porco, alguns homens entravam na Vila, na maior sengraceira, com cara de cachorro que peidou na igreja.

A fim de evitar tais vexames, depois de muito craniar, engenhoso cidadão e exemplar paroquiano inventou o Pau-Pra-Porco. Instrumento esse de madeira medindo uma bengala de lorde, chanfrada a facão, com que os homens na hora de descomer bordoavam os porcos que lhes tentassem derrubar na própria plastra. O engenhoso paroquiano abastou-se em déreis, e se tornou o rei do Pau-Pra-Porco. Com venda do mesmo nome no beco principal. Desse tempo pra cá ninguém mais apareceu na Vila montado no porco.

Na beira do Tanque da Praça da Matriz, o poeta Neco Caolho versava pras moças vergonhosas – “No dia em que me achei cagando ao vento...” bocagemente, ao de cócoras. Dava um prazer fróidico no sacristão em desmoçar as beatas dentro do Tanque, entre rãs prenhas. A égua velhaca da Praça só entregava pra ele. Era de ver a mansura da égua com o sacristão. Toda essa universal cristandade se transmitia pelo sangue.

Em 1926, o antropólogo Claude Lévy-Strauss, de viagem por ali, notou a pobreza dos móveis que encontrou no interior das residências. Dois ou três mochos na sala, arames de estender roupas nos quartos servindo de armário – e redes. Redes armadas por todos os cantos. Redes muitas de varandas artísticas, servindo de vasilhas de dormir e de sestear. No hábito de sestear no mormaço do meio-dia se amulheravam e se afilhavam também. A blandícia do mormaço engendrava crianças. Se usavam demais os dedos nos barrotes a fim de impulsionar as redes. Davam-se cópulas balançadas e refrescantes. Assim, os barrotes dos quartos sempre estavam furados. E por eles podiam-se ver as primas nos urinóis. Coisa imanente e afrodisíaca, que muito deve ter influído nas tendências voyeurísticas daquele povo. Bem como o hábito do guaraná que é bebida afrodisíaca, porém no seu ralar e não na substância da bebida. Eis que no ralar a mulher meneia os quadris. E o desejo dos homens provém do mover os quadris. Coisa que eu não descreio.

Pois foi esse o povo ladino, sensual e andejo que um dia atravessando o rio Taquari encheu de filhos e de gado o que se chama hoje, no Pantanal, a zona da Nhecolândia.

Extraído de:
BARROS, Manoel de. Livro de pré-coisas. Ed. Record, Rio de Janeiro, 2003.

*
Postei esse texto pra compensar a sisudez de alguns dos demais! A disposição para o humor é um dom especial. E lembrei da expressão “sentar no trono” que, dizem, vem do costume que havia na igreja quando da eleição de um novo papa. Segundo consta, o eleito, cheio de pompas e glórias, sentava-se em uma cadeira com um buraco no centro, à imitação de um vaso sanitário, pra que o dito cujo não se esquecesse que continuava sendo uma criatura humana, como nós outros! Parece que o memorável gesto foi abolido por João XXIII. Que pena.

domingo, 8 de março de 2009

Ouse - Lou Andreas-Salomé

"Ouse, ouse... ouse tudo! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!"

Lou Andreas-Salomé (1861-1937) foi uma bela mulher que escandalizou a sociedade e quebrou regras morais. Teve vários amantes. Conheceu Freud, Jung, Nietzsche, entre outros grandes homens. Engajada e sensível, tinha fama de sedutora.

domingo, 1 de março de 2009

Oh eu! Oh vida! - Walt Whitman

Oh eu! Oh vida! das perguntas que sobre isso se voltam,
Das infindáveis gerações de infiéis, das cidades cheias de tolos,
Eu mesmo eternamente envergonhado de mim mesmo, (pois quem mais tolo do que eu e mais infiel?)
De olhos que inutilmente desejam a luz, de objetos
insignificantes, da luta sempre renovada,
Dos pobres resultados de tudo, da multidão laboriosa e sórdida que sinto à minha volta,
Anos vazios e invisíveis para os que restam, com o que resta de mim entrelaçados,
A pergunta, oh eu! tão triste, ainda insiste - O que vale a pena por tudo isso,
Oh, eu, oh, vida?

Resposta

Que você está aqui - que a vida e a identidade existem,
Que o poderoso jogo continua, e você pode contribuir com um verso.

Walt Whitman, EUA, 1819-1892

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Um supermercado na Califórnia - Allen Ginsberg

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.

No meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de neon sonhando com tuas enumerações!

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! — e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?

Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.

Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.

Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados e nunca passando pelo caixa.

Aonde vamos, Walt Whitman? As portas fecharão em uma hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite?

(Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo.)

Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.

Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?

Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a tua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
*
Extraído de GINSBERG, A. Uivo - Kaddish e outros poemas. L&PM, Porto Alegre, 1984.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Um caso doloroso [Um caso trágico] / A Painful Case- James Joyce

James Joyce

          O senhor James Duffy residia em Chapelizod porque queria viver o mais longe possível da cidade e porque achava os outros subúrbios de Dublin medíocres, modernos demais e pretensiosos. Morava numa casa antiga e sombria, de cuja janela avistava o alambique desativado e, mais adiante, o rio de pouca profundidade em cujas margens foi construída Dublin. Não havia quadros nas paredes altas de seu quarto sem forração de carpete. Ele próprio havia comprado cada peça do mobiliário: uma cabeceira de cama de ferro pintada de preto, um lavatório de ferro, quatro cadeiras de cana-da-índia, um cabideiro, um balde de metal para guardar carvão, um aparador e atiçadores para a lareira e uma escrivaninha quadrada, de tampo duplo. Uma estante com prateleiras de madeira branca tinha sido improvisada numa reentrância da parede. O leito estava arrumado com lençóis brancos e uma pequena colcha negra e vermelha cobria o pé da cama. Sobre o lavatório havia um pequeno espelho e durante o dia uma lamparina de copa branca era o único enfeite que se via no console sobre a lareira. Os livros na estante de madeira branca estavam organizados de baixo para cima, de acordo com o tamanho. Um volume com as obras completas de Wordsworth ficava no canto da prateleira mais baixa e um exemplar do Maynooth Catechism, dentro da capa de pano de um livro de anotações, ficava no canto oposto da prateleira mais alta. A escrivaninha estava sempre guarnecida de apetrechos para escrever. Dentro da escrivaninha era guardado o manuscrito de uma tradução de Michael Kramer, de Hauptmann, com as marcações de cena escritas em tinta vermelha, bem como um pequeno maço de papéis presos por um pregador de bronze. Nessas folhas, de vez em quando, era registrada uma frase e, num momento de humor, a chamada de um anúncio de pílulas para o fígado tinha sido colada na parte superior da primeira página. Quando se erguia o tampo da escrivaninha, um aroma suave exalava: aroma de lápis de cedro ou de goma arábica ou de alguma maçã um pouco passada ali esquecida.

          O senhor Duffy detestava qualquer coisa que indicasse desordem física ou mental. Um médico medieval o classificaria como saturnino. Seu rosto, que encerrava a história completa de seus anos, era marrom como as ruas de Dublin. Em sua cabeça comprida e avantajada cresciam cabelos negros ressecados; um bigode castanho não chegava a lhe encobrir os lábios pouco sorridentes. As maçãs do rosto acentuavam seu aspecto severo; mas não havia severidade nos olhos, que, contemplando o mundo por baixo das sobrancelhas castanhas, davam a impressão de ser ele um homem sempre pronto a descobrir nos outros qualidades redentoras, ainda que freqüentemente se decepcionasse. Vivia a pequena distância de seu corpo, observando os próprios atos com olhares furtivos e duvidosos. Tinha um estranho hábito autobiográfico que o fazia, de vez em quando, redigir mentalmente uma curta sentença sobre si mesmo contendo o sujeito na terceira pessoa e o predicado no passado. Jamais dava esmola a pedintes e caminhava com passo firme, tendo sempre à mão uma bengala de madeira de lei.

          Há muitos anos era caixa de um banco particular em Baggot Street. Toda manhã ia de bonde até a cidade. Ao meio-dia fazia uma refeição no Dan Burke’s: uma garrafa de cerveja e meia porção de biscoitos de araruta. Às quatro da tarde terminava o expediente. Jantava num pequeno restaurante em George’s Street, onde sentia-se a salvo da juventude dourada de Dublin e no qual o cardápio era simples e autêntico. À noite costumava sentar-se ao piano da senhoria ou caminhava pelos arredores da cidade. O gosto pela música de Mozart às vezes o levava à ópera ou a um concerto: as únicas extravagâncias a que se permitia.

          Não tinha amigos nem conhecidos, nem igreja, nem credo. Vivia espiritualmente sem qualquer comunhão com terceiros; visitava os parentes por ocasião do Natal e acompanhava-os ao cemitério quando morriam. Incumbia-se dessas duas obrigações sociais por uma questão de dignidade mas não fazia nenhuma outra concessão às convenções que regem a vida em sociedade. Chegava às vezes a pensar que, em determinadas circunstâncias, roubaria o banco onde trabalhava, mas, como tais circunstâncias nunca se apresentavam, sua vida seguia sem tribulações: uma história sem aventuras.

          Certa noite encontrou-se sentado ao lado de duas mulheres numa sala de concertos. A sala, silenciosa e quase vazia, era um triste prenúncio de fracasso. A senhora que estava a seu lado percorreu com o olhar uma ou duas vezes a sala deserta e disse:

          - Que pena a casa estar tão vazia esta noite! É tão desagradável cantar para cadeiras vazias!

          Ele interpretou a observação como um convite à conversa. Surpreendia-o o fato de ela estar tão à vontade. Enquanto conversavam ele se esforçou no sentido de gravar na memória o rosto da mulher. Quando foi informado de que a jovem sentada ao lado dela era sua filha, pensou que a mulher devia ser cerca de uma ano mais nova do que ele. Seu rosto, que deve ter sido belo, conservava uma expressão inteligente. Era oval, com traços bem marcados. Os olhos eram resolutos, e de um azul-escuro. A princípio fixavam a pessoa com um ar desafiador, mas titubeavam com um movimento que parecia um desmaio da pupila caindo dentro da íris, indicando, momentaneamente, um temperamento de grande sensibilidade. A pupila, entretanto, logo recompunha-se e o temperamento recém-revelado voltava a ser controlado pela prudência; a jaqueta de astracã, porém, modelando um busto um tanto volumoso, voltava a acentuar o tom de desafio.

          O senhor Duffy reencontrou a mulher algumas semanas depois num concerto em Earlsfort Terrace e aproveitou os momentos em que a filha não estava prestando atenção para adquirir um pouco de intimidade. Referiu-se uma ou duas vezes ao marido mas com um tom de voz que não denotava uma advertência. Ela se chamava senhora Sinico. O bisavô do marido nascera em Leghorn. O marido era capitão da marinha mercante e fazia a linha entre Dublin e a Holanda; tinham apenas uma filha.

