quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ode ao homem singelo / Oda al hombre sencillo - Pablo Neruda


Vou te contar em segredo
quem sou eu,
assim, em voz alta,
me dirás quem és,
quero saber quem és,
quanto ganhas,
em que oficina trabalhas,
em que mina,
em que farmácia,
tenho uma obrigação terrível
e é saber,
saber tudo:
dia e noite saber como te chamas,
esse é meu ofício,
conhecer uma vida
não é bastante
nem conhecer todas as vidas
é necessário,
verás,
há que desentranhar,
raspar a fundo
e como em uma tela
as linhas ocultarão,
com a cor, a trama
do tecido,
eu apago as cores
e busco até encontrar
o tecido profundo,
assim também encontro
a unidade dos homens,
e no pão busco
mais além da forma:
me agrada o pão, o mordo,
e então
vejo o trigo,
os trigais temporãos,
a verde forma da primavera,
as raízes, a água,
por isso
mais além do pão,
vejo a terra,
a unidade da terra,
a água,
o homem,
e assim de tudo provo
buscando-te
em tudo,
ando, nado, navego
até encontrar-te,
e então te pergunto
como te chamas,
rua e número,
para que tu recebas
minhas cartas,
para que eu te diga
quem sou e quanto ganho,
onde vivo,
e como era meu pai.
Vês tu que simples sou,
que simples és,
não se trata
de nada complicado,
eu trabalho contigo,
tu vives, vais e vens
de um lado a outro,
é muito singelo:
és a vida,
és tão transparente
como a água,
e assim sou eu,
minha obrigação é essa:
ser transparente,
cada dia
me educo,
cada dia me penteio
pensando como pensas,
e ando
como tu andas,
como, como tu comes,
tenho em meus braços o meu amor,
como tu a tua namorada,
e então
quando isto está provado,
quando somos iguais
escrevo,
escrevo com tua vida e com a minha,
com teu amor e os meus,
com todas as tuas dores
e então
já somos diferentes
porque, minha mão em teu ombro,
como velhos amigos
te digo no ouvido:
não sofras,
já chega o dia,
vem,
vem comigo,
vem
com todos
os que a ti se parecem,
os mais singelos,
vem,
não sofras,
vem comigo,
porque ainda que tu não o saibas,
isso eu sim o sei:
eu sei para onde vamos,
e é essa a palavra:
não sofras
porque ganharemos,
ganharemos nós outros,
os mais singelos,
ganharemos,
ainda que tu não o creias,
ganharemos.
(Tradução livre)

Oda al hombre sencillo - Pablo Neruda

Voy a contarte en secreto
quién soy yo,
así, en voz alta,
me dirás quién eres
quiero saber quién eres,
cuánto ganas, 

en qué taller trabajas,
en qué mina,
en qué farmacia,
tengo una obligación terrible
y es saberlo,
saberlo todo,
día y noche saber 

cómo te llamas,
ése es mi oficio,
conocer una vida
no es bastante
ni conocer todas las vidas
es necesario,
verás,
hay que desentrañar,
rascar a fondo
y como en una tela
las líneas ocultaron,
con el color, la trama
del tejido,
yo borro los colores
y busco hasta encontrar
el tejido profundo,
así también encuentro
la unidad de los hombres,
y en el pan 

busco
más allá de la forma:
me gusta el pan, lo muerdo,
y entonces
veo el trigo,
los trigales tempranos,
la verde forma de la primavera,
las raíces, el agua,
por eso
más allá del pan,
veo la tierra,
la unidad de la tierra,
el agua,
el hombre,
y así todo lo pruebo
buscándote
en todo,
ando, nado, navego,
hasta encontrarte,
y entonces te pregunto
cómo te llamas,
calle y número,
para que tú recibas
mis cartas,
para que yo te diga
quién soy y cuánto gano,
dónde vivo,
y cómo era mi padre.

Ves tú qué simple soy, 
qué simple eres,
no se trata
de nada complicado,
yo trabajo contigo,
tú vives, vas y vienes
de un lado a otro,
es muy sencillo,
eres la vida,
eres tan transparente
como el agua,
y así soy yo,
mi obligación es ésa:
ser transparente,
cada día
me educo,
cada día me peino
pensando como piensas,
y ando
como tú andas,
como, como tú comes,
tengo en mis brazos a mi amor
como a tu novia tú,
y entonces
cuando esto está probado,
cuando somos iguales
escribo,
escribo con tu vida y con la mía,
con tu amor y los míos,
con todos tus dolores
y entonces
ya somos diferentes
porque, mi mano en tu hombro,
como viejos amigos
te digo en las orejas:
no sufras,
ya llega el día,
ven, 

ven conmigo,
ven 

con todos
los que a ti se parecen,
los más sencillos,
ven, 

no sufras,
ven conmigo,
porque aunque no lo sepas,
eso yo sí lo sé:
yo sé hacia dónde vamos,
y es ésta la palabra:
no sufras
porque ganaremos,
ganaremos nosotros,
los más sencillos,
ganaremos,
aunque tú no lo creas,
ganaremos.