          Ao deparar com ela pela terceira vez, tomou coragem e marcou um encontro. Ela compareceu. Foi o primeiro de uma série; viam-se sempre à noite e buscavam os locais mais sossegados para suas caminhadas. O senhor Duffy, entretanto, não era dado a procedimentos escusos e, constatando que eram obrigados a se encontrar às escondidas, forçou-a a convidá-lo a freqüentar sua casa. O Capitão Sinico até gostava das visitas dele, pois pensava que a mão da filha estava em jogo. Dispensara a esposa de sua galeria de prazeres com tamanha franqueza que sequer lhe passava pela cabeça que alguém pudesse por ela se interessar. Com o senhor Sinico sempre viajando e a filha fora de casa dando aulas de música, o senhor Duffy tinha muitas oportunidades para desfrutar da companhia da mulher. Nenhum dos dois tivera anteriormente uma aventura daquelas e não viam em seu relacionamento nada de mal. Aos poucos suas mentes se entrelaçaram. Ele lhe emprestava livros, expunha-lhe suas idéias, abria-lhe o intelecto. Ela era toda ouvidos.

          Às vezes, em troca das teorias por ele expostas, ela revelava algum fato de sua vida particular. Com uma atenção quase maternal exortava-o a abrir-se; tornou-se na verdade sua confessora. Ele lhe contou que durante algum tempo freqüentara reuniões do Partido Socialista Irlandês, nas quais tinha se sentido uma figura estranha em meio a um grupo de operários circunspectos, reunidos num sótão mal-iluminado por uma lamparina a óleo. Quando o partido dividiu-se em três facções, cada qual com seu próprio líder e seu próprio sótão, ele deixou de comparecer às reuniões. Os debates dos trabalhadores, segundo ele, eram por demais medíocres; o interesse que apresentavam na questão dos salários era exagerado. A seu ver, eram realistas extremados que careciam de um rigor de pensamento fruto de um ócio ao qual jamais teriam acesso. Nenhuma revolução social, ele afirmava, abalaria Dublin nos próximos séculos.

          Ela lhe perguntou por que não colocava suas idéias no papel. Para quê, ele retrucou, com um desdém um tanto estudado. Para competir com homens que fazem produção em massa de frases, homens incapazes de raciocinar em termos de causa e efeito durante sessenta minutos sequer? Para submeter-se à crítica de uma classe média obtusa que confia sua moralidade à polícia e as belas-artes a donos de galerias?

          Iam com freqüência a um bangalô de propriedade dela nos arredores de Dublin; ali costumavam ficar a sós. Aos poucos, à medida que suas mentes se entrelaçavam, passaram a falar de assuntos menos genéricos. A companhia dela era como solo tépido para uma planta exótica. Muitas vezes ela deixava que a noite caísse sobre os dois, não acendendo a lamparina. A sala discreta, na penumbra, o isolamento dos dois e a música que ainda vibrava em seus ouvidos os unia. Essa união enaltecia-o, polia as arestas de seu temperamento, trazia emoção à sua vida mental. Às vezes, surpreendia-se ouvindo o som de sua própria voz. Ele achava que aos olhos dela ascenderia a um status angelical; e, à medida que se apegava à natureza ardente da amiga, ouvia uma voz estranha e impessoal, que reconhecia como sendo dele próprio, insistindo a respeito da incurável solidão da alma. Não podemos nos dar, dizia a voz: pertencemos a nós mesmos. Os encontros terminaram quando certa noite, demonstrando um ardor fora do comum, a senhora Sinico tomou-lhe a mão apaixonadamente e apertou-a contra o rosto.

          O senhor Duffy ficou muito surpreso. A interpretação que a mulher dera às suas palavras decepcionou-o. Deixou de visitá-la durante uma semana; então escreveu-lhe convidando-a a um encontro. Como não queria que esse último encontro fosse perturbado por confidências, escolheu uma pequena confeitaria próxima ao portão do parque. Era um dia frio de outono mas, apesar do frio, vaguearam pelas trilhas do parque durante quase três horas. Concordaram em romper o relacionamento: todo e qualquer vínculo, ele dissera na ocasião, é um vínculo com o sofrimento. Quando saíram do parque, caminharam em silêncio em direção ao ponto do bonde; de repente, ela começou a tremer tão violentamente que Duffy, com receio de que ela tivesse mais uma crise, despediu-se às pressas e deixou-a ali. Alguns dias mais tarde ele recebeu um pacote contendo seus livros e partituras.


          Quatro anos se passaram. O senhor Duffy voltara à vida pacata de sempre. Seu quarto continuava sendo um testemunho da ordem que reinava em sua mente. Algumas partituras novas tinham sido acrescentadas ao atril na sala do andar inferior e na estante havia agora duas obras de Nietzsche: Assim falou Zaratustra e A gaia ciência. Raramente escrevia nas folhas de papel que guardava em sua escrivaninha. Uma frase, escrita dois meses após o último encontro com a senhora Sinico, dizia: “Amor entre homem e homem é impossível porque não deve haver relacionamento sexual e amizade entre homem e mulher é impossível porque pressupõe relacionamento sexual”. Parou de ir a recitais com receio de encontrá-la. Perdeu o pai; o sócio minoritário do banco aposentou-se; continuava indo de bonde ao centro da cidade toda manhã e no final da tarde voltava para casa a pé, depois de jantar moderadamente em George’s Street e ler o jornal vespertino como sobremesa.

          Certa noite, quando estava prestes a enfiar na boca uma garfada de carne cozida e repolho, sua mão deteve-se. Tinha os olhos fixos num parágrafo da edição vespertina, apoiada na garrafa d’água. Devolveu ao prato o pedaço de carne e leu a coluna atentamente. Em seguida bebeu um copo d’água, empurrou o prato para o lado, dobrou o jornal, apoiou-se nos cotovelos e releu a coluna inúmeras vezes. O repolho começou a soltar no prato uma gordura esbranquiçada. A garçonete veio perguntar-lhe se a comida não estava bem cozida. Ele disse que estava a contento e deu mais umas garfadas, com dificuldade. Em seguida pagou a conta e saiu.

          Caminhou rapidamente em meio ao crepúsculo de novembro batendo com a bengala na calçada num ritmo marcado e com a ponta amarelada do jornal aparecendo no bolso lateral do sobretudo. Na viela sossegada que vai do portão do parque até Chapelizod, desacelerou o passo. A bengala batia na calçada com pancadas menos enfáticas e sua respiração ofegante, com um silvo, condensava-se no ar frio de inverno. Quando chegou em casa subiu direto para o quarto e, tirando o jornal do bolso, releu a coluna sob a luz fraca que entrava pela janela. Lia em silêncio, movendo os lábios como um padre ao ler as orações do breviário. Eis a coluna:


MULHER MORRE NA ESTAÇÃO DE SYDNEY
Um Caso Doloroso

          Hoje no Hospital Municipal de Dublin o legista de plantão (na ausência do Dr. Leverett) fez a autópsia do corpo da senhora Emily Sinico, de quarenta e cinco anos de idade, morta ontem à noite na Estação de Sydney. A autópsia revelou que a mulher, ao tentar atravessar a via férrea, foi atirada ao chão pela locomotiva que partiu de Kingstown às vinte e duas horas, sofrendo traumatismos na cabeça e ferimentos do lado direito do corpo que lhe causaram a morte.
          James Lennon, condutor da locomotiva, declarou que trabalha na estrada de ferro há quinze anos. Ao escutar o apito tocado pelo funcionário da estação, deu partida na máquina e alguns instantes depois freou bruscamente ao ouvir uma gritaria. O trem ia devagar.
          P. Dunne, carregador, declarou que quando o trem estava prestes a partir, viu uma mulher tentando atravessar os trilhos. Correu em direção a ela e gritou mas, antes de alcançá-la, ela fora apanhada pelo pára-choque da locomotiva e atirada ao chão.
Membro do júri: “O senhor viu a mulher cair?”
Testemunha: “Vi”.
          Em seu depoimento o Sargento Croly, da polícia civil, declarou que ao chegar na estação encontrou a mulher estirada na plataforma, aparentemente morta. Mandou o corpo ser transportado para o saguão de embarque para aguardar a chegada da ambulância.
          O policial nº 57 confirmou o depoimento.
          Dr. Halpin, cirurgião-assistente do Hospital Municipal de Dublin, constatou que a mulher tivera duas costelas fraturadas e sofrera sérias contusões no ombro direito. O lado direito da cabeça também fora atingido na queda. No entanto, os ferimentos não eram suficientemente graves para causar a morte de uma pessoa. Na opinião do médico, a morte tinha sido causada por parada cardíaca.
          O senhor H.B. Patterson Finlay, em nome da estrada de ferro, expressou grande pesar pelo acidente. A companhia sempre tomou todas as precauções possíveis para evitar que pessoas atravessassem os trilhos fora das passarelas, colocando avisos em cada estação e utilizando portões com mola, de modelo patenteado, nas passagens de nível. A vítima tinha o costume de atravessar os trilhos tarde da noite, ao deslocar-se de uma plataforma à outra, e, considerando as circunstâncias do caso, ele não acreditava que a companhia tivesse qualquer responsabilidade.
          Capitão Sinico, de Leoville, subúrbio da estação de Sydney e marido da vítima, também prestou depoimento. Declarou que a vítima era sua esposa. Não se encontrava em Dublin na hora do acidente; acabara de chegar de Rotterdam. Estavam casados há vinte e dois anos e viveram felizes até cerca de dois anos atrás, quando a esposa começou a apresentar um comportamento um tanto desregrado.
          A senhorita Mary Sinico disse que ultimamente a mãe começara a sair à noite para comprar bebida alcoólica. Ela, a testemunha, havia inúmeras vezes tentado aconselhá-la e a induzira a afiliar-se à liga contra o alcoolismo. Só chegou em casa uma hora depois de o acidente ter ocorrido.
          O júri pronunciou a sentença de acordo com o laudo médico e isentou Lennon de toda e qualquer responsabilidade.
          O legista de plantão declarou que se tratava de um caso bastante trágico e apresentou suas condolências ao Capitão Sinico e à sua filha. Exortou a estrada de ferro a tomar medidas enérgicas para evitar que acidentes semelhantes àquele voltassem a ocorrer. Ninguém foi responsabilizado.