Pablo Neruda, in Odas elementales, 1954.


(Muito me alegra que texto mais visitado aqui é este poema, entre tantos. Lembro como me tocou profundamente da primeira vez que o li, e como o distribuía datilografado aos amigos próximos nos velhos tempos).


Outra ode de Neruda: Ode ao gato

domingo, 26 de julho de 2009

Paranóia - Raul Seixas

Quando esqueço a hora de dormir
E de repente chega o amanhecer
Sinto a culpa que eu não sei de que
Pergunto o que que eu fiz?
Meu coração não diz e eu...
Eu sinto medo!
Eu sinto medo!

Se eu vejo um papel qualquer no chão
Tremo, corro e apanho pra esconder
Medo de ter sido uma anotação que eu fiz
Que não se possa ler
E eu gosto de escrever, mas...
Mas eu sinto medo!
Eu sinto medo!

Tinha tanto medo de sair da cama à noite pro banheiro
Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre...
Sempre... sempre... sempre... Eu estava com Deus!
Eu estava com Deus!
Eu estava com Deus!
Eu estava sempre com Deus!

Minha mãe me disse há tempo atrás
Onde você for Deus vai atrás
Deus vê sempre tudo que cê faz
Mas eu não via Deus
Achava assombração, mas...
Mas eu tinha medo!
Eu tinha medo!

Vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro, com vergonha
Com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo
Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro
Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro

Para...nóia

Dedico esta canção:
Para Nóia!
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)
Com amor e com medo (com amor e com medo)...

Com amor e com medo...