*

          O senhor Duffy ergueu os olhos do jornal e olhou pela janela, contemplando a melancólica paisagem noturna. O rio corria calado ao longo do alambique desativado e de vez em quando uma luz aparecia numa casa em Lucan Road. Que fim! A narrativa da morte da mulher deixou-o revoltado, assim como deixou-o igualmente revoltado o fato de haver revelado a ela coisas que para ele eram sagradas. As frases gastas, as expressões vazias de condolência e as palavras cuidadosamente escolhidas por um repórter induzido a esconder os detalhes de uma morte banal e vulgar revolviam-lhe o estômago. Ela não tinha apenas aviltado a si mesma mas a ele também. Era capaz de visualizar a trilha esquálida de seu vício desprezível, malcheiroso. Sua alma gêmea! Pensou nas infelizes que encontrara trôpegas pela rua, carregando canecas e garrafas para serem enchidas pelo barman. Deus do céu, que fim! Evidentemente, não estava preparada para a vida, não tinha a mínima força de vontade; era presa fácil dos vícios: uma dessas ruínas sobre as quais tem sido edificada a civilização. Como pôde ela descer tanto! Será possível que ele tinha se enganado tanto a seu respeito? Lembrou-se do rompante que ela tivera naquela noite e interpretou a reação da mulher de um modo mais implacável do que nunca. Não tinha agora a menor dificuldade em aprovar as medidas que havia tomado.

          Quando a luz se extinguiu e suas lembranças começaram a dissipar-se, ele teve a impressão de que a mão da mulher tocara a sua. O choque que a princípio lhe afetara o estômago agora lhe afetava os nervos. Vestiu às pressas o sobretudo, pôs o chapéu e saiu porta afora. O ar frio esperava-o na soleira e penetrou-lhe pelas mangas de seu casaco. Quando chegou ao bar em Chapelizod Bridge, entrou e pediu uma bebida forte.

          O proprietário serviu-o obsequiosamente mas não puxou assunto. No bar havia uns cinco ou seis operários conversando sobre o valor das terras de um senhor em County Kildare. Bebericavam em seus canecões de cerveja e fumavam, cuspindo no assoalho e de vez em quando raspando com a ponta das botinas um pouco de pó de serragem para encobrir as cusparadas. O senhor Duffy sentou-se numa banqueta e ficou olhando para o grupo, sem enxergá-los nem ouvi-los. Logo depois eles foram embora e o senhor Duffy pediu mais um drinque. Levou um bom tempo para beber essa dose. O bar estava bastante quieto. O proprietário encontrava-se esparramado sobre o balcão lendo o Herald e bocejando. De quando em vez se ouvia um bonde sacolejando na rua deserta.

          Sentado ali, revivendo mentalmente os momentos que passara ao lado da mulher e evocando, alternadamente, as duas imagens em que ora a concebia, o senhor Duffy deu-se conta de que ela estava morta, tinha deixado de existir, tinha se transformado numa lembrança. Começou a sentir-se angustiado. Perguntou a si mesmo se não poderia ter feito algo mais. Não podia ter proposto a ela uma farsa: não era possível viver com ela ostensivamente. Tinha agido da forma que considerava mais correta. Que culpa poderia ter? Agora que ela se fora ele percebeu a solidão em que ela vivia, sozinha naquela sala noite após noite. Sua vida seria, igualmente, marcada pela solidão, até que ele também morresse, fosse transformado numa lembrança – se é que alguém dele se lembraria.

          Já passava das nove quando saiu do bar. A noite estava fria e soturna. Entrou no parque pelo portão principal e caminhou por baixo das árvores desfolhadas. Percorreu as trilhas desertas por onde juntos tinham caminhado quatro anos antes. Parecia que ela caminhava ao seu lado na escuridão. Às vezes tinha a impressão de ouvir a voz da mulher roçar-lhe o ouvido e de sentir a mão dela roçar a sua. Deteve-se para escutar melhor. Por que lhe negara a vida? Por que a condenara à morte? Sentia-se moralmente arrasado.

          Ao chegar ao ponto mais elevado de Magazine Hill, parou e olhou rio abaixo em direção a Dublin, cujas luzes cintilavam vermelhas e hospitaleiras na noite fria. Olhou pela encosta da colina e, ao pé da ladeira, que ficava na sombra do muro do parque, viu figuras humanas deitadas. Aquelas cenas de amor furtivas e venais levaram-no ao desespero. Arrancou de sua própria vida a idéia de retidão; sentiu que tinha ficado de fora da festa da vida. Um ser humano talvez o tivesse amado e ele negara-lhe vida e felicidade: condenara essa pessoa à ignomínia, a uma morte vergonhosa. Sabia que as criaturas prostradas à sombra do muro estavam olhando para ele e desejavam que fosse embora. Ninguém o queria; estava fora da festa da vida. Desviou o olhar para o rio cinzento e reluzente, que se retorcia em direção a Dublin. Na margem oposta, avistou um trem de carga retorcendo-se ao sair da Estação de Kingsbridge, como um verme com a cabeça flamejante retorcendo-se na escuridão, obstinado, prosseguindo a duras penas. O trem saiu de seu campo de visão; mas ele ainda ouvia o ruído penoso da locomotiva repetindo as sílabas do nome da mulher.

          Retornou pelo mesmo caminho que viera, com o ritmo da locomotiva martelando-lhe os ouvidos. Começou a duvidar do que lhe dizia a memória. Parou embaixo de uma árvore e esperou que o ritmo cessasse. Já não sentia a presença dela na escuridão, nem a sua voz roçando-lhe o ouvido. Permaneceu ali mais algum tempo escutando. Não ouvia nada: na noite reinava um silêncio total. Continuou escutando: silêncio total. Sentiu que estava só.