quarta-feira, 15 de julho de 2009

Mas vai chover - Clarice Lispector

Clarice Lispector

    Maria Angélica de Andrade tinha sessenta anos. E um amante, Alexandre, de dezenove anos. 
    Todos sabiam que o menino se aproveitava da riqueza de Maria Angélica. Só Maria Angélica não suspeitava. 
    Começou assim: Alexandre era entregador de produtos farmacêuticos e tocou a campainha da casa de Maria Angélica. Esta mesma abriu a porta. E deparou-se com um jovem forte, alto, de grande beleza. Em vez de receber o remédio que encomendara e pagar o preço, perguntou-lhe, meio assustada com a própria ousadia, se não queria entrar para tomar um café.
    Alexandre espantou-se e disse que não, obrigado. Mas ela insistiu. Acrescentou que tinha bolo também.
    O rapaz hesitava, visivelmente constrangido. Mas disse:
    – Se for por pouco tempo, entro, porque tenho que trabalhar.
    Entrou. Maria Angélica não sabia que já estava apaixonada. Deu-lhe uma grossa fatia de bolo e café com leite. Enquanto ele comia pouco à vontade, ela embevecida o olhava. Ele era a força, a juventude, o sexo há muito tempo abandonado. O rapaz acabou de comer e beber, e enxugou a boca com a manga da camisa. Maria Angélica não achou que fossem maus modos: ficou deliciada, achou-o natural, simples, encantador.
    – Agora vou embora que meu patrão vai me deixar grilado se eu demorar.
    Ela estava fascinada. Observou que ele tinha umas poucas espinhas no rosto. Mas isso não lhe alterava a beleza e a masculinidade: os hormônios lá ferviam. Aquele, sim, era um homem. Deu-lhe uma gorjeta enorme, desproporcional, que surpreendeu o rapaz. E disse com uma vozinha cantante e com trejeitos de mocinha romântica:
    – Só deixo você sair se prometer que voltará! Hoje mesmo! Porque vou pedir uma vitaminazinha na farmácia...
    Uma hora depois ele estava de volta com as vitaminas. Ela havia mudado de roupa, estava com um quimono de renda transparente. Via-se a marca de suas calcinhas. Mandou-o entrar. Disse-lhe que era viúva. Era o modo de lhe avisar que era livre. Mas o rapaz não entendia.
    Convidou-o a percorrer o bem-decorado apartamento deixando-o embasbacado. Levou-o a seu quarto. Não sabia como fazer para que ele entendesse. Disse-lhe então:
    – Deixe eu lhe dar um beijinho! 
    O rapaz se espantou, estendeu-lhe o rosto. Mas ela alcançou bem depressa a boca e quase a devorou.
    – Minha senhora, disse o menino nervoso, por favor se controle! A senhora está passando bem?
    – Não posso me controlar! Eu te amo! Venha para a cama comigo!
    – Tá doida?!
    – Não estou doida! Ou melhor: estou doida por você! Gritou-lhe enquanto tirava a coberta roxa da grande cama de casal.
    E vendo que ele nunca entenderia, disse-lhe morta de vergonha:
    – Venha para a cama comigo...
    – Eu?!
    – Eu lhe dou um presente grande! Eu lhe dou um carro!
    Carro? Os olhos do rapaz faiscaram de cobiça. Um carro! Era tudo o que desejava na vida. Perguntou desconfiado:
    – Um karmann-ghia?
    – Sim, meu amor, o que você quiser!
    O que se passou em seguida foi horrível. Não é necessário saber. Maria Angélica – oh, meu Deus, tenha piedade de mim, me perdoe por ter que escrever isto! – Maria Angélica dava gritinhos na hora do amor. E Alexandre tendo que suportar com nojo, com revolta. Transformou-se num rebelado para o resto da vida. Tinha a impressão de que nunca mais ia poder dormir com uma mulher. O que aconteceria mesmo: aos vinte e sete anos ficou impotente.
    E tornaram-se amantes. Ele, por causa dos vizinhos, não morava com ela. Quis morar num hotel de luxo: tomava café na cama. E logo abandonou o emprego. Comprou camisas caríssimas. Foi a um dermatologista e as espinhas desapareceram.
    Maria Angélica mal acreditava na sua sorte. Pouco se importava com as criadas que quase riam na sua cara.
    Uma amiga sua advertiu-lhe:
    – Maria Angélica, você não vê que o rapaz é um pilantra? Que está explorando você?
    – Não admito que você chame Alex de pilantra! E ele me ama!
    Um dia Alex teve uma ousadia. Disse-lhe:
    – Vou passar uns dias fora do Rio com uma garota que conheci. Preciso de dinheiro.
    Foram dias horríveis para Maria Angélica. Não saiu de casa, não tomou banho, mal se alimentou. Era por teimosia que ainda acreditava em Deus. Porque Deus a abandonara. Ela era obrigada a ser penosamente ela mesma.
    Cinco dias depois ele voltou, todo pimpão, todo alegre. Trouxe-lhe de presente uma lata de goiabada-cascão. Ela foi comer e quebrou um dente. Teve que ir ao dentista para pôr um dente falso.
    E a vida corria. As contas aumentavam. Alexandre exigente. Maria Angélica aflita. Quando fez sessenta e um anos de idade ele não apareceu. Ela ficou sozinha diante do bolo de aniversário.
    Então – então aconteceu.
    Alexandre lhe disse:
    – Preciso de um milhão de cruzeiros.
    – Um milhão? Espantou-se Maria Angélica.
    – Sim!, respondeu irritado, um bilhão antigo!
    – Mas... mas eu não tenho tanto dinheiro...
    – Venda o apartamento, então, e venda o seu Mercedes, dispense o chofer.
    
 Mesmo assim não dava, meu amor, tenha piedade de mim!
    O rapaz enfureceu-se:
    – Sua velha desgraçada! sua porca, sua vagabunda! Sem um bilhão não me presto mais para as suas sem-vergonhices!
    E, num ímpeto de ódio, saiu batendo a porta de casa.
    Maria Angélica ficou ali de pé. Doía-lhe o corpo todo.
    Depois foi devagar sentar-se no sofá da sala. Parecia uma ferida de guerra. Mas não havia Cruz Vermelha que a socorresse. Estava quieta, muda. Sem palavra nenhuma a dizer.
    – Parece – pensou – parece que vai chover.



Clarice Lispector, in A via crucis do corpo. Rio de Janeiro, ed. Rocco, 1998.

Mais Clarice Lispector:

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A bruxa - Carlos Drummond de Andrade


                   A Emil Farhat

Nesta cidade do Rio,
De dois milhões de habitantes,
Estou sozinho no quarto,
Estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído,
Anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida.
E sinto a bruxa,
Presa na zona da luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto.
Precisava de um amigo
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo.
E a esta hora tardia,
Como procurar amigo?

E nem precisava tanto!
Precisava de mulher,
Que entrasse nesse minuto
Recebesse este carinho,
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido,
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal e calma.
Porém a esta hora vazia,
Como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos
Sei os beijos mais violentos.
Viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
De mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Esta presença agitada
Querendo romper a noite,
Não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência,
Exalando-se de um homem.

domingo, 5 de julho de 2009

O Tejo é mais belo - Fernando Pessoa



O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(O guardador de rebanhos, XX)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Inferno, I, 32 - Jorge Luis Borges

            Do crepúsculo do dia ao crepúsculo da noite, um leopardo, nos finais do século XII, via umas tábuas de madeira, umas barras verticais de ferro, homens e mulheres cambiantes, um paredão e talvez um canalete de pedra com folhas secas. Não sabia, não podia saber, que ansiava por amor e crueldade e pelo ardente prazer de dilacerar e pelo vento com cheiro de veado, mas algo nele se sufocava e se rebelava e Deus lhe falou em um sonho: “Vives e morrerás nesta prisão para que um homem que conheço te olhe um número determinado de vezes e não te esqueça e ponha tua figura e teu símbolo em um poema, que tem seu preciso lugar na trama do universo. Sofres o cativeiro, mas terás dado uma palavra ao poema”. Deus, no sonho, iluminou a rudeza do animal e este compreendeu as razões e aceitou esse destino, mas só houve nele, ao despertar, uma obscura resignação, uma valorosa ignorância, porque a máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade de uma fera.

            Anos depois, Dante morria em Ravena, tão injustiçado e tão só como qualquer outro homem. Em um sonho, Deus lhe declarou o secreto propósito de sua vida e de seu lavor; Dante, maravilhado, soube por fim quem era e o que era e abençoou suas amarguras. A tradição refere que, ao despertar, sentiu que tinha recebido e perdido uma coisa infinita, algo que não poderia recuperar nem mesmo vislumbrar, porque a máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade dos homens.

            Jorge Luis Borges, in O Fazedor (1960).

sábado, 6 de junho de 2009

A nova pessoa que vem a mim - Walt Whitman

A nova pessoa que vem a mim é você?
Ouça um conselho, para começar:
eu sou com certeza bem diferente
do que você imagina...
Você imagina encontrar em mim seu ideal?
Acha tão fácil assim eu me tornar seu amante?
Pensa que minha amizade
é fonte de satisfação sem impureza?
Julga que eu seja fiel e digno de confiança?
Além desta fachada, do meu jeito macio e tolerante,
você não vê mais nada?
Acha que vem avançando
em bases realmente firmes
na direção de um homem realmente heróico?
Pela cabeça nunca lhe passou, ó sonhador,
que tudo isso pode ser maya, ilusão?
(Tradução de Geir Campos)

"Are you the new person drawn toward me?
To begin with, take warning--
I am surely far different from what you suppose;
Do you suppose you will find in me your ideal?
Do you think it so easy to have me become your lover?
Do you think the friendship of me would be unalloy'd satisfaction?
Do you think I am trusty and faithful?
Do you see no further than this façade--
this smooth and tolerant manner of me?
Do you suppose yourself advancing
on real ground toward a real heroicman?
Have you no thought,
O dreamer,
that it may be all maya, illusion?"


Walt Whitman (1819-1892)

sábado, 23 de maio de 2009

Cristo na cruz - Jorge Luis Borges


Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
As três vigas são de igual altura.
Cristo não está no meio. É o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das lâminas.
E áspero e judeu. Não o vejo
e o seguirei buscando até o dia
último de meus passos pela terra.
O homem violado sofre e cala.
A coroa de espinhos o lastima.
Não o alcança o escárnio da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espera,
pensa em uma mulher que não foi sua.
Não lhe é dado ver a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
a púrpura, a mitra, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a Inquisição, o sangue dos mártires,
as atrozes Cruzadas, Joana D’Arc,
o Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é um deus e que é um homem
que morre com o dia. Não lhe importa.
Lhe importa o duro ferro dos cravos.
Não é um romano. Não é um grego. Geme.
Nos deixou esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Essa sentença
foi escrita por um irlandês em um cárcere.)
A alma busca o fim, com urgência.
Escureceu um pouco. Já morreu.
Anda uma mosca pela carne quieta.
Que pode me servir que aquele homem
tenha sofrido, se eu sofro agora?

                         Kyoto, 1984

Jorge Luis Borges in Os conjurados, 1985.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O amor comeu... - João Cabral de Melo Neto


Os Três Mal-Amados
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
*
Falas do personagem Joaquim extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Ed. Nova Aguilar S.A. Rio de Janeiro, 1994, pág. 59.

Verdade - Carlos Drummond de Andrade



A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

sábado, 9 de maio de 2009

Amigos - Vinicius de Moraes



Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

À espera dos bárbaros - Konstantinos Kaváfis


O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.