[1912]

Conto extraído de
JOYCE, James. Dublinenses. 2ª ed. São Paulo: Siciliano, 1994.


A Painful Case - James Joyce

Mr. James Duffy lived in Chapelizod because he wished to live as far as possible from the city of which he was a citizen and because he found all the other suburbs of Dublin mean, modern and pretentious. He lived in an old sombre house and from his windows he could look into the disused distillery or upwards along the shallow river on which Dublin is built. The lofty walls of his uncarpeted room were free from pictures. He had himself bought every article of furniture in the room: a black iron bedstead, an iron washstand, four cane chairs, a clothes- rack, a coal-scuttle, a fender and irons and a square table on which lay a double desk. A bookcase had been made in an alcove by means of shelves of white wood. The bed was clothed with white bedclothes and a black and scarlet rug covered the foot. A little hand-mirror hung above the washstand and during the day a white-shaded lamp stood as the sole ornament of the mantelpiece. The books on the white wooden shelves were arranged from below upwards according to bulk. A complete Wordsworth stood at one end of the lowest shelf and a copy of the Maynooth Catechism, sewn into the cloth cover of a notebook, stood at one end of the top shelf. Writing materials were always on the desk. In the desk lay a manuscript translation of Hauptmann's Michael Kramer, the stage directions of which were written in purple ink, and a little sheaf of papers held together by a brass pin. In these sheets a sentence was inscribed from time to time and, in an ironical moment, the headline of an advertisement for Bile Beans had been pasted on to the first sheet. On lifting the lid of the desk a faint fragrance escaped -- the fragrance of new cedarwood pencils or of a bottle of gum or of an overripe apple which might have been left there and forgotten.

Mr. Duffy abhorred anything which betokened physical or mental disorder. A medival doctor would have called him saturnine. His face, which carried the entire tale of his years, was of the brown tint of Dublin streets. On his long and rather large head grew dry black hair and a tawny moustache did not quite cover an unamiable mouth. His cheekbones also gave his face a harsh character; but there was no harshness in the eyes which, looking at the world from under their tawny eyebrows, gave the impression of a man ever alert to greet a redeeming instinct in others but often disappointed. He lived at a little distance from his body, regarding his own acts with doubtful side-glasses. He had an odd autobiographical habit which led him to compose in his mind from time to time a short sentence about himself containing a subject in the third person and a predicate in the past tense. He never gave alms to beggars and walked firmly, carrying a stout hazel.

He had been for many years cashier of a private bank in Baggot Street. Every morning he came in from Chapelizod by tram. At midday he went to Dan Burke's and took his lunch -- a bottle of lager beer and a small trayful of arrowroot biscuits. At four o'clock he was set free. He dined in an eating-house in George's Street where he felt himself safe from the society o Dublin's gilded youth and where there was a certain plain honesty in the bill of fare. His evenings were spent either before his landlady's piano or roaming about the outskirts of the city. His liking for Mozart's music brought him sometimes to an opera or a concert: these were the only dissipations of his life.

He had neither companions nor friends, church nor creed. He lived his spiritual life without any communion with others, visiting his relatives at Christmas and escorting them to the cemetery when they died. He performed these two social duties for old dignity's sake but conceded nothing further to the conventions which regulate the civic life. He allowed himself to think that in certain circumstances he would rob his hank but, as these circumstances never arose, his life rolled out evenly -- an adventureless tale.

One evening he found himself sitting beside two ladies in the Rotunda. The house, thinly peopled and silent, gave distressing prophecy of failure. The lady who sat next him looked round at the deserted house once or twice and then said:

"What a pity there is such a poor house tonight! It's so hard on people to have to sing to empty benches."

He took the remark as an invitation to talk. He was surprised that she seemed so little awkward. While they talked he tried to fix her permanently in his memory. When he learned that the young girl beside her was her daughter he judged her to be a year or so younger than himself. Her face, which must have been handsome, had remained intelligent. It was an oval face with strongly marked features. The eyes were very dark blue and steady. Their gaze began with a defiant note but was confused by what seemed a deliberate swoon of the pupil into the iris, revealing for an instant a temperament of great sensibility. The pupil reasserted itself quickly, this half- disclosed nature fell again under the reign of prudence, and her astrakhan jacket, moulding a bosom of a certain fullness, struck the note of defiance more definitely.

He met her again a few weeks afterwards at a concert in Earlsfort Terrace and seized the moments when her daughter's attention was diverted to become intimate. She alluded once or twice to her husband but her tone was not such as to make the allusion a warning. Her name was Mrs. Sinico. Her husband's great-great-grandfather had come from Leghorn. Her husband was captain of a mercantile boat plying between Dublin and Holland; and they had one child.

Meeting her a third time by accident he found courage to make an appointment. She came. This was the first of many meetings; they met always in the evening and chose the most quiet quarters for their walks together. Mr. Duffy, however, had a distaste for underhand ways and, finding that they were compelled to meet stealthily, he forced her to ask him to her house. Captain Sinico encouraged his visits, thinking that his daughter's hand was in question. He had dismissed his wife so sincerely from his gallery of pleasures that he did not suspect that anyone else would take an interest in her. As the husband was often away and the daughter out giving music lessons Mr. Duffy had many opportunities of enjoying the lady's society. Neither he nor she had had any such adventure before and neither was conscious of any incongruity. Little by little he entangled his thoughts with hers. He lent her books, provided her with ideas, shared his intellectual life with her. She listened to all.