Obs.:
Numa pesquisa feita pela Folha de S. Paulo, publicada em 02/01/2000, críticos literários incluem o poema "À Espera dos Bárbaros", do grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933), entre os 100 melhores poemas do século XX.
Nascido em Alexandria, no Egito, Kaváfis é considerado o mais importante poeta grego do século XX.

sábado, 25 de abril de 2009

O incivil mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké - Jorge Luis Borges

O incivil mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké - Jorge Luis Borges

           O infame deste capítulo é o incivil mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké, aziago funcionário que motivou a degradação do senhor da Torre de Ako e não se quis eliminar como um cavaleiro, quando a apropriada vingança o cominou. É homem que merece a gratidão de todos os homens, porque despertou preciosas lealdades e foi a negra e necessária ocasião de uma tarefa imortal. Uma centena de romances, de monografias, de teses doutorais e de óperas comemoram o fato - para não falar nas efusões em porcelana, lápis-lazúli venulado, e em laca. Até o versátil celulóide serve-o, uma vez que a História Doutrinal dos Quarenta e Sete Capitães - tal é o seu nome - é a mais repetida inspiração do cinema japonês. A minuciosa glória que essas ardentes atenções afirmam é algo mais que justificável: é imediatamente justa para quem quer que seja.
            Sigo o relato de A. B. Mitford, que omite as contínuas distrações que opera a cor local e prefere atender ao movimento do glorioso episódio. Essa boa ausência de “orientalismo” dá margem a se suspeitar de que se trata de uma versão direta do japonês.

O CORDÃO DESATADO

            Na desvanecida primavera de 1702, o ilustre senhor da Torre de Ako teve de receber e hospedar um enviado imperial. Dois mil e trezentos anos de cortesia (alguns mitológicos) haviam complicado angustiosamente o cerimonial da recepção. O enviado representava o imperador, mas à maneira de alusão ou de símbolo: matiz que não era menos improcedente sublinhar do que atenuar. Para impedir os equívocos muito facilmente fatais, um funcionário da corte de Yedo precedia-o, na qualidade de mestre-de-cerimônias. Longe da comodidade cortesã e condenado a uma villégiature montanhesa que lhe deve ter parecido um desterro, Kira Kotsuké no Suké dava sem jeito as instruções. Às vezes, dilatava até à insolência o tom magistral. Seu discípulo, o senhor da Torre, procurava dissimular esse escárnio. Não sabia replicar, a disciplina vedava-lhe toda a violência. Uma manhã, contudo, o cordão do sapato do mestre desatou-se e este lhe pediu que o reatasse. O cavaleiro fê-lo com humildade, porém com indignação interior. O incivil mestre-de-cerimônias disse-lhe que na realidade era incorrigível, e que somente um campônio seria capaz de amarrar um nó tão torpe. O senhor da Torre puxou da espada e deu-lhe um golpe. O outro fugiu, apenas rubricada a fronte por um fio tênue de sangue... Dias depois, o tribunal militar proferia sentença contra o agressor e o condenava ao suicídio. No pátio central da Torre de Ako, elevaram um estrado de feltro vermelho e nele se mostrou o condenado e lhe entregaram um punhal de ouro e pedras, e ele confessou publicamente sua culpa e se foi despindo até a cintura e abriu o ventre com as duas feridas rituais, e morreu como um samurai, e os espectadores mais afastados não viram sangue porque o feltro era vermelho. Um homem encanecido e cuidadoso decapitou-o com a espada: o conselheiro Kuranosuké, seu padrinho.

O SIMULADOR DA INFÂMIA

            A Torre de Takumi no Kami foi confiscada; seus capitães, debandados; sua família, arruinada e obscurecida; seu nome, vinculado à execração. Um rumor quer que, na mesma noite em que ele se matou, quarenta e sete de seus capitães deliberaram no cume de um monte e planejaram, com toda a precisão, o que se produziu um ano mais tarde. O certo é que devem ter procedido de justificadas demoras e que algum de seus concílios teve lugar, não no cume difícil de uma montanha, mas numa capela em um bosque, medíocre pavilhão de madeira branca, sem outro adorno que a caixa retangular que contém um espelho. Apetecia-lhes a vingança, e a vingança lhes deve ter parecido inalcançável.
            Kira Kotsuké no Suké, o odiado mestre-de-cerimônias, havia fortificado sua casa, e uma nuvem de arqueiros e esgrimistas custodiava seu palanquim. Contava com espias incorruptíveis, pontuais e secretos. Mais do que ninguém, zelavam e vigiavam o presumido capitão dos vingadores: Kuranosuké, o conselheiro. Este percebeu-o por acaso e fundou seu projeto vindicativo sobre esse fato.
            Mudou-se para Kioto, cidade insuperável em todo o império pela cor de seus outonos. Deixou-se arrebatar pelos lupanares, pelas casas de jogo e pelas tabernas. Apesar de suas cãs, conviveu com rameiras e com poetas, e gente ainda pior. Uma vez expulsaram-no da taberna e amanheceu adormecido no umbral, a cabeça tombada sobre um vômito.
            Um homem de Satsuma reconheceu-o e disse, com tristeza e com ira: “Não é este, porventura, aquele conselheiro de Asano Takumi no Kami, que o ajudou a morrer e que, em vez de vingar seu senhor, entrega-se aos deleites e à vergonha? Oh, tu, indigno do nome de Samurai!” Pisou-lhe o rosto adormecido e cuspiu nele. Quando os espiões denunciaram essa passividade, Kotsuké no Suké sentiu um grande alívio.
            Os fatos não pararam aí. O conselheiro despediu a esposa e o mais jovem de seus filhos, e comprou uma mulher num lupanar, famosa infâmia que lhe alegrou o coração e relaxou a temerosa prudência do inimigo. Este acabou por dispensar a metade de seus guardas.
            Numa das noites atrozes do inverno de 1703, os quarenta e sete capitães marcaram encontro num desmantelado jardim dos arredores de Yedo, perto da ponte e da fábrica de baralhos. Iam com as bandeiras de seu senhor. Antes de empreenderem o assalto, advertiram os vizinhos de que não se tratava de violação às leis, mas de operação militar de estrita justiça.

A CICATRIZ

            Dois bandos atacaram o palácio de Kira Kotsuké no Suké. O conselheiro comandou o primeiro, que atacou a porta da frente; o segundo, seu filho mais velho, que completaria dezesseis anos nessa noite. A história sabe os diversos momentos desse pesadelo tão lúcido: a descida arriscada e pendular pelas escadas de corda, o tambor do ataque, a precipitação dos defensores, os arqueiros postados na açotéia, o direto destino das flechas aos órgãos vitais do homem, as porcelanas infamadas de sangue, a morte ardente, que depois é glacial; os impudores e desordens da morte. Nove capitães morreram; os defensores não eram menos valentes e não se quiseram render. Pouco depois da meia-noite, toda a resistência cessou.
            Kira Kotsuké no Suké, razão ignominiosa dessas lealdades, não aparecia. Procuraram-no por todos os cantos desse inquieto palácio, e já desesperavam de o encontrar quando o conselheiro notou que os lençóis de seu leito estavam ainda mornos. Voltaram a procurar e descobriram uma estreita janela dissimulada por um espelho de bronze. Em baixo, de um pequeno pátio sombrio, olhava-os um homem de branco. Uma tênue espada estava em sua mão direita. Quando desceram, o homem entregou-se sem luta. Raiava-lhe a fronte uma cicatriz: velho desenho do aço de Takumi no Kami.
            Então os sangrentos capitães arrojaram-se aos pés do odioso e lhe disseram que eram os oficiais do senhor da Torre, de cuja perdição e de cujo fim ele era culpado, e lhe rogaram que se suicidasse, como o deve fazer um samurai.
            Em vão propuseram esse decoro ao seu ânimo servil. Era homem inacessível à honra; de madrugada tiveram de degolá-lo.

O TESTEMUNHO

            Já satisfeita sua vingança (mas sem ira, e sem agitação, e sem lástima), os capitães dirigiram-se ao templo que guarda as relíquias de seu senhor.
            Em uma caldeira levam a incrível cabeça de Kira Kotsuké no Suké e se revezam para cuidar dela. Atravessam os campos e as províncias, à luz franca do dia. Os homens os bendizem e choram. O príncipe de Sendai quer hospedá-los, mas respondem que há quase dois anos os aguarda seu senhor. Chegam ao escuro sepulcro e oferecem a cabeça do inimigo.
            A Suprema Corte emite a sentença. É o que esperam: lhes é outorgado o privilégio do suicídio. Todos o cumprem, alguns com ardente serenidade, e repousam ao lado do seu senhor. Homens e crianças vêm rezar no sepulcro desses homens tão fiéis.

O HOMEM DE SATSUMA

            Entre os peregrinos que acodem, há um rapaz empoeirado e exausto que deve ter vindo de longe. Prosterna-se diante do monumento de Oishi Kuranosuké, o conselheiro, e diz em voz alta: “Eu te vi jogado à porta de um lupanar de Kioto e não pensei que estavas premeditando a vingança de teu senhor, e te julguei um soldado sem fé e cuspi em teu rosto. Vim te dar uma satisfação”. Disse isso e praticou haraquiri.
            O prior condoeu-se de sua valentia e lhe deu sepultura no lugar em que os capitães repousam.
            Este é o final da história dos quarenta e sete homens leais - salvo que não tem fim, porque os outros homens que não somos leais talvez, mas nunca perderemos de todo a esperança de sê-lo, continuaremos a honrá-los com palavras.

Jorge Luis Borges, “História Universal da Infâmia” (1935).