Sometimes in return for his theories she gave out some fact of her own life. With almost maternal solicitude she urged him to let his nature open to the full: she became his confessor. He told her that for some time he had assisted at the meetings of an Irish Socialist Party where he had felt himself a unique figure amidst a score of sober workmen in a garret lit by an inefficient oil-lamp. When the party had divided into three sections, each under its own leader and in its own garret, he had discontinued his attendances. The workmen's discussions, he said, were too timorous; the interest they took in the question of wages was inordinate. He felt that they were hard-featured realists and that they resented an exactitude which was the produce of a leisure not within their reach. No social revolution, he told her, would be likely to strike Dublin for some centuries.

She asked him why did he not write out his thoughts. For what, he asked her, with careful scorn. To compete with phrasemongers, incapable of thinking consecutively for sixty seconds? To submit himself to the criticisms of an obtuse middle class which entrusted its morality to policemen and its fine arts to impresarios?

He went often to her little cottage outside Dublin; often they spent their evenings alone. Little by little, as their thoughts entangled, they spoke of subjects less remote. Her companionship was like a warm soil about an exotic. Many times she allowed the dark to fall upon them, refraining from lighting the lamp. The dark discreet room, their isolation, the music that still vibrated in their ears united them. This union exalted him, wore away the rough edges of his character, emotionalised his mental life. Sometimes he caught himself listening to the sound of his own voice. He thought that in her eyes he would ascend to an angelical stature; and, as he attached the fervent nature of his companion more and more closely to him, he heard the strange impersonal voice which he recognised as his own, insisting on the soul's incurable loneliness. We cannot give ourselves, it said: we are our own. The end of these discourses was that one night during which she had shown every sign of unusual excitement, Mrs. Sinico caught up his hand passionately and pressed it to her cheek.

Mr. Duffy was very much surprised. Her interpretation of his words disillusioned him. He did not visit her for a week, then he wrote to her asking her to meet him. As he did not wish their last interview to be troubled by the influence of their ruined confessional they meet in a little cakeshop near the Parkgate. It was cold autumn weather but in spite of the cold they wandered up and down the roads of the Park for nearly three hours. They agreed to break off their intercourse: every bond, he said, is a bond to sorrow. When they came out of the Park they walked in silence towards the tram; but here she began to tremble so violently that, fearing another collapse on her part, he bade her good-bye quickly and left her. A few days later he received a parcel containing his books and music.

Four years passed. Mr. Duffy returned to his even way of life. His room still bore witness of the orderliness of his mind. Some new pieces of music encumbered the music-stand in the lower room and on his shelves stood two volumes by Nietzsche: Thus Spake Zarathustra and The Gay Science. He wrote seldom in the sheaf of papers which lay in his desk. One of his sentences, written two months after his last interview with Mrs. Sinico, read: Love between man and man is impossible because there must not be sexual intercourse and friendship between man and woman is impossible because there must be sexual intercourse. He kept away from concerts lest he should meet her. His father died; the junior partner of the bank retired. And still every morning he went into the city by tram and every evening walked home from the city after having dined moderately in George's Street and read the evening paper for dessert.

One evening as he was about to put a morsel of corned beef and cabbage into his mouth his hand stopped. His eyes fixed themselves on a paragraph in the evening paper which he had propped against the water-carafe. He replaced the morsel of food on his plate and read the paragraph attentively. Then he drank a glass of water, pushed his plate to one side, doubled the paper down before him between his elbows and read the paragraph over and over again. The cabbage began to deposit a cold white grease on his plate. The girl came over to him to ask was his dinner not properly cooked. He said it was very good and ate a few mouthfuls of it with difficulty. Then he paid his bill and went out.

He walked along quickly through the November twilight, his stout hazel stick striking the ground regularly, the fringe of the buff Mail peeping out of a side-pocket of his tight reefer overcoat. On the lonely road which leads from the Parkgate to Chapelizod he slackened his pace. His stick struck the ground less emphatically and his breath, issuing irregularly, almost with a sighing sound, condensed in the wintry air. When he reached his house he went up at once to his bedroom and, taking the paper from his pocket, read the paragraph again by the failing light of the window. He read it not aloud, but moving his lips as a priest does when he reads the prayers Secreto. This was the paragraph:

DEATH OF A LADY AT SYDNEY PARADE
A PAINFUL CASE
Today at the City of Dublin Hospital the Deputy Coroner (in the absence of Mr. Leverett) held an inquest on the body of Mrs. Emily Sinico, aged forty-three years, who was killed at Sydney Parade Station yesterday evening. The evidence showed that the deceased lady, while attempting to cross the line, was knocked down by the engine of the ten o'clock slow train from Kingstown, thereby sustaining injuries of the head and right side which led to her death.

James Lennon, driver of the engine, stated that he had been in the employment of the railway company for fifteen years. On hearing the guard's whistle he set the train in motion and a second or two afterwards brought it to rest in response to loud cries. The train was going slowly.

P. Dunne, railway porter, stated that as the train was about to start he observed a woman attempting to cross the lines. He ran towards her and shouted, but, before he could reach her, she was caught by the buffer of the engine and fell to the ground.

A juror. "You saw the lady fall?"

Witness. "Yes."

Police Sergeant Croly deposed that when he arrived he found the deceased lying on the platform apparently dead. He had the body taken to the waiting-room pending the arrival of the ambulance.

Constable 57 corroborated.