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Um teólogo na morte - Jorge Luis Borges

              Os anjos comunicaram-me que, quando Melanchton [*] morreu, foi-lhe fornecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que havia ocupado na terra. (A quase todos recém-vindos à Eternidade sucede o mesmo e por isso acreditam não terem morrido.) Os objetos domésticos eram iguais; a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nesse domicílio, retornou a suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver, e escreveu durante alguns dias sobre a justificação pela fé. Como era seu costume, não disse palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram algumas pessoas interrogarem-no. Melanchton declarou: “Já demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que para ingressar no céu basta ter fé”. Essas coisas dizia-lhes com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram esse discurso, abandonaram-no.
              Poucas semanas depois, os móveis começaram a afantasmar-se até se tornarem invisíveis, salvo a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disso, as paredes do aposento mancharam-se de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Contudo, ele continuava escrevendo, mas, como persistia na negação da caridade, transladaram-no para uma oficina subterrânea onde havia outros teólogos como ele. Aí esteve alguns dias encarcerado e começou a duvidar de sua tese; permitiram-lhe voltar. Sua roupa era de couro sem curtir, mas tentou imaginar que os fatos anteriores haviam sido mera alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Num entardecer sentiu frio. Então percorreu a casa e percebeu que os demais aposentos já não correspondiam aos de sua moradia na terra. Um estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro tinha diminuído tanto que era impossível entrar nele; outro não tinha mudado, mas as janelas e portas davam para grandes dunas. O cômodo dos fundos estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio quanto ele. Essa adoração agradou-lhe, mas como algumas dessas pessoas não tinham rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Então determinou-se escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam apagadas amanhã. Isso acontecia porque as compunha sem convicção.
              Recebia muitas visitas de gente recém-morta, porém tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para fazê-las crer que estava no céu, combinou com um bruxo do cômodo dos fundos, e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Apenas as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, e às vezes um pouco antes.
              As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto levaram-no até as dunas e que agora é como se fosse um criado dos demônios.
             (Do livro Arcana Coelestia, de Emmanuel Swedenborg)

Jorge Luis Borges, in História Universal da Infâmia (1935).

[*] Philipp Schwarzerd, o Melanchton (1497-1560): Teólogo e educador alemão nascido em Bretten, principal colaborador de Martinho Lutero e seu herdeiro na liderança do luteranismo (1546).


terça-feira, 31 de março de 2009

Ode ao gato - Pablo Neruda

Os animais eram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade 
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
seus olhos têm números de ouro.
                             

ODA AL GATO

Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.

El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde bigote a cola,
desde presentimiento a rata viva,
desde la noche hasta sus ojos de oro.

No hay unidad
como él,
no tienen
la luna ni la flor
tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea en su contorno
firme y sutil es como
la línea de la proa de una nave.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño
emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento del amor
en la intemperie
reclamas
cuando pasas
y posas
cuatro pies delicados
en el suelo,
oliendo,
desconfiando
de todo lo terrestre,
porque todo
es inmundo
para el inmaculado pie del gato.

Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnástico
y ajeno,
profundísimo gato,
policía secreta
de las habitaciones,
insignia
de un
desaparecido terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te sabe y perteneces
al habitante menos misterioso,
tal vez todos lo creen,
todos se creen dueños,
propietarios, tíos
de gatos, compañeros,
colegas,
discípulos o amigos
de su gato.

Yo no.
Yo no suscribo.
Yo no conozco al gato.
Todo lo sé, la vida y su archipiélago,
el mar y la ciudad incalculable,
la botánica,
el gineceo con sus extravíos,
el por y el menos de la matemática,
los embudos volcánicos del mundo,
la cáscara irreal del cocodrilo,
la bondad ignorada del bombero,
el atavismo azul del sacerdote,
pero no puedo descifrar un gato.
Mi razón resbaló en su indiferencia,
sus ojos tienen números de oro.

Pablo Neruda (Chile, 1904 - 1973)

Nota: Não encontrei essa ode entre os poemas completos de Pablo Neruda; talvez seja obra de outra pessoa... 

quarta-feira, 11 de março de 2009

Dos veios escatológicos - Manoel de Barros



Na Vila não se praticavam latrinas. Donas desabavam em urinóis. E os homens no mato. Os porcos seguiam os homens pelos trilheiros que davam no mato. As lides de cagar facilitavam encontros de amor. A ponto de um viajante verter no caderno de notas: “Aqui as pessoas se filham no mato com vera competência, qual os porcos nas vielas, de forma que se pare espraiado e nascem crianças papudas e idiotas de igrejas como cupim. Lugar onde se fode e se caga no mato há de ser este!!!” (Desse jeito – !!! – com três pontos de admiração.) Na hora do homem fazer força, quando a vaidade se acaba, justo aí chegavam os porcos famintos e, lhes entrando nos homens por debaixo, saíam com eles nas costas, quando lhes não prostravam na própria obra. De forma que sujos de suas obras, como se lê no Eclesiastes. Montados ainda no porco, alguns homens entravam na Vila, na maior sengraceira, com cara de cachorro que peidou na igreja.

A fim de evitar tais vexames, depois de muito craniar, engenhoso cidadão e exemplar paroquiano inventou o Pau-Pra-Porco. Instrumento esse de madeira medindo uma bengala de lorde, chanfrada a facão, com que os homens na hora de descomer bordoavam os porcos que lhes tentassem derrubar na própria plastra. O engenhoso paroquiano abastou-se em déreis, e se tornou o rei do Pau-Pra-Porco. Com venda do mesmo nome no beco principal. Desse tempo pra cá ninguém mais apareceu na Vila montado no porco.

Na beira do Tanque da Praça da Matriz, o poeta Neco Caolho versava pras moças vergonhosas – “No dia em que me achei cagando ao vento...” bocagemente, ao de cócoras. Dava um prazer fróidico no sacristão em desmoçar as beatas dentro do Tanque, entre rãs prenhas. A égua velhaca da Praça só entregava pra ele. Era de ver a mansura da égua com o sacristão. Toda essa universal cristandade se transmitia pelo sangue.

Em 1926, o antropólogo Claude Lévy-Strauss, de viagem por ali, notou a pobreza dos móveis que encontrou no interior das residências. Dois ou três mochos na sala, arames de estender roupas nos quartos servindo de armário – e redes. Redes armadas por todos os cantos. Redes muitas de varandas artísticas, servindo de vasilhas de dormir e de sestear. No hábito de sestear no mormaço do meio-dia se amulheravam e se afilhavam também. A blandícia do mormaço engendrava crianças. Se usavam demais os dedos nos barrotes a fim de impulsionar as redes. Davam-se cópulas balançadas e refrescantes. Assim, os barrotes dos quartos sempre estavam furados. E por eles podiam-se ver as primas nos urinóis. Coisa imanente e afrodisíaca, que muito deve ter influído nas tendências voyeurísticas daquele povo. Bem como o hábito do guaraná que é bebida afrodisíaca, porém no seu ralar e não na substância da bebida. Eis que no ralar a mulher meneia os quadris. E o desejo dos homens provém do mover os quadris. Coisa que eu não descreio.

Pois foi esse o povo ladino, sensual e andejo que um dia atravessando o rio Taquari encheu de filhos e de gado o que se chama hoje, no Pantanal, a zona da Nhecolândia.

Extraído de:
BARROS, Manoel de. Livro de pré-coisas. Ed. Record, Rio de Janeiro, 2003.

*
Postei esse texto pra compensar a sisudez de alguns dos demais! A disposição para o humor é um dom especial. E lembrei da expressão “sentar no trono” que, dizem, vem do costume que havia na igreja quando da eleição de um novo papa. Segundo consta, o eleito, cheio de pompas e glórias, sentava-se em uma cadeira com um buraco no centro, à imitação de um vaso sanitário, pra que o dito cujo não se esquecesse que continuava sendo uma criatura humana, como nós outros! Parece que o memorável gesto foi abolido por João XXIII. Que pena.

domingo, 8 de março de 2009

Ouse - Lou Andreas-Salomé



"Ouse, ouse... ouse tudo! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!"

Lou Andreas-Salomé (1861-1937) foi uma bela mulher que escandalizou a sociedade e quebrou regras morais. Teve vários amantes. Conheceu Freud, Jung, Nietzsche, entre outros grandes homens. Engajada e sensível, tinha fama de sedutora.

domingo, 1 de março de 2009

Oh eu! Oh vida! - Walt Whitman

Oh eu! Oh vida! das perguntas que sobre isso se voltam,
Das infindáveis gerações de infiéis, das cidades cheias de tolos,
Eu mesmo eternamente envergonhado de mim mesmo, (pois quem mais tolo do que eu e mais infiel?)
De olhos que inutilmente desejam a luz, de objetos
insignificantes, da luta sempre renovada,
Dos pobres resultados de tudo, da multidão laboriosa e sórdida que sinto à minha volta,
Anos vazios e invisíveis para os que restam, com o que resta de mim entrelaçados,
A pergunta, oh eu! tão triste, ainda insiste - O que vale a pena por tudo isso,
Oh, eu, oh, vida?

Resposta

Que você está aqui - que a vida e a identidade existem,
Que o poderoso jogo continua, e você pode contribuir com um verso.

Walt Whitman, EUA, 1819-1892