Dr. Halpin, assistant house surgeon of the City of Dublin Hospital, stated that the deceased had two lower ribs fractured and had sustained severe contusions of the right shoulder. The right side of the head had been injured in the fall. The injuries were not sufficient to have caused death in a normal person. Death, in his opinion, had been probably due to shock and sudden failure of the heart's action.

Mr. H. B. Patterson Finlay, on behalf of the railway company, expressed his deep regret at the accident. The company had always taken every precaution to prevent people crossing the lines except by the bridges, both by placing notices in every station and by the use of patent spring gates at level crossings. The deceased had been in the habit of crossing the lines late at night from platform to platform and, in view of certain other circumstances of the case, he did not think the railway officials were to blame.

Captain Sinico, of Leoville, Sydney Parade, husband of the deceased, also gave evidence. He stated that the deceased was his wife. He was not in Dublin at the time of the accident as he had arrived only that morning from Rotterdam. They had been married for twenty-two years and had lived happily until about two years ago when his wife began to be rather intemperate in her habits.

Miss Mary Sinico said that of late her mother had been in the habit of going out at night to buy spirits. She, witness, had often tried to reason with her mother and had induced her to join a League. She was not at home until an hour after the accident. The jury returned a verdict in accordance with the medical evidence and exonerated Lennon from all blame.

The Deputy Coroner said it was a most painful case, and expressed great sympathy with Captain Sinico and his daughter. He urged on the railway company to take strong measures to prevent the possibility of similar accidents in the future. No blame attached to anyone.


Mr. Duffy raised his eyes from the paper and gazed out of his window on the cheerless evening landscape. The river lay quiet beside the empty distillery and from time to time a light appeared in some house on the Lucan road. What an end! The whole narrative of her death revolted him and it revolted him to think that he had ever spoken to her of what he held sacred. The threadbare phrases, the inane expressions of sympathy, the cautious words of a reporter won over to conceal the details of a commonplace vulgar death attacked his stomach. Not merely had she degraded herself; she had degraded him. He saw the squalid tract of her vice, miserable and malodorous. His soul's companion! He thought of the hobbling wretches whom he had seen carrying cans and bottles to be filled by the barman. Just God, what an end! Evidently she had been unfit to live, without any strength of purpose, an easy prey to habits, one of the wrecks on which civilisation has been reared. But that she could have sunk so low! Was it possible he had deceived himself so utterly about her? He remembered her outburst of that night and interpreted it in a harsher sense than he had ever done. He had no difficulty now in approving of the course he had taken.

As the light failed and his memory began to wander he thought her hand touched his. The shock which had first attacked his stomach was now attacking his nerves. He put on his overcoat and hat quickly and went out. The cold air met him on the threshold; it crept into the sleeves of his coat. When he came to the public-house at Chapelizod Bridge he went in and ordered a hot punch.

The proprietor served him obsequiously but did not venture to talk. There were five or six workingmen in the shop discussing the value of a gentleman's estate in County Kildare They drank at intervals from their huge pint tumblers and smoked, spitting often on the floor and sometimes dragging the sawdust over their spits with their heavy boots. Mr. Duffy sat on his stool and gazed at them, without seeing or hearing them. After a while they went out and he called for another punch. He sat a long time over it. The shop was very quiet. The proprietor sprawled on the counter reading the Herald and yawning. Now and again a tram was heard swishing along the lonely road outside.

As he sat there, living over his life with her and evoking alternately the two images in which he now conceived her, he realised that she was dead, that she had ceased to exist, that she had become a memory. He began to feel ill at ease. He asked himself what else could he have done. He could not have carried on a comedy of deception with her; he could not have lived with her openly. He had done what seemed to him best. How was he to blame? Now that she was gone he understood how lonely her life must have been, sitting night after night alone in that room. His life would be lonely too until he, too, died, ceased to exist, became a memory -- if anyone remembered him.

It was after nine o'clock when he left the shop. The night was cold and gloomy. He entered the Park by the first gate and walked along under the gaunt trees. He walked through the bleak alleys where they had walked four years before. She seemed to be near him in the darkness. At moments he seemed to feel her voice touch his ear, her hand touch his. He stood still to listen. Why had he withheld life from her? Why had he sentenced her to death? He felt his moral nature falling to pieces.

When he gained the crest of the Magazine Hill he halted and looked along the river towards Dublin, the lights of which burned redly and hospitably in the cold night. He looked down the slope and, at the base, in the shadow of the wall of the Park, he saw some human figures lying. Those venal and furtive loves filled him with despair. He gnawed the rectitude of his life; he felt that he had been outcast from life's feast. One human being had seemed to love him and he had denied her life and happiness: he had sentenced her to ignominy, a death of shame. He knew that the prostrate creatures down by the wall were watching him and wished him gone. No one wanted him; he was outcast from life's feast. He turned his eyes to the grey gleaming river, winding along towards Dublin. Beyond the river he saw a goods train winding out of Kingsbridge Station, like a worm with a fiery head winding through the darkness, obstinately and laboriously. It passed slowly out of sight; but still he heard in his ears the laborious drone of the engine reiterating the syllables of her name.

He turned back the way he had come, the rhythm of the engine pounding in his ears. He began to doubt the reality of what memory told him. He halted under a tree and allowed the rhythm to die away. He could not feel her near him in the darkness nor her voice touch his ear. He waited for some minutes listening. He could hear nothing: the night was perfectly silent. He listened again: perfectly silent. He felt that he was alone